Manuscrito medieval com iluminuras que cataloga bestas, isto é, animais reais e imaginários, com o objetivo de descrever o mundo natural, mas também de instruir o homem no sentido de aprender o caminho da redenção. A par da descrição das criaturas, é transmitida uma mensagem moralizante de orientação cristã, de acordo com a simbólica binária que norteia a vida humana: a representação do bem (virtudes) ou do mal (vícios), ou dos dois em simultâneo. A dimensão descritiva, literal, é designada de naturas, e a de pendor didático, de interpretação simbólica e alegórica, de figuras, conceitos já usados no Bestiaire de Philippe de Thaon. Trata-se de um texto híbrido que é, em simultâneo, “livro naturalista, livro maravilhoso, livro de estudo, livro mnemónico, livro exegético, livro didático e livro alegórico” (VARANDAS, 2006, 22). O termo bestiário estendeu-se para lá do contexto medieval, sendo atualmente aplicado a obras que inventariam faunas e que fazem das bestas, bichos e outras criaturas os protagonistas dessas mesmas obras.
O Bestiário enquanto género é uma herança do Fisiólogo, os textos gregos de autoria desconhecida, escritos provavelmente entre os sécs. i e iii d.C., posteriormente traduzidos para latim, que se foram transformando, na passagem da Época Clássica para a Idade Média, recebendo outros contributos, nomeadamente enciclopédicos, tais como As Etimologias de Isidoro de Sevilha, obra datada do séc. vi d.C., e do Polyhistor de Solino, que retoma livros da Historia Naturalis, de Plínio, do séc. i d.C. O género foi-se construindo em torno de uma sucessão de empréstimos entre autores, prática recorrente na época, pelo que estas obras são fruto de várias mãos que se dedicaram não só a traduzir, ou copiar, mas também a ampliar. A proliferação do Bestiário coincide com o crescimento das bibliotecas monásticas, onde monges de diversas ordens (Beneditinos, Cistercienses e Agostinhos) se dedicaram à sua produção. Com a tradução para línguas como o anglo-saxónico, o árabe, o islandês, o provençal, o castelhano, o italiano, entre outras, já se pode falar em Bestiário propriamente dito.
A sua primeira versão cristã tem vindo a ser atribuída a S.to Ambrósio, mas também a outros autores: S. Pedro de Alexandria, S.to Epifânio, S. Basílio, S. João Crisóstomo, S.to Atanásio ou S. Jerónimo (sécs. iv/v). A descrição do animal inscreve-se na relação com o dogma cristão: antecede-lhe a citação bíblica e sucede-lhe uma interpretação moral e alegórica, daí que o Bestiário esteja mais próximo de um compêndio ao serviço de uma ordem espiritual ou religiosa do que dos tratados de história natural, de carácter puramente científico. O valor exemplar dos animais e criaturas extravasa o campo objetivo da factualidade para se instaurar no plano de um didatismo orientado para a prática de uma vida virtuosa em pleno acordo com os valores cristãos.
Os bestiários tiveram uma larga fortuna em Inglaterra e também em França, tendo vindo a desaparecer por volta do séc. xv. É o crítico Montague Rhodes James (1862-1936) que, em The Bestiary, organiza os manuscritos por famílias, após uma introdução alusiva à imagética do género, na qual descreve as ilustrações dos bestiários ao mesmo tempo que apresenta as personagens que os protagonizam: por um lado, os animais reais (tais como o cão, o cavalo, os répteis, as aves e os insetos), por outro, os imaginários, tais como a mantícora (criatura com corpo de leão, cabeça de homem e asas de dragão ou morcego), o eale (uma espécie de bode que pode mover os seus cornos, apontando-os para qualquer direção: para a frente ou para trás), o unicórnio (que só pode ser capturado quando está a descansar com o seu único corno no colo de uma donzela), a pantera (de respiração tão doce que atrai todas as criaturas, menos o dragão), o grifo (tão forte que pode carregar um cavalo), etc. A este grupo acrescenta as criaturas humanas marcadas pela deformidade física exagerada, a anormalidade e a monstruosidade, figuras estas muitas vezes retiradas do testemunho fantasioso de viajantes em contacto com tribos de lugares longínquos: homens com um único olho na testa ou nos peitos, com os pés virados para trás ou com um pé enorme que lhes serve de guarda-chuva, com as orelhas tão grandes, que podem cobrir-se com elas à noite, homens, ainda, que vivem apenas do cheiro das flores, etc. M. R. James distingue várias famílias de bestiários: uma primeira família que contém passagens de “De Animalibus”, o livro xii das Etimologias de S.to Isidoro de Sevilha (a essa família, anos mais tarde, Florence McCulloch adicionará uma subfamília); uma segunda família, de manuscritos ingleses, que contém já uma forma estilizada de bestiários, depois das transformações todas que foi sofrendo o Fisiólogo; uma terceira e uma quarta famílias, de dimensão mais alargada, igualmente em inglês, que incluem ambas a secção das Nações Fabulosas de Isidoro de Sevilha e das criaturas mitológicas; e os manuscritos franceses, menos exuberantes do que os ingleses, constituídos por quatro importantes bestiários: o Bestiaire de Philippe de Thaon, o Bestiaire de Gervaise, o Bestiaire Divin de Guillaume le Clerc e o Bestiaire de Pierre de Beauvais.
O Bestiário inscreve-se num registo neoplatónico, na medida em que, apresentando a obra do criador, o mundo material, em toda a sua visceralidade, permite um acesso a uma verdade transcendental. Através da contemplação e do estudo da obra viva de Deus, isto é, do grande Livro da Natureza, o homem ascende ao mundo espiritual e à perfeição. A paridade com a Bíblia é, então, notória. Cada animal é uma peça simbólica que revela o divino e que, como tal, carece de uma descodificação. A sua voz está em estreita relação com a Palavra de Deus, com o Verbo.
