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Alteridade I

Do latim “alter”, “alteritas”; do inglês “otherness”; do francês “altérité”; do alemão “anderheit”. Estado, qualidade do que é outro, ou ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro. Na filosofia antiga e medieval, o termo é utilizado para indicar o que se opõe à identidade, sendo, neste sentido, sinónimo de diversidade; ou ainda o que se opõe à unidade, e, por isso, é sinónimo de multiplicidade. Implica sobretudo o problema do múltiplo e do uno associado ao problema do ser. Em Platão, a alteridade aparece sempre no seio da unidade que ela rasga. Na filosofia moderna e idealista, designa tudo o que se opõe ao sujeito. Para Hegel, a alteridade manifesta-se na dialética entre o escravo e o senhor; neste sentido, o outro é o oposto da identidade, esta constitui-se na superação da diferença. Em Sartre, o outro transforma-me em objeto, faz-me sentir vergonha diante dele; a relação torna-se ódio e luta. Na filosofia dialógica, com Buber e Marcel, o outro é o tu da familiaridade e da intimidade; a relação é essencial para a personalização. Na tradição fenomenológica, Husserl e E. Stein consideram o outro como o alter ego a quem se acede pela empatia; é fundamento da intersubjetividade e da descoberta da personalidade própria. Já para Levinas, o outro não é o tu da intimidade nem o alter ego; o outro é o estranho, o diferente, o primeiro chegado que me olha; é o paradoxo de “Sua Alteza o pobre», pois o Infinito, o transcendente, a Elleidade da terceira pessoa, interpela-me na nudez e miséria do próximo; na sua condição de expatriado, de estrangeiro, que clama: “tu não matarás!” (LEVINAS, 1984). Na sua nudez, faz-me responsável pela sua vulnerabilidade. Para Ricoeur, esta alteridade é hiperbólica, por não considerar a estima de si; esta é condição para estimar o outro como um si mesmo. A alteridade tem uma “estrutura dialogal” associada à ipseidade. Pela solicitude e abertura, o outro é o amigo, o vulnerável, o juiz ou o transcendente, que pela “injunção ética” apela ao testemunho. O problema que se coloca é saber se o outro é “totalmente Outro”, exterior a mim, ou se é constitutivo da minha identidade pessoal e espiritual. Para Marion, o transcendente manifesta-se à consciência como dom e, para M. Henry, como Vida. Já para Stein, o transcendente é um Ser pessoal em três pessoas; é Vida e Amor. O ser humano, enquanto finito, traz em si as suas marcas. O transcendente não constitui o ser humano, mas é acolhido por ele. Como em S.to Agostinho, o Amor acolhido torna-se condição para amar o próximo.

 

Bibliog.: impressa: ALICI, Luigi, L’Altro nell’Io. In Dialogo con Agostino, Roma, Città Nuova, 2000; DE FINANCE, Joseph, L’Affrontement de l’Autre: Essai sur l’Altérité, Roma, Università Gregoriana Editrice, 1973; GERL-FALKOVITZ, Hanna Barbara, “Persona. Il percorso del pensiero di Edith Stein dalla fenomenologia attraverso l’ontologia fino alla dotrina della persona”, Aquinas, n.º 59, 2016, pp. 227-234; HERNANDES, Francisco Xavier Sánchez, “Estima de sí y alteridad. Una reflexion a partir de Paul Ricoeur y de Emmanuel Levinas”, Franciscanum, n.º 160, LV, 2013, pp. 111-133; LEVINAS, Emmanuel, Autrement Qu’Être ou au-delà de l’Essence, La Haye, Martinus Nijhoff, 1974; Id., Totalité et Infini. Essais sur l’Extériorité, La Haye, Martinus Nijhoff, 1984; MEAZZA, Carmelo, “Figure del terzo e dell’altro”, in PINTUS, Giuseppe (ed.), Figure dell’Alterità, Roma, Inschibboleth Edizioni, 2019, pp. 129-148; RICOEUR, Paul, Soi-même comme Un Autre, Paris, Seuil, 1990; Id., Parcours de la Reconnaissance, Paris, Stock, 2004; digital: SALLES, Sergio de Souza, “Diversidade e alteridade em Tomás de Aquino”,  Conhecimento & Diversidade, n.º 1, 1, 2009, pp. 45-58: https://revistas.unilasalle.edu.br/index.php/conhecimento_diversidade/article/view/473/340 (acedido a 15.07.2020).

