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Amor de Deus (I)

Para compreendermos o que se entende pela expressão “amor de Deus”, será necessário proceder a algumas distinções. Em primeiro lugar, podemos referir-nos ao amor que é próprio de Deus, e, neste caso, devemos distinguir em Deus o “amor essencial”, segundo a expressão “Deus é amor” (1Jo 4,8). Mas aqui temos ainda de proceder a um esclarecimento, pois estamos a traduzir por “amor” (conceito em si mesmo muito ambíguo) um termo que no grego é ágape. Este termo é tipicamente cristão, pois a língua grega conhecia o eros, que evocava, em Platão, a tensão inscrita nos seres em busca duma unidade original perdida, de tal modo que se dizia que o semelhante gosta do seu semelhante, o que tinha como consequência que não se podia dizer de Deus que fosse suscetível de amor, por não ter nenhum semelhante.

A filosofia grega conhecia o termo filia, que, em Aristóteles, designava o que unia os amigos, entendendo a amizade como benevolência, ou seja, querer bem a alguém por aquilo que ele é, e não por aquilo que ele pode dar. Estes eram os dois graus do “amor” que a cultura grega conhecia. O cristianismo cria o conceito de ágape para indicar a essência de Deus, segundo a expressão de S. João, que o latim traduz por caritas: “Deus caritas est” (1Jo 4, 8).

Mas em Deus consideramos também o “amor pessoal”, que é o Espírito Santo na Santíssima Trindade. Esta é a primeira consideração que devemos ter em conta quando falamos do “amor de Deus”, referindo-nos tanto à essência do mistério da Santíssima Trindade, como também ao mistério da terceira pessoa divina, o Espírito Santo, que é o amor pessoal em Deus.

A segunda consideração diz respeito ao “amor de Deus” a respeito das criaturas. A teologia, especialmente em S. Tomás de Aquino, distingue dois tipos de amor: o amor em geral, pelo qual Deus ama tudo o que criou, e o amor preferencial, segundo o qual, sendo a bondade de Deus que torna boas as coisas, se umas são melhores do que outras, é porque Deus ama mais intensamente umas do que outras, na base, porém, de que Deus ama tudo o que criou, segundo a afirmação de Jesus: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe enviou o seu Filho não para condenar, mas para salvar o mundo” (Jo 3, 16).

Mas o “amor de Deus” refere-se também à atitude do Homem para com Deus: “Escuta, Israel, o Senhor é o único Deus, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente, com todas as tuas forças” (Dt 6, 4), que encontra a sua forma sintética no duplo mandamento formulado por Jesus: “Amar Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (cf. Mt 22, 37-40). Na teologia espiritual, esta relação do Homem com e para com Deus é traduzida no que podemos chamar as três vias para alcançar a salvação: a via do temor, a via da esperança e a via do amor (cf. BERNARDO DE CLARAVAL, De Diligendo Deo). Na via do temor, o Homem respeita os mandamentos da lei de Deus pelo medo das consequências negativas, no caso de não obedecer, consequências trágicas se considerarmos a existência do Inferno. A segunda via, mais perfeita, é a via da esperança, na qual o Homem obedece aos mandamentos na esperança de alcançar algum benefício, ou seja, a salvação, não só em termos da paz e tranquilidade nesta vida, mas também a salvação no Paraíso, na vida eterna. A terceira via é a do amor, a mais perfeita: é a obediência aos mandamentos por puro amor, por Deus e em Deus, e o amor em relação ao próximo, por causa de Deus e em Deus.

Estas três vias correspondem ao esquema clássico da experiência mística, que, na ascensão da alma para Deus, passa por três fases – a purgativa, a iluminativa e a unitiva –, as quais não devem ser vistas como etapas sucessivas cronologicamente entendidas, como se uma sucedesse à outra, mas numa relação de circularidade: a alma deve permanentemente passar do temor e da esperança ao amor, pois não pode, em nenhum momento, instalar-se.

