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Hedonismo

O termo “hedonismo” deriva do grego hēdonē (“prazer”) e refere-se a uma série de teorias filosóficas que têm por base o prazer. Podemos distinguir três tipos principais de hedonismo: o hedonismo psicológico, que defende que a procura do prazer (e a fuga da dor) é a motivação última da ação humana; o hedonismo axiológico, que sustenta que só o prazer tem um valor intrínseco; e o hedonismo ético, ou normativo, que defende que o prazer deve ser o fim último da ação humana e determina o valor moral das ações em função do prazer que cada ação produz. Concentrar-nos-emos aqui apenas no hedonismo ético, que, regra geral, pressupõe também os outros dois.

O hedonismo ético está na base de conceções de felicidade ou bem-estar assentes na minimização da dor e maximização do prazer. As primeiras teorias hedonistas conhecidas remontam à Antiguidade, destacando-se a escola cirenaica (fundada por Aristipo de Cirene) e o epicurismo (fundada por Epicuro de Samos). Ambas as escolas nasceram na Grécia, no séc. iv a.C., e ofereceram versões diferentes e concorrentes do hedonismo. Enquanto para os cirenaicos todo o prazer é um bem e deve ser procurado, especialmente os prazeres corporais, por serem mais fortes e intensos que os da mente, os epicuristas defendem que os prazeres da mente são superiores aos do corpo e que o prazer máximo que se pode atingir é a ausência completa de dor no corpo e na mente (ataraxia), pelo que a busca do prazer deve ser presidida pela razão, a prudência e a moderação. É este estado de ausência de dor que Epicuro identifica com a felicidade, ao passo que os cirenaicos a definem pela acumulação de múltiplos prazeres imediatos. A escola cirenaica teve uma duração relativamente curta, sendo rapidamente suplantada pelo epicurismo, cuja influência perdurou até aos primeiros séculos da era cristã.

Nos sécs. xviii e xix, o hedonismo ganha uma nova popularidade no contexto do utilitarismo, nomeadamente com Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873). Ao contrário do hedonismo antigo, que por se focar no prazer e na felicidade individuais é considerado uma forma de hedonismo egoísta, ambos os utilitarianismos dão primazia ao bem social e alargam o princípio consequencialista da obtenção do prazer à sociedade como um todo, defendendo a  maximização do prazer (ou bem-estar) e a minimização do sofrimento para o maior número possível de indivíduos. Os dois utilitarianismos hedonistas divergem pelo tipo de cálculo do prazer. Enquanto Bentham defende um critério quantitativo, segundo o qual uma ação é tanto melhor quanto mais prazer proporcionar ao maior número, Mill adota um critério qualitativo baseado numa distinção entre diferentes tipos de prazer, entre os quais os prazeres estéticos, intelectuais e morais são considerados superiores aos sensoriais, devendo por isso ser privilegiados no princípio de maximização do prazer.

Apesar de o hedonismo utilitarista ou altruísta ser, em geral, mais respeitado que o hedonismo egoísta, ambos são frequentemente criticados por reconhecerem valor intrínseco apenas ao prazer, negligenciando bens como a verdade, a justiça, a beleza ou a amizade. Entre os críticos mais importantes do hedonismo, encontram-se G. E. Moore (1873-1958) e Robert Nozick (1938-2002). Apesar das críticas, o hedonismo mantém-se influente no séc. xxi, tendo dado origem a várias correntes e movimentos na filosofia contemporânea, entre as quais se destacam o altruísmo eficaz de Peter Singer (1946-), que expande o critério do utilitarismo hedonista a animais não-humanos, o hedonismo cristão de John Piper (1946-), que procura compatibilizar o hedonismo com a teologia cristã, ao salientar o prazer como um constituinte fundamental da fé em Deus, o “manifesto hedonista” de Michel Onfray (1959-), que pretende reconstruir a dimensão política do hedonismo desde as suas origens e recuperá-la contra aquilo a que chama “a melancolia e decadência do Ocidente”, e o transumanismo hedonista de David Pearce, que defende o uso de biotecnologia avançada para a abolição do sofrimento em toda a vida senciente.

 

Bibliog.: BENTHAM, J., Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação, trad. BARAÚNA, Luiz J., São Paulo, Abril Cultural, 1984; EPICURO, Cartas, Máximas e Sentenças, trad. BAIÃO, Gabriela, Lisboa, Edições Sílabo, 2009; LAÉRTIOS, Diógenes, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, livs. ii e x, Brasília, Editora Universitária de Brasília, 2008; LUCRÉCIO, T., Da Natureza das Coisas [De Rerum Natura], trad. CERQUEIRA, Luís Manuel Gaspar, Lisboa, Relógio d’Água, 2015; MILL, J. S., Utilitarismo, Lisboa, Gradiva, 2005.

 

Marta Faustino

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