O consumo caracteriza as sociedades ocidentais no séc. xx. O sistema económico assente no crescimento contínuo da produção e consumo possibilitou o acesso a melhores condições de vida, incluindo melhor nutrição, vida mais saudável, maior longevidade, menor mortalidade infantil, maior acesso à educação, cultura e lazer. No entanto, este sistema também promove injustiças, desigualdades e contribui para problemas ambientais, como alterações climáticas, poluição do ar e da água, excessivo uso do solo, produção de resíduos, depleção de recursos naturais, ameaças à biodiversidade, entre outros. O consumo é um tema complexo com dimensões epistémicas várias, desde a psicologia à sociologia, ao ambiente, à economia, à ética. Promove o culto da rapidez, novidade e mudança, e os poderes da sociedade consumista descobriram a irrecusabilidade do prazer. O sofrimento deixou de fazer sentido e vivemos – uma parte da sociedade ocidental – num tempo potenciador da irreflexão na forma como nos relacionamos com o consumo. O consumo per si não é moral ou imoral, mas é uma esfera na qual se podem expressar condutas éticas. Se virmos o problema através do consumo em si mesmo como objeto de avaliação moral, desenvolve-se a ética do consumo. Se for o consumidor o objeto de avaliação moral, temos a ética do consumidor. No entanto, não escolhemos racionalmente muito do nosso consumo e somos influenciados por fatores fora do nosso controlo, como as lojas ao nosso alcance, o dinheiro que temos, o ordenamento de território, a existência de transportes públicos. Apesar disso, noutras esferas podemos consumir intencionalmente, por exemplo, produtos ou serviços que respeitem direitos humanos, ou direitos dos animais ou o respeito pela natureza. Nesta ética do consumidor, há o consumo positivo: comércio justo, sem crueldade para com animais, de produtos reciclados ou recicláveis; ou o consumo negativo, de não consumir alguns produtos, ou fazer boicotes a marcas ou produtos; mas, acima de tudo, há uma reflexão individual sobre a nossa responsabilidade nos impactos que o nosso estilo de vida e as nossas escolhas têm nos outros, no planeta, na natureza, nas gerações futuras. É difícil, porque somos seduzidos por uma imensidão de coisas. Mas ainda podemos considerar que consumir também pode acontecer num ato político, em que expressamos a nossa opinião sobre assuntos como direitos humanos, regimes opressivos ou relações de trabalho. O consumo sustentável, atento às desigualdades e aos problemas ambientais, passa assim por considerar que, embora consumir seja prioritariamente um ato privado, é também um ato público e de cidadania (política, ambiental e social).
Bibliog.: BAUMAN, Zigmunt, Does Ethics Have a Chance in a World of Consumers?, s.l., Harvard University Press, 2009; LIPOVETSKY, Gilles, A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo, Lisboa, Edições 70, 2006; VAZ, Sofia Guedes, “Implicações éticas dos comportamentos do cidadão consumidor”, in PATRÃO NEVES, M.C. e SOROMENHO-MARQUES, V., Ética Aplicada: Ambiente, Edições 70, 2017, pp. 351-368.
Sofia Guedes Vaz