Uma nova tradição poética de bestiários surge na América Latina dos anos 50 do séc. xx, mágica e prolífera no exotismo das imagens. Julio Cortázar e Juan José Arreola assinam obras que intitulam de Bestiários, em 1951 e em 1959, respetivamente, tratando o tema animal a partir de um ponto de vista já distante das soluções divinas do modelo medieval, mais próximo de um modelo de contornos humanos. Jorge Luis Borges escreve o Manual de Zoologia Fantástica, em 1957, que amplia, 10 anos depois, sob o título de El Libro de los Seres Imaginarios. Ao conjunto dos animais existentes na realidade, Borges chama a Zoologia de Deus, que contrapõe ao grupo dos animais mitológicos e dos monstros, a Zoologia dos Sonhos. A presença animal faz-se também notar em Augusto Monterroso (La Oveja Negra y demás Fábulas, 1969), Pablo Neruda (Arte de Pájaros, 1966), Nicolás Guillén (El Gran Zoológico, 1967), entre outros. O espanto perante a alteridade das bestas que construiu as imagens do passado converte-se, no contexto latino-americano da segunda metade do séc. xx, no seu contrário: especialistas acreditam que a estranheza se tornou num elemento familiar, “num reconhecimento do que foi recalcado pelo processo de colonização ao longo de todos estes séculos” (MACIEL, 2007, 150).
Este pacto com o animal manifesta-se em escritores de gerações posteriores, tanto latinos de expressão portuguesa, como o brasileiro Wilson Bueno (Manual de Zoofilia, 1997; Jardim Zoológico, 1999), assim bem como espanhóis, tais como Javier Tomeo (Zoopatías y Zoofilías, 1993; Bestiario, 2000 e 2007; Cuentos Completos, 2012), Gustavo Martín Garzo (“Mi vida con Block”, Bestiario, 1997), Ángel García López (Bestiario, 2000), Daniel Nesquens (Hasta casi 100 bichos, 2001) ou Juan Jacinto Muñoz Rengel (El Libro de los Pequeños Milagros, 2013). Do lado português, a ilustração da natureza salvífica do que é natural, primário, genesíaco, está presente em Miguel Torga (Bichos, 1940), mas também em escritores que, como José Saramago (em vários romances), explanam a intensidade do diálogo entre o animal e o humano, ou exploram as fronteiras entre ambos, como acontece em Valter Hugo Mãe (vários romances).
A revitalização do género, longe do diálogo com os ensinamentos cristãos do período medieval, persiste, contudo, no cotejo com questões de natureza moral, fortemente presentes num outro género vizinho, a Fábula. O gesto enciclopédico do passado preserva a sua universalidade numa inclinação para o colecionismo, que responde à ideia da abrangência possível, numa época fragmentária como é a contemporânea. Em 2016, o filósofo Christian Godin recupera, em Le Grand Bestiaire de la Philosophie, o rasto da presença animal na história da filosofia, apresentando uma extensa lista de animais de diferentes categorias que foram funcionando como personagens concetuais na ilustração de ideias: o boi de Xenofonte, a avestruz de Aristóteles, o cavalo de Platão, o papagaio de Locke, o orangotango de Rousseau, a pomba de Kant, o porco-espinho de Schopenhauer, o leão de Nietzsche, a galinha de Bertrand Russell, o cão de Levinas, o ouriço de Derrida, a mosca de Sartre, etc. Ao gesto compilatório somam-se outros – o poético, o absurdo, o cómico –, e é neles que se vê envolto o bestiário de personagens literárias da atualidade, cujas imagens estão nítidas no imaginário coletivo dos leitores, pela portentosa sobrevida de que são detentoras as criaturas que, como Gregório Samsa, de Kafka, ultrapassam o seu criador e a sua ficção.
Bibliog.: impressa: GODIN, Christian, Le Grand Bestiaire de la Philosophie, Paris, Cerf, 2016; RHODES JAMES, Montague, “The bestiary”, History: The Quarterly Journal of the Historical Association, Eton College Natural History Society Annual Report (publicação original), 1930-1931, pp. 12-16; digital: BERGOT, Louis-Patrick, “Introduction à la tradition des bestiaires français (XIIe-XIIIe siècles)”, Université Paris-Sorbonne, 2015 : https://www.academia.edu/22211282/Introduction_%C3%A0_la_tradition_des_bestiaires_fran%C3%A7ais_XIIe_XIIIe_si%C3%A8cles_(acedido a 19.09.2020); GONZÁLEZ GARCÍA, Francisco, “Nuevos bestiarios en la literatura española contemporánea”, Revistas de la Universidad de León, n.º 11, 2016: http://revpubli.unileon.es/ojs/index.php/LectSigno/article/view/4754 (acedido a 22.09.2020); MACIEL, Maria Esther, “Bestiários contemporâneos: animais na poesia brasileira e hispano-americana”, Revista Via Atântica, n.º 11, 2007, pp. 145-153: http://www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/50671/54783 (acedido a 05.09.2020); VARANDAS, Angélica, “A Idade Média e o Bestiário”, Medievalista (online), n.º 2, 2006: https://medievalista.fcsh.unl.pt/MEDIEVALISTA2/PDF2/bestiario-PDF.pdf (acedido a 12.08.2020); SERRA, António José, “Bestiário”, in CEIA, Carlos, E-Dicionário de Termos Literários, 2009: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/bestiario/ (acedido a 20.07.2020).
Almerinda Pereira