A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Congregacionalismo

Origem e desenvolvimento do congregacionalismo no mundo

O congregacionalismo é uma das denominações históricas no seio das igrejas cristãs evangélicas e protestantes. Após a saída da Igreja Inglesa da esfera de ação do papa, em 1534, dando lugar à Igreja Anglicana, foram-se formando grupos, como os puritanos e outros movimentos protestantes, que entendiam que a Igreja cristã inglesa só poderia reformar-se, verdadeiramente, fora da igreja oficial do Estado. Uma parte destes grupos deu origem a igrejas independentes, que mais tarde vieram a denominar-se igrejas evangélicas congregacionais

Em 1658, as igrejas independentes assinaram a Declaração de Savoy sobre Fé e Ordem,  documento que proclama o princípio da autonomia e o governo congregacional de cada igreja local. Nas igrejas evangélicas congregacionais, as decisões administrativas e eclesiásticas, incluindo a eleição dos pastores, presbíteros e diáconos, são tomadas pelas assembleias dos membros das igrejas locais, nas quais todos podem participar com direito a voto.

Nos primórdios das igrejas congregacionais, surge a referência ao pastor puritano Henry Jacob, fundador daquela que é considerada a primeira igreja congregacional de Inglaterra, em Southwark, Londres, em 1616. Anteriormente, em 1580, já tinha surgido um outro trabalho independente dirigido por Robert Browne, em Norwich, e, em 1568, outro em Londres, dirigido pelo pastor Richard Fytz, autor de As Verdadeiras Marcas de Cristo.

Os primeiros congregacionalistas ingleses que chegaram à América, devido a perseguição religiosa, seguiam no grupo dos “pais peregrinos” que viajaram em 1620 a bordo do histórico Mayflower e tiveram forte influência na formação religiosa inicial da Nova Inglaterra, que integra hoje os Estados Unidos da América. Para além dos Estados Unidos, o congregacionalismo espalhou-se por todo o Império Britânico, como o Canadá, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, tendo-se disseminado por muitos outros países do mundo, incluindo o Brasil e Portugal. Como figuras de renome mundial do congregacionalismo, a nível espiritual, pode referir-se, entre muitos outros: no séc. xviii, Jonathan Edwards, teólogo e escritor americano, missionário junto dos índios; no séc. xix, Dwight Moody, evangelista americano, com campanhas de milhares de pessoas em cada reunião, no Reino Unido e nos Estados Unidos, e David Livingstone, médico e missionário britânico em África, encontrado morto na posição de oração ajoelhado junto à cama; e Martyn Lloyd-Jones, teólogo britânico, pregador na capela de Westminster, em Londres, por cerca de 30 anos, no séc. xx.

Na denominação congregacional, cada igreja local é independente das demais do mesmo regime, mas existe uma ligação fraternal entre todas, havendo organizações em cada país (uniões, associações, federações) que fortalecem esses laços e promovem atividades comuns. A nível mundial, existem também organizações que agregam igrejas dos diversos países nos vários continentes, como a Comunhão Internacional Congregacional (ICF), organizada em 1977, ou a Comunhão Mundial de Igrejas Evangélicas Congregacionais (WECF), surgida em 1986.

 

Aspetos doutrinários das igrejas evangélicas congregacionais no mundo

As igrejas evangélicas congregacionais defendem os cinco princípios fundamentais do Novo Testamento, como os reformadores protestantes do séc. xvi: somente Cristo, somente as Escrituras, somente a graça, somente a fé, somente a Deus a glória. As características dos cultos são: especial primazia à pregação das Sagradas Escrituras, organização simples, sem ritualismos, sem muita liturgia, com músicas e cânticos de louvor, com reverência, com o único propósito de honrar e glorificar a Deus.

De mogo geral, as igrejas evangélicas congregacionais seguem uma linha de origem calvinista, que pode variar de um matiz radical até ao moderado. Aceitam como únicas ordenanças instituídas por Jesus o batismo e a ceia do Senhor. O batismo infantil é aceite em algumas igrejas; noutras, como em Portugal, não. Quanto à forma, este é feito, em geral, por aspersão ou por derramamento, como em Portugal, mas há igrejas que o fazem por imersão. Na ceia do Senhor, o pão é o símbolo do corpo de Jesus crucificado, e o cálice é o símbolo do seu sangue derramado na cruz.

Em meados do séc. xx, verificaram-se clivagens que provocaram divisões dentro de várias denominações, provenientes do aparecimento de conceitos como o liberalismo teológico e de costumes e o ecumenismo. Também na mesma época se assistiu à fusão de algumas igrejas congregacionais com igrejas de outros ramos, como a presbiteriana, a metodista e a batista. A maioria das igrejas congregacionais, incluindo as portuguesas, mantém-se fiel aos princípios originais e não seguiu estas tendências.

 

Origem e desenvolvimento do congregacionalismo em Portugal

A Denominação Congregacional em Portugal deve-se à ação missionária da Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro, organizada por Robert Kalley em 1858. Em 1890, foi criada a Missão Evangelizadora do Brasil e Portugal (MEBP), que muito ajudou no início do crescimento da Obra Congregacional hoje existente no Brasil e em Portugal.

Em 1863, Ellen Roughton, apoiada por Kalley, abriu uma missão de governo congregacional, de pregação em língua portuguesa, em Lisboa. Em 1879, o pastor M. Santos Carvalho fundou a Igreja Evangélica Portuguesa, em Lisboa, de regime congregacional. Em 1891, foi o primeiro obreiro da MEBP, tendo fundado várias igrejas em diferentes zonas do país e promovido muitas campanhas de evangelização.

Já no séc. xx, de 1908 a 1940, o pastor J. A. Santos e Silva, a partir da Igreja Evangélica Lisbonense, que se transformou em centro missionário, deu impulso à evangelização de norte a sul de Portugal, tendo fundado várias organizações evangélicas de beneficência e socioculturais. Os Congregacionais, que até à década de 40 eram uma das denominações com mais atividade evangelística, mais crescimento e maior número de membros, sofreram um revés com a crise financeira da MEBP após a Segunda Guerra Mundial, perdendo a maioria das igrejas e dos pastores, não conseguindo recuperar até hoje a importância que haviam tido. Apesar disso, na segunda metade do séc. xx houve um grande desenvolvimento do trabalho evangelístico no Ribatejo e no Alentejo, através do pastor José M. Calado.

 

As igrejas congregacionais no campo social

Nas primeiras décadas do séc. xx, quase todas as igrejas congregacionais tinham escolas do ensino primário. As da zona de Lisboa fundaram, em 1927, a Associação de Beneficência Evangélica, que iniciou a sua ação com escolas primárias, consultas médicas, enfermarias e um balneário. Em 1968, com âmbito interdenominacional, passou a ter a ação social orientada para os idosos, com residências sénior e apoio domiciliário. Além disso, desde 1973 que as igrejas congregacionais detêm o Acampamento Bíblico do Sor, para diversas faixas etárias.

As igrejas congregacionais estão associadas na União de Igrejas Evangélicas Congregacionais Portuguesas e fazem parte da Aliança Evangélica Portuguesa. A nível internacional, integram-se na Comunhão Mundial de Igrejas Evangélicas Congregacionais. Os congregacionais portugueses aceitam os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, redigidos por Kalley em 1876.

 

Bibliog.: CALADO, Paulo, A Obra Evangélica Congregacional em Portugal, Lisboa, União das Igrejas Evangélicas Congregacionais Portuguesas, 2012.

 

Paulo Calado

Autor

Scroll to Top