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Cinismo

Tradição filosófica da Antiguidade Clássica orientada à radical autossuficiência (autarkeia) do sábio (ou sábia: vd. o exemplo de Hipárquia de Maroneia) e hostil a todas as convenções sociais, por estas afastarem o humano da vida “conforme à natureza” (kata physin), o ideal cínico. Cultores extremos da pobreza voluntária, os cínicos destacavam-se também pela sua parrhesia (“falar franco”). Diógenes de Sínope (c. 412/403-324/321 a.C.) é normalmente tido por o primeiro cínico. Os seus contemporâneos, em virtude do seu estilo de vida impudente, chamavam-lhe “o Cão” (em grego, kyon, de onde kynikos, “o semelhante ao cão”). Dele pouco se sabe com segurança, a tal ponto a sua figura histórica se esvaneceu sob as inúmeras anedotas que o têm por protagonista, nas quais, com humor corrosivo, desconstrói, por gestos e palavras, os adquiridos sociais e políticos do seu tempo, numa denúncia bem-disposta, mas violenta, do carácter artificial (e alienante) da civilização.

O cinismo, de que o estoicismo é parcialmente devedor, viria a tornar-se uma filosofia algo popular na época do Império, ainda que tenha então sofrido transformações não negligenciáveis. Certos estudiosos têm chamado a atenção para alguns paralelismos entre o ideário cínico e determinados logia de Jesus (e.g., Lc 9, 3 ou Mt 6, 25 ss.), não sendo também de excluir que o ascetismo cristão tenha sofrido influências do cínico. Figuras houve até que cruzaram explicitamente os dois universos, como Peregrino Proteu (†165) ou Máximo, dito o Cínico († post 382). O último filósofo desta escola que se conhece foi Salústio de Emesa (fl. séc. v), de formação neoplatónica. Na época moderna, o termo “cinismo” acabou por sofrer uma inflexão radical de sentido, passando o termo a significar um misto de mordacidade e hipocrisia.

 

Bibliog.: ALLEN, A., Cynicism, Cambridge, MIT Press, 2020; BRANHAM, R. B. e GOULET-CAZÉ, M.-O. (eds.), The Cynics. The Cynic Movement in Antiquity and Its Legacy, Berkeley/Los Angeles/London, University of California Press, 1996; DESMOND, W., Cynics, Stocksfield, Acumen, 2006; DOWNING, F. G., Christ and the Cynics, Sheffield, Academic Press, 1988; GOULET-CAZÉ, M.-O., “Le cynisme à l’époque impériale”, ANRW, II, 36.4, 1990, pp. 2720-2833; Id. (coord.), Diogène Laërce. Vies et Doctrines des Philosophes Illustres, 2.ª ed., liv. vi, Paris, Librairie Générale Française, 1999; GOULET, R. e GOULET-CAZÉ, M.-O. (edS.), Le Cynisme Ancien et Ses Prolongements. Actes du Colloque International du CNRS (Paris, 22-25 juillet 1991), Paris, PUF, 1993; MARTÍN GARCIA, J. A., Los Filósofos Cínicos y la Literatura Moral Serioburlesca, 2 vols., Madrid, Akal, 2008; NIEHAUS-PRÖBSTING, H., Der Kynismus des Diogenes und der Begriff des Zynismus, 2.ª ed., Frankfurt, Suhrkamp, 1988.

 

João Diogo R. P. G. Loureiro

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