Até ao romper da modernidade, o belo designava uma realidade suprassensível, paradigma da perfeição, sinónimo de harmonia, proporção e pureza formal que a razão via realizada prioritariamente nos objetos ideais: no conceito puro, na ideia absoluta ou na essência transcendente. O normativismo e o abstracionismo que o submergiam foram responsáveis pela profunda crise desta categoria estética, tanto a nível teórico como no campo da criação artística, com consequências que ainda no séc. xxi são percetíveis.
Com o emergir da estética filosófica, em meados do séc. xviii, operou-se o resgate do belo, que implicou, por um lado, relacioná-lo com o vivido, com a polimorfia da aisthêsis e da subjetividade, e, por outro lado, reaproximá-lo do mundo dos objetos sensíveis e significantes. Esta reforma da beleza retirou-lhe a conotação restrita que possuía, e redefiniu-a, fenomenologicamente, como a qualidade singular que faz de certas coisas objetos de gosto, objetos que suscitam o prazer desinteressado.
A doutrina da crítica do gosto, de Kant, teve um papel fundamental nesta reconfiguração da beleza, moldando o juízo de gosto na sua reflexiva singularidade – que Paul Ricoeur, Merleau-Ponty, Mikel Dufrenne, entre outros, haveriam de continuar a explorar –, sem, contudo, perder de vista a legítima aspiração da beleza à sua validade universal. Assim, a beleza surge como se ela fosse um qualificativo, um atributo de certos objetos que se oferecem à perceção na qual se realizam, “objetos que exercitam o entendimento apenas na medida em que solicitam, desde logo, a subjetividade” (DUFRENNE, “Esth et Phil”, 558). Quer dizer que a beleza, como valor, não mimetiza uma qualquer substância, mas coloca-nos diante de “coisas belas singulares”; e o juízo que as avalia é também fruto de uma decisão singular, um juízo que implica o sujeito, que o responsabiliza perante si próprio e perante o objeto.
Sublinhemos: esta beleza, agora mais concreta e assumida pela atividade do sujeito, não denega a sua intencionalidade em ordem a um horizonte de universalidade, de finalidade e de totalidade sensorial-espiritual. Pelo contrário, ganha uma nova radicalidade dentro do marco fundacional em que ela se enraíza, coadjuvada pelas categorias da verdade e do ser. A “regra de ouro” do objeto belo mantém toda a sua vigência, articulando as três propriedades que Dufrenne distingue: o agradável, o conveniente e o razoável. Deste modo, é belo tudo aquilo que exprime a medida da razão, a relação justa com as coisas, prerrogativa de toda a existência firmada verdadeiramente no ser, como um estado de “natureza”. Neste sentido, o objeto belo exclui tudo o que é contranatura. “Razão” é aqui sinónimo de verdade e de autenticidade, que se afirmam no objeto bem formado, bem consolidado em si-mesmo, verdade cuja manifestação se dá na presença. Retornamos, ainda que por um outro percurso, à identificação do verdadeiro e do belo, na qual a arte vê a sua finalidade e razão de ser.
Nos interstícios destes conceitos reside o núcleo central da conceção de beleza como expressividade, como qualidade singular, que Mikel Dufrenne aprofunda: “a beleza é a virtude do objeto sensível e significante, no qual o ser se identifica ao valor” (DUFRENNE, 1977, 484). O seu conceito e norma advêm do interior do próprio objeto, mas manifestam-se no corpo do sensível, que é a “carne” desse objeto. O objeto é belo quando mostra que satisfaz a norma do seu ser, isto é, quando “mostra que é verdadeiramente aquilo que pretende ser” (Id., Ibid.).
Eis o requisito da obra de arte: será bela se responder à sua necessidade de ser, à necessidade interior. A não realização desta necessidade será causa do seu fracasso, enquanto objeto estético: “Tal como para um organismo que instaura as suas próprias normas e visa manter-se em ‘forma’, a obra parece tender a realizar-se segundo uma necessidade interna; beleza é para ela saúde, ou, se se preferir, passagem da essência a uma plena existência; é o que indicam os predicados como ‘perfeito’, ‘completo’, ‘concluído’, e também os termos pelos quais se tentou frequentemente definir a beleza: ‘claridade’, ‘plenitude’, ‘equilíbrio’, ‘harmonia’. A obra é este objeto concluído que se basta a si mesmo, que se apresenta e impõe com a força da evidência, para felicidade de quem a contempla” (DUFRENNE, 1976, II, 174). Estes termos indiciam o belo como unidade de uma forma dotada de vida própria, prerrogativa fundamental do objeto da aisthêsis, que revela e mostra o seu ser na luz do sensível, uma obra que apela à perceção da sua perfeição ôntica e ontológica.
Nesta linha, faz todo o sentido afirmar que a beleza se distingue pelo seu poder de irradiar uma ambiência, de instaurar um mundo apelativo, aberto ao projeto de realização do humano que a contempla e frui. E o que se lhe opõe, não é tanto o feio, mas o insignificante, o que não se significa, o que é falhado, coisas que não são capazes de corresponder ao seu projeto de ser, nas quais toma lugar uma espécie de não-ser que mostra como estão privadas daquilo que pretendiam ser – o não-ser da frustração, da ilusão e do engano. Mas também os objetos sem pretensões, que enfastiam pela sua falta de cintilação, pela sua mediocridade – como existências vazias de essência que não passam no ato de se julgarem a si mesmas na perceção que delas fazemos.
Esta “substantivação” do sensível, na qual radica a noção de beleza, justifica o seu profundo significado ontológico, as suas ressonâncias metafísicas e dimensão espiritual. Assim, Nel Rodríguez Rial toma o sensível, de Merleau-Ponty, como “o nome com o qual designa o medium que o Ser possui para fazer-se aparecer” (RODRÍGUEZ RIAL, 2000, 37 e nt. 23). A potência de significação e de expressividade que o belo aqui readquire, evitando o dogmatismo idealista e abstrato, posiciona-se para um debate franco com a cultura contemporânea, onde emergem os principais obstáculos que se lhe levantam: o relativismo, as experiências da ausência e do não-sentido, a apologia da não-arte, ou da prática da arte como negação de si mesma.
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Carlos Bizarro Morais