Na sua forma canónica, trata-se da injunção ético-religiosa enunciada por Cristo no Novo Testamento, no Sermão da Montanha, mais especificamente em Mt 7, 12: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o assim também a eles, pois esta é a Lei e os profetas” (em grego: Πάντα οὖν ὅσα ἐὰν θέλητε ἵνα ποιῶσιν ὑμῖν οἱ ἄνθρωποι, οὕτως καὶ ὑμεῖς ποιεῖτε αὐτοῖς· Οὗτος γάρ ἐστιν ὁ νόμος καὶ οἱ προφῆται). Em Lc 6, 31, encontra-se uma versão paralela: “E, tal como quereis que os homens vos façam, fazei-lhes de igual modo” (em grego: Καὶ καθὼς θέλετε ἵνα ποιῶσιν ὑμῖν οἱ ἄνθρωποι ποιεῖτε αὐτοῖς ὁμοίως). Nesta versão, no entanto, não se encontra a sentença conclusiva de que o preceito é a suma da Lei e dos profetas. Como não se encontra também naquela que é considerada a sua versão negativa, e que tem origem próxima no judaísmo – a regra de prata, como é por vezes designada, e que se encontra registada em Tb 4, 15: “Aquilo que não queres para ti, não o faças aos outros” (no texto grego da Septuaginta: καὶ ὃ μισεῖς, μηδενὶ ποιήςῃς); na Didaqué (I. 2: πάντα δὲ ὅσα ἐὰν θελήσῃς μὴ γίνεσθαί σοι, καὶ σὺ ἄλλῳ μὴ ποίει) e na Apologia de Aristides (I, 15), que, curiosamente, são ambos textos dos primeiros dois séculos de cristianismo. Apesar de algumas divergências quanto à primeira ocorrência da sua designação como regra de ouro, autores contemporâneos como Harry J. Gensler e Olivier du Roy concordam que a sua origem se encontra no séc. xvii inglês e que esta será protestante, possivelmente calvinista. As prédicas de Thomas Jackson (1579-1640), a obra Times Lamentation: or an Exposition on the Prophet Joel; in Sundry Sermons and Meditations, de Edward Topsell (1572-1625), a obra The Order of Equalitie, de Charles Gibbon (fl. 1589-1604), a obra A Godlie and learned Exposition upon the whole Epistle of Iude, published by Thomas Taylor, Preacher of Gods Word, de William Perkins (1558-1602), e a obra A Commentarie upon the Epistle of S. Paul written to Titus. Preached in Cambridge, de Thomas Taylor (1567-1633), serão as principais responsáveis pela sua introdução no vocabulário ético, religioso e, até, político da época. Já a sua associação a um metal precioso como o ouro dever-se-á à prática antiga em que os princípios-chave ou as doutrinas principais de uma determinada área do saber são considerados regras que possuem uma importância decisiva e que, por isso, têm um valor comparativo ao do metal mais precioso. Alguns autores apontam o caso histórico do imperador Alexandre Severo (entre os anos 222 e 235 d.C.) como a origem mais remota dessa associação. É verdade que no relato que nos foi deixado sobre a sua vida na obra História Augusta encontramos o imperador a mandar inscrever a regra no seu palácio e em edifícios públicos, mas não existe, contudo, qualquer referência aos materiais empregados, além de que a fórmula aí utilizada é a negativa (quod tibi fieri non vis, alteri ne feceris) e não a positiva (51, 7). No que diz respeito à sua interpretação, Orígenes foi o primeiro a associar a regra de ouro à chamada lei natural inscrita no coração humano (Rm 2, 14), no que foi seguido por outros pensadores cristãos. O seu sentido e importância é tal, que se encontram muitas e variadas ocorrências de discussão sobre ela ao longo da história das ideias e nos mais diversos contextos, com particular atenção à sua relação com a lei do amor e a união amorosa com Deus.
Bibliog.: DIHLE, Albrecht, Die Goldene Regel – Eine Einführung in die Geschichte der Antiken und Frühchristlichen Vulgarëthik, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1962; GENSLER, Harry J., Ethics and the Golden Rule, New York/London, Routledge, 2013; GERT, Bernard, “Morality versus Slogans”, Center for the Study of Ethics in Society Papers, 12, 1989, pp. 1-32; LEWIS, C. S., Mere Christianity, San Francisco, Harper, 2001; NEUSNER, Jacob e CHILTON, Bruce (ed.), The Golden Rule – The Ethics of Reciprocity in World Religions, Continuum, 2008; REINER, Hans, Duty and Inclination. The Fundamentals of Morality Discussed and Redefined with Special Regard to Kant and Schiller, The Hague/Boston/Lancaster, Martinus Nijhoff Publishers, 1983, pp. 271-293; ROY, Olivier du, La Règle d’or. Histoire d’une Maxime Morale Universelle, 2 vols., Paris, Les éditions du Cerf, 2012; Id., ROY, Olivier du, “L’Éxplosion de la Règle d’Or au XVIIe Siècle Anglais”, Revue d’Éthique et de Théologie Morale, n.º 278, 2014, pp. 35-47; VIGNA, C. e ZANARDO, S., La Regola d’Oro come Etica Universale, Vita e Pensiero, 2005; WATTLES, Jeffrey, The Golden Rule, New York/Oxford, Oxford University Press, 1996.
Álvaro Almeida