O conceito de “carismático” deriva do termo grego χάρισμα (charisma), que significa um dom outorgado pela graça divina ou favor imerecido, sendo assim um conceito teológico, originalmente. O conceito de “carismáticos” compreende ainda, na sua versão trivializada, a perceção comum de alguém com um encanto convincente e inspirador da devoção dos outros. Neste último sentido, o conceito pode incluir líderes que na área da sua intervenção política são carismáticos, como, por exemplo, Adolfo Hitler e Martin Luther King Jr., ou, ainda, Cristiano Ronaldo, na área do desporto, e Jeff Bezos, fundador da Amazon. No entanto, neste texto o conceito de “carismáticos” deve entender-se relativamente à sua referência teológica essencial, relacionada com o movimento carismático no seio do cristianismo, que, neste caso, inclui os que creem e afirmam experimentar algo semelhante ao que aconteceu no Dia de Pentecostes, em Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos, nos capítulos 2 e seguintes.
De acordo com Orr (2000, 6), os reavivamentos espirituais são ações de Deus correspondidas pelas pessoas envolvidas. Assim, muitos foram os que nos sécs. xviii e xix, com o seu zelo e intensidade espiritual, precederam “O Primeiro Grande Avivamento” (1727), nos Estados Unidos da América (EUA). O mesmo aconteceu relativamente ao “Segundo Grande Avivamento” (1858-1859), também nos EUA, quando muitos cristãos norte-americanos e canadianos oraram intensamente, buscando a manifestação divina sobrenatural.
A partir do ano 1900, parece que Deus decidira manifestar-Se à escala global. Assim, em 1900-1901, muitos cristãos japoneses adotaram uma atitude de oração por despertamento espiritual, e, no espaço de apenas um ano, as igrejas evangélicas japonesas receberam 25.000 novos membros. Também em 1900, um movimento de oração intenso originou o Avivamento Galês (1904-1905), entre as igrejas evangélicas locais. No entanto, o epicentro do despertamento espiritual que deu origem ao Movimento Pentecostal entre os evangélicos a nível mundial aconteceu primeiramente como consequência do ministério de Charles Fox Parham, que, em 1900, fundara o “Movimento da Fé Apostólica”, juntamente com a fundação da escola bíblica denominada “O Espírito Santo e Nós” e, mais tarde, o Instituto Bíblico “Bethel College”.
Influenciados por Agnes Ozmann, vários alunos ficaram a orar uma noite inteira para receberem a “experiência sobrenatural de falar em línguas [estranhas], o que aconteceu quando Parham impôs as mãos sobre a cabeça deles” (POMMERENING, 2011, 10). Entretanto, o filho de escravos negros William Seymour frequentou o Bethel College e também recebeu o “batismo no Espírito Santo”, no dia 9 de abril de 1906. Foi pelo ministério de William Seymour, na rua Azusa, em Los Angeles, nos EUA, que nasceu entre os evangélicos o Movimento Pentecostal, que a nível mundial, no 3.º milénio, continua a crescer exponencialmente.
A partir do início da década de 1950 surgiu o que é conhecido como “Movimento Carismático”, ou, ainda, “Movimento de Renovação Carismática”, estando historicamente e teologicamente ligado ao Movimento Pentecostal, seu predecessor. O “Movimento Carismático” irrompeu como uma erupção vulcânica em quase todas as igrejas cristãs históricas, aparecendo ideologicamente ligado à crença de que esse movimento de renovação espiritual era o cumprimento da profecia de Joel mencionada em AT 2, 17. Na perspetiva de Medved (2015, 175), a partir de meados do séc. xx a experiência pentecostal do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar línguas estranhas e de manifestações dos dons espirituais do Espírito Santo, expandiu-se em três direções: (1) Para as Igrejas cristãs mais históricas, como as protestantes e a Igreja Ortodoxa (desde 1950); (2) Para a Igreja Católica Romana, como resultado das opções teológicas e eclesiásticas do Concílio Vaticano II (desde 1967); e (3) Para outras Igrejas autónomas, não confessionais (desde finais da década de 1960).
