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Língua(s)

Encontram-se, ao longo da história do Homem, diversas definições para o conceito de língua, contudo, seria hoje impensável oferecer uma explicação que não fosse amparada pela linguística. Será a partir de Saussure (inícios do séc. xx) que o estudo sobre a linguagem e as línguas se apresentará per se. Nos períodos anteriores, já desde a Antiguidade, a reflexão sobre as línguas centra-se, como lembram Dubois et al. (2002), basicamente em três pontos: (i) a preocupação religiosa com a correta interpretação dos textos antigos, reveladores da mensagem divina – com a laicização, fixa-se o texto, início da filologia; (ii) a valorização do texto antigo como modelo de escrita a seguir; e (iii) a legitimação da linguagem como uma faculdade humana (passagem do uso de uma língua à reflexão sobre ela). Será a partir deste último que a linguística (também a antropologia) trabalhará; diferenciam-se três conceitos imbricados: linguagem, língua e fala, estabelecidos por Saussure (1916) e matizados por linguistas posteriores, de entre os quais se salienta Chomsky.

A linguagem é uma capacidade, um saber de carácter geral por meio do qual os homens comunicam entre si; é universal, um conceito abstrato. A linguagem é a faculdade humana de poder comunicar os próprios pensamentos ou sentimentos a um recetor ou interlocutor mediante um sistema ou código determinado de signos interpretável por ele. A linguagem comporta um aspeto individual e outro social. A linguagem articulada, a única que é objeto de estudo da linguística, realiza-se graças a um sistema de signos aos quais o Homem atribuiu um valor objetivo.

A língua é esse sistema de signos. É a concretização dessa capacidade (a linguagem), um saber histórico que se exprime socialmente numa comunidade linguística através de um código convencional (geralmente normalizado) de signos orais – refletido normalmente num código escrito – e diferenciado de outro(s) código(s) falado(s) por outra(s) comunidade(s) (e.g., português, francês, espanhol, inglês…).

A fala é a expressão individual da língua, um saber e uso particulares da língua natural.

Portanto, a linguagem como faculdade específica do Homem precisa, para se manifestar, do binómio língua (sistema ou código social) mais fala (exercício individual deste sistema).

A distinção entre língua e fala foi matizada e desenvolvida por Chomsky (1965), com os conceitos de competência (conhecimento adquirido e inconsciente das regras da língua, graças ao qual o sujeito falante é capaz de construir, reconhecer e compreender um número infinito de frases gramaticais) e desempenho (manifestação da competência linguística de um falante).

Horizontalmente, distinguem-se variedades linguísticas como dialeto e falar. Verticalmente, distinguem-se diversos níveis linguísticos: popular, familiar, técnico, literário e argot (calão).

Do ponto de vista genético ou histórico, pode-se classificar as línguas tendo em conta o seu parentesco e, do ponto de vista tipológico, segundo a percentagem de traços afins. O inventário de línguas vivas faladas no séc. xxi é de 7097, segundo a base de dados Ethnologue (2020), cifra que varia de ano para ano, pois muitas línguas desaparecem, deixam de ser faladas (por variadíssimas razões). Neste ponto entra-se na seguinte máxima: cada língua é única e serve para organizar o mundo do indivíduo que a utiliza, pelo que quando morre uma língua perde-se uma maneira de ver o mundo. Já desde os tempos do romantismo que se converteu num costume relacionar as línguas com as diversas culturas da humanidade. Defendia-se que a pluralidade cultural tinha como causa o génio peculiar de cada língua. Sapir (1921), mais radical, afirmava que as línguas apenas refletiam os interesses de cada comunidade de falantes e que o faziam através do vocabulário especificamente cultural. O vocabulário de cada língua limita-se a dar testemunho das características próprias de cada cultura. É certo que as línguas são os instrumentos ideais para a reflexão e para a expressão dos factos culturais e, portanto, os clarificadores culturais por excelência.

As línguas, para o seu estudo e melhor compreensão, são etiquetadas segundo âmbitos históricos, políticos, sociológicos, linguísticos, etc. Algumas dessas principais designações são: língua comum (antecessora da qual derivam outras línguas, e.g., o latim e as línguas romances), língua materna (primeira língua aprendida na infância), língua morta (aquela que já não tem falantes, e.g., o manês), língua nacional (língua falada numa parte de um Estado e que pode ter reconhecimento oficial no seu território, e.g., guarani no Paraguai), língua oficial (a que um Estado estabelece como língua da administração, de cultura e alfabetização, e.g., português em Portugal), língua sagrada (língua que serviu/serve para a transmissão de uma revelação, e.g., sânscrito, hebraico, latim, etc.), língua sem nação (língua falada, normalmente, num território dividido entre vários Estados sem ser oficial nem reconhecida em nenhum desses estados, e.g., o romani na Europa), língua viva (qualquer língua ainda falada), etc.

Uma das grandes preocupações do Homem foi conhecer a origem das línguas. Na tradição ocidental, a língua original foi o hebraico; leia-se esta definição de Bluteau (1716, 140): “Lingua Santa. assim se chama por antonomasia a lingua Hebrea, ou porque Deos a infundio a nossos primeiros pays, ou porque, como advertirão os Rabbinos, a lingua Hebrea he tam pura, & casta, que não tem nomes proprios das partes genitaes, nem das que servem para descarga dos excrementos do corpo”. Segundo o mito, depois da soberba demonstrada pelo ser humano em Babel, produziu-se a confusão das línguas e o nascimento daquelas diferentes do hebraico. Os estudos atuais dizem outra coisa.

Pouco se sabe acerca das línguas faladas antes do ano 3000 a.C., mas, relativamente à representação gráfica, os estudos permitem afirmar que o sumério, língua isolada (falada entre 3000 e 1900 a.C.), é a mais antiga conhecida que se apresenta em forma escrita: caracteres cuneiformes. No início, a escrita representava signos numéricos (para contar o gado, as posses, etc.), depois pictogramas. Com o passar do tempo, a escrita simplifica-se, com traços lineares, sendo substituída apenas devido ao aparecimento de um melhor suporte, o papiro. O prestígio da escrita passou, no primeiro milénio a.C., para o grego e o latim, com alfabetos procedentes do fenício.

Finalmente, veja-se novamente Bluteau, o qual escreveu que “tem a lingua soberanas excellencias, he interprete do coração, oraculo dos pensamentos, chave da memoria, parteyra dos conceytos, vivo prelo das palavras, freyo da prudencia, & leme da razão. De sorte que como Biante, hum dos sete Sabios de Grecia, o deo a entender a Amasi, Rey do Egypto, a lingua he a melhor, & peyor cousa do mundo” (BLUTEAU, 1716, 137).

 

Bibliog.: impressa: BLUTEAU, Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, vol. v, Lisboa, Officina de Pascoal da Sylva, 1716; CHOMSKY, Noah, Aspects of the Theory of Syntax, Massachusetts, MIT Press, 1965; DUBOIS, Jean et al., Dictionnaire de Linguistique, Paris, Larousse, 2002; SAPIR, Edward, Language. An Introduction to the Study of Speech, New York, Harcourt, Brace and World, 1921; SAUSSURE, Ferdinand, Cours de Linguistique Général, préf. e ed. BALLY, Charles e SECHEHAYE, Albert, Paris, Payot, 1916; digital: ETHNOLOGUE – LANGUAGES OF THE WORLD: https://www.ethnologue.com/ (acedido a 23.08.2020).

 

José Ignacio Vázquez Diéguez

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