Etelvina Nunes

 


Alteridade II

O termo tem o seu étimo no latim – alteritas, atis –, que significa: qualidade do que é outro ou que pertence ao outro, propriedade de ser distinto, forma de ser ou fazer diferente.

Versa o poeta Mário de Sá Carneiro (1890-1916): “Eu não sou eu nem sou o outro/ Sou qualquer coisa de intermédio […] / Que vai de mim para o Outro”, brilhantemente expondo a diversidade humana e reconhecendo a multiplicidade do outro. A alteridade engloba por isso um grande espaço intelectual, que vai desde as artes e a filosofia, passando pelo direito, até às humanidades e ciências sociais, lançando-nos o desafio de compreender que há sociedades, culturas e pessoas singulares que são diferentes de nós e que é necessário aceitar e viver com essas diferenças, para que possamos viver numa sociedade mais justa e equilibrada. Conseguiríamos viver sem o outro? Respondendo a esta questão, a especialista em temas religiosos Karen Armstrong (n. 1944) diz categoricamente que não, que sem o outro não (sobre)viveríamos, porque dependemos dele. No entanto, a convivência com ele nem sempre tem sido conseguida, dando alguns exemplos de guerras, disputas e conflitos humanos. Na conceção antropológica do termo: “É sempre a reflexão sobre a alteridade que precede e permite qualquer definição de identidade” (AUGÉ, 1994, 84), existindo por isso uma relação intrínseca entre ambas. A alteridade é uma propriedade oposta à identidade e implica diferença, a qual por vezes pode ser sentida como uma ameaça para o “eu”. Segundo o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), esta relação entre alteridade e identidade confere à primeira um carácter polissémico e manifesta-se em três tipos de relação: a relação entre si próprio e o mundo, a relação intersubjetiva pela qual o outro impacta a compreensão de si próprio, e a relação de si próprio consigo mesmo, que representa a consciência que atesta as experiências sentidas pelo sujeito. A questão do (re)conhecimento do outro tornou-se assim objeto de reflexão, sendo resultado da mobilização social emergente de alguns grupos minoritários (minorias étnicas, culturais, marginalizadas, etc.), reivindicação ao direito a uma identidade própria e singular que encontra apoio e defesa num modelo multiculturalista, a partir do qual se consolida a ideia de que “a nossa identidade é parcialmente formada pelo reconhecimento ou pela sua ausência, ou mesmo má perceção dos outros” (TAYLOR e GUTMANN, 1994, 41).

A alteridade é, por isso, a capacidade de perceber a diferença, no sentido em que o “eu” tem de conviver com o “outro”, reconhecendo o direito à identidade e evitando potenciais discriminações.

 

Bibliog.: ARMSTRONG, Karen, “Conseguimos nós viver sem o outro?”, in APPADURAI, Arjun et al., Podemos Viver sem o Outro? As Possibilidades e os Limites da Interculturalidade, Lisboa, Tinta da China, 2009, pp. 125-137; AUGÉ, Marc, Le Sens des Autres. Actualité de l’Anthropologie, Paris, Fayard, 1994; JODELET, Denise, “Formes et figures de l’ altérité”, in SANCHEZ-MAZAS, Margarita e LICATA, Laurent (dirs.), L’Autre: Regards Psychosociaux, Grenoble, Les Presses de L’Université de Grenoble, 2005, pp. 23-47; RICOEUR, Paul, Soi-Même Comme Un Autre, Paris, Seuil, 1990; TAYLOR, Charles e GUTMANN, Amy (coords.), Multiculturalism. Examining the Politics of Recognition, Princeton, Princeton University Press, 1994.

Rui M. Sá

 

 

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