Ainda de acordo com Medved (2015, 176), o Movimento Carismático global conhecido nas primeiras décadas do séc. xxi é considerado como a “segunda onda do Espírito Santo”, sendo a do Movimento Pentecostal chamada de “primeira onda” (MEDVED, 2015, 175-176). Medved explica que o facto de os crentes das Igrejas históricas entenderem que a sua experiência do batismo no Espírito Santo, com a evidência de falar línguas estranhas, confirmava ser a mesma experiência do pentecostalismo clássico. Mas, porque consideravam terem já “nascido de novo” e serem cristãos, a maior parte desses membros das Igrejas históricas não abandonaram as suas Igrejas; pelo contrário, passaram a acreditar que a sua experiência intensamente espiritual devia servir algum propósito divino na sua própria Igreja ou denominação cristã.
No séc. xxi, o sentido lato de “carismáticos” inclui os pentecostais e os carismáticos em geral, e há quem considere ainda deverem incluir-se os neopentecostais. No entanto, devido à sua ênfase na “teologia da prosperidade”, os neopentecostais não são bem aceites pelos pentecostais, nem pelos carismáticos, no seio das suas organizações representativas. É o caso da Aliança Evangélica Mundial, que congrega mais de 600 milhões de cristãos evangélicos, incluindo as Igrejas pentecostais, mas não os neopentecostais.
Bibliog.: impressa: BERRY, George R., Interlinear Greek-English New Testament with a Greek-English Lexicon and New Testament Synonyms, 8.ª imp., Grand Rapids-MI, Baker Book House, 1985; CHAN, Chiu-yuen L., An Understanding of Classical Pentecostal Mission: Azusa Street Mission and Transcendence of Race and Class, Inculturation and Detraditionalization, Tese de Mestrado em Divindade na área da Teologia apresentada à Chinese University of Hong Kong, texto policopiado, 2001; LEPSIUS, M. Rainer, “Charismatic Leadership: Max Weber’s Model and Its Applicability to the Rule of Hitler”, in GRAUMANN, C.F. e MOSCOVICI, S. (eds.), Changing Conceptions of Leadership, Springer, New York, NY, 1986; ORR, J. Edwin The Outpouring of the Spirit in Revival and Awakening and its Issue in Church Growth, South Wales, British Church Growth Association & Church Growth Modelling, 2000; McCLUNG, Grant (ed.), Azusa Street & Beyond, 2nd ed., Alachua-FL, Bridge-Logos, 2012; MEDVED, Goran, “The Doctrine of the Baptism in the Spirit in the Charismatic Movement”, KAIROS – Evangelical Journal of Theology, vol. ix, n. 2, 2015, pp. 171-186; digital: PINES, Ethan, “America’s Most Innovative Leaders”, Forbes, 2019: https://www.forbes.com/lists/innovative-leaders/#71d68e6726aa, (acedido a 20.09.2020);
POMMERENING, Claiton I., “Pentecostalidade e pentecostalismo: Fatores de crescimento associados à oralidade”, Azusa – Revista de Estudos Pentecostais, vol. 2, n.º 1, 2011, pp. 7-38: http://azusa.faculdaderefidim.edu.br/index.php/azusa/article/view/8/7 (acedido a 22.09.2020); QUIRION, Kori R.T., “The First Great Awakening: Revival and the Birth of a Nation”, Bound Away: The Liberty Journal of History, vol. 1, issue 2, article 3, June 2016: https://digitalcommons.liberty.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1015&context=ljh (acedido a 20.09.2020); TENDERO, E.M. (ed.), “Our History”, World Evangelical Alliance online, 2020: https://worldea.org/en/who-we-are/(acedido a 23.09.2020).
Fernando Caldeira da Silva