Derivado do grego idioglōssia (ιδιογλωσσία), de idio-, “pessoal” e glōssa, “língua”, o termo denomina uma língua artificial privada, isto é, criada e falada por um número reduzido de pessoas. Distinguindo-se das línguas naturais, as idioglossias não surgem espontaneamente e o seu uso como instrumento de comunicação é bastante restrito. A criptofasia, também designada como glossolalia lúdica, constitui um dos tipos de idioglossias. Neste caso, refere-se a uma língua ininteligível criada e utilizada por crianças, sendo bastante comum na comunicação entre irmãos gémeos, mas também em crianças expostas a várias línguas nos primeiros anos de vida. Para Bakker (1987), a designação “linguagem autónoma” deve ser a privilegiada, em detrimento da denominação “linguagem de gémeos”, dado que este não é um fenómeno exclusivo das crianças gémeas. Neste âmbito, a especificidade da idioglossia reside no facto de a língua utilizada pelas crianças ser incompreensível para os outros. No entanto, ao contrário do que sucede nos casos entre irmãos gémeos, quando a língua ininteligível é utilizada individualmente, é muitas vezes atribuída uma origem patológica, o que poderá não ser adequado, tendo em conta que os erros de articulação e a invenção de palavras são fenómenos frequentes nos estádios de aquisição da linguagem de todas crianças. Para que haja aquisição de uma linguagem autónoma, é necessário que os erros de articulação e o vocabulário desviante sejam também assumidos por um interlocutor, sendo, por isso, mais usual entre as crianças gémeas. Porém, este fenómeno também pode ocorrer entre irmãos que não sejam gémeos e entre crianças sem laços de consanguinidade. Apesar dos casos de idioglossia serem frequentes em gémeos, diversos estudos indicam que este é, na maioria das vezes, um fenómeno temporário. Por exemplo, Jakobson e Waugh, na obra La charpente phonique du langage (1980), no capítulo “L’art verbal des enfants”, observam a linguagem idiossincrática das canções infantis, cujo vocabulário parece integrar-se numa língua desconhecida. Por outro lado, a capacidade de comunicar numa língua desconhecida é frequentemente associada a fenómenos de carácter místico e religioso, sendo muitas vezes vista como um milagre ou dom divino. Desde a Antiguidade que se testemunham casos da denominada glossolalia mística e religiosa, como, por exemplo, nos mistérios religiosos greco-romanos e na Bíblia, como atesta o relato do milagre do dia de Pentecostes: “cada um os ouvia falar na sua própria língua” (At 2, 6). Ao longo dos séculos, são vários os exemplos de práticas de glossolalia religiosa, nomeadamente da abadessa Hildegard von Bigen (1098-1179), de S. Vicente Ferrer (1350-1419), de S. Francisco Xavier (1506-1552), de S. Louis Bertrand (1526-1581), bem como de místicos como S. João de Ávila (1500-1569), S.ta Teresa de Ávila (1515-1582), S. João da Cruz (1542- 1591) e S.to Inácio de Loyola (1491-1556).
Bibliog.: impressa: BAKKER, Peter, “Autonomous languages of twins”, Acta Genet Med Gemellol, n.º 36, 1987, pp. 233-238; Bíblia Sagrada, 74.ª ed. da Bíblia Ave Maria, trad. Monges de Maredsous e rev. José Pereira de Castro, Centro Bíblico Católico (Brasil), Editorial Missões Cucujães, s.d.; JAKOBSON, Roman e WAUGH, Linda, La charpente phonique du langage, Paris, Minuit, 1980; PUECH, Christian, “Parler en langues, parler des langues”, Langages, n.º 91, 1988, pp. 27-38.
Rute Rosa