Na sua orientação para Deus, a alma está sempre a caminho duma perfeição que só se alcança na visão beatífica. Quanto mais a alma se aproxima da perfeição, mais sente o abismo da distância criatural em relação à santidade de Deus. Segundo S. Francisco de Sales (Tratado do Amor de Deus), o “amor de Deus” exprime-se na “santa indiferença”. A santa indiferença brota da intensidade de amor com que a alma se sente amada: desde que não se separe absolutamente do amor com que é amada, é-lhe indiferente o lugar ou o tempo em que possa viver este amor passivo, contanto que o não perca. E, por isso, conclui S. Francisco de Sales, dum modo aparentemente surpreendente, que preferia, por “obediência”, estar no Inferno do que, por “desobediência”, estar no Paraíso. Isto faz pensar na resposta de Jesus ao bom ladrão: “hoje estarás comigo no paraíso” (Tratado do Amor de Deus). A descida de Jesus por obediência ao sheol transformou o lugar da morte e do afastamento de Deus no lugar da sua proximidade. A essência do mistério cristão está bem patente no testemunho de S. Paulo: “Ele amou-me e entregou-se por mim” (Gl 2, 20).

 

José Jacinto Ferreira de Farias


Amor de Deus (II)

O amor de Deus é uma das características mais importantes do cristianismo. Em Jo 3, 16, lemos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Este versículo destaca a profundidade do amor divino, que nos liberta do pecado e da escravidão. Ao experimentar o amor de Deus, somos libertos do egoísmo e do apego às coisas materiais. Em 1Jo 4, 8, encontramos a afirmação “Deus é amor”. Isso significa que não há ninguém que Deus não ame, seja crente ou descrente. A diferença reside na resposta que cada um dá a esse amor. Deus não apenas ama, como é a própria personificação do amor. Todo o bem e toda a beleza no mundo refletem esse amor divino, que é inclusivo e universal, alcançando a todos, independentemente das suas ações ou crenças. Ele chama-nos a uma transformação profunda, tocando a essência do nosso ser. O amor é o caminho que conduz o ser humano a Deus. Ao amar a Deus, somos atraídos para Ele e unimo-nos a Ele. Esse amor deve ser o motor de todas as nossas ações. A vida cristã é uma resposta contínua ao amor de Deus, refletida nos nossos pensamentos, palavras e ações.

S.to Agostinho, um dos maiores teólogos da Igreja, afirma que amar a Deus é desejar o que Ele deseja para nós. Ao alinharmos a nossa vontade com a divina, encontramos a verdadeira felicidade. Esse alinhamento não é passivo, mas uma participação ativa na vontade de Deus, que nos dá um profundo sentido de propósito. O amor de Deus transforma-nos e convida-nos a transformar o mundo à nossa volta. Prova disso é o testemunho do Doutor da Graça, que refere que antes de amar a Deus  o mundo era uma carga para si, e Ele, carregando-o, levou-o para junto de si. Esta frase revela a experiência de Agostinho de ser amado por Deus de forma incondicional, mesmo na sua condição pecaminosa.

No cristianismo, o amor de Deus é a base da moralidade e da ética. Ele chama-nos a amar o próximo, a praticar a justiça e a viver em paz. Esse amor desafia as expectativas humanas, instigando-nos a amar os inimigos, a perdoar os que nos ofendem e a ajudar os necessitados. Portanto, o amor de Deus não é apenas um sentimento, mas uma ação concreta que se deve manifestar na nossa vida diária. Ao vivermos esse amor, experimentamos uma liberdade que supera as limitações impostas pelo mundo. Somos livres para amar sem restrições, servir sem esperar nada em troca e perdoar sem condições. Essa liberdade é fruto da ação do Espírito Santo, que nos capacita a viver conforme a vontade de Deus.

Em resumo, o amor de Deus é o alicerce da fé cristã. Ele é a força que nos move, a luz que nos guia e a esperança que nos sustenta. Ao respondermos a esse amor, somos chamados a viver de maneira digna, refletindo a imagem de Deus nas nossas ações. É através desse amor que encontramos sentido, propósito e verdadeira felicidade.

 

Bibiog.: SANTO AGOSTINHO, Confissões, trad. Padre Raul de Aquino, Petrópolis, Vozes, 2010.

 

Luís Branco

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