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Consubstancial

O termo “consubstancial” (do latim consubstantialis, tradução do grego homoousios) exprime, na teologia cristã, a identidade de natureza entre o Filho e o Pai, tal como professado no Credo niceno-constantinopolitano: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. A afirmação de que o Filho é homoousios com o Pai foi decisiva para a formulação da doutrina trinitária, assegurando a plena divindade do Verbo e a unidade de essência entre as três Pessoas divinas.

O termo homoousios tornou-se central na controvérsia ariana do séc. iv. Ário, presbítero de Alexandria, defendia que o Filho era a primeira criatura de Deus, mas não eterno nem plenamente divino. Em resposta a esta heresia, o Concílio de Niceia I (325) proclamou solenemente que o Filho é homoousios ao Pai, ou seja, partilha da mesma substância divina. Esta palavra, embora ausente da linguagem bíblica, foi escolhida para exprimir de forma inequívoca que o Filho não é semelhante (homoiousios) ao Pai por grau ou aparência, mas igual em essência. Após o concílio, o termo foi alvo de controvérsia, sendo rejeitado por vários grupos arianizantes ou semiarianos. Foi o Concílio de Constantinopla I (381) que confirmou e aprofundou a doutrina de Niceia, aplicando a mesma lógica trinitária ao Espírito Santo: também Ele é Deus verdadeiro e homoousios com o Pai e o Filho.

Dogmaticamente, homoousios exprime a fé da Igreja na unidade da essência divina em três Pessoas distintas. A Trindade não consiste em três deuses semelhantes, mas em três hipóstases que subsistem na mesma e única substância divina. Esta fórmula protege simultaneamente a distinção das Pessoas e a unicidade de Deus.

No plano cristológico, afirmar que o Filho é consubstancial ao Pai significa que Ele é Deus verdadeiro desde sempre, e não apenas após a encarnação. A sua divindade não é adquirida nem delegada, mas partilhada eternamente. Esta afirmação torna possível a salvação: só Deus pode salvar, e é precisamente Deus que se revela e se entrega em Jesus Cristo.

O termo homoousios tem consequências decisivas para a teologia sistemática, particularmente na doutrina da Trindade, na cristologia e na soteriologia.

Na teologia trinitária, o conceito de consubstancialidade garante a coigualdade e a coeternidade das Pessoas divinas, evitando quer o triteísmo (três deuses), quer o subordinacionismo (hierarquia ontológica entre as Pessoas). Trata-se de uma unidade não apenas moral ou funcional, mas ontológica e absoluta: o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus.

Na cristologia, o reconhecimento da consubstancialidade do Verbo com o Pai é indissociável da sua união hipostática com a humanidade. Aquele que assume a carne é plenamente Deus, por isso, os atos humanos de Jesus têm valor salvífico universal. Na eucaristia, é o próprio Deus feito carne que se dá.

No plano sacramental e eclesiológico, a presença consubstancial do Verbo na Igreja, especialmente nos sacramentos, fundamenta a eficácia da ação litúrgica e a comunhão real dos fiéis com o Deus trinitário.

Espiritualmente, a consubstancialidade do Filho com o Pai é fonte de confiança e adoração. Em Jesus Cristo, não encontramos apenas um mestre ou profeta, mas a revelação definitiva de Deus. Ele é o “rosto do Pai”, “a imagem do Deus invisível” (Cl 1, 15). Crer na divindade consubstancial de Cristo transforma a oração cristã: a relação com o Filho é a relação com o próprio Deus. A liturgia da Igreja expressa esta fé com clareza, especialmente no Credo recitado na eucaristia dominical e nas festas trinitárias e cristológicas. A celebração do Natal, da Páscoa e da Ascensão pressupõe a divindade plena de Cristo, como também a sua comunhão eterna com o Pai e o Espírito Santo. A espiritualidade cristã, centrada em Cristo, é trinitária por natureza, porque se dirige ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

 

Bibliog.: Catecismo da Igreja Católica, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1993; CONGAR, Yves, O Espírito Santo no Dogma, São Paulo, Loyola, 1997; LOSSKY, Vladimir, A Fé da Igreja, Lisboa, Paulinas, 2001; O’COLLINS, Gerald, Christology, Oxford, Oxford University Press, 2009; PANNENBERG, Wolfhart, Systematic Theology, vol. 1, Grand Rapids, Eerdmans, 1991; RAHNER, Karl, A Trindade, São Paulo, Paulus, 2001; von BALTHASAR, Hans Urs, Theo-Logic, vol. 1: The Truth of the World, San Francisco, Ignatius Press, 2000.

 

José Jacinto de Farias

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