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Estética

Etimologicamente, o termo aisthetiké – de aisthesis – designa “sensação”. Foi assumida pelos primeiros filósofos gregos como faculdade adequada à perceção dos factos e objetos sensíveis, opondo‑se a noesis, ou faculdade de pensar as formas inteligíveis. Junto a esta significação ontológica e gnoseológica, que marcou indelevelmente a estética ocidental, a amplitude semântica de aisthesis envolve uma dimensão experiencial, imprescindível para a plena compreensão do ser humano. Com efeito, os sujeitos percipientes (aısthanomenoi) captam os respetivos objetos (aisthêta) no seio de uma relação singular, de acolhimento e integração mútua, que requer de ambos, sujeito e objeto, o apuramento das suas melhores “virtudes”: bom gosto, inteireza, delicadeza, sub­tileza, claridade da forma, articulação, harmonia, proporção e medida. Inaugura-se, assim, a experiência estética, que a modernidade fará acompanhar, necessariamente, do sentimento de prazer desinteressado (Kant), profundamente vivificador da interioridade do ser humano.

Embebida nesta significação, a estética legitima-se como disciplina filosófica, através da obra de Alexander Baumgarten, em 1750, que lhe atribui a tarefa de elaborar o “conhecimento sensitivo perfeito”, no contacto com a beleza de determinados ob­jetos, objetos que preenchem os sentidos e o es­pírito, e que são intencionalmente visados pela atividade da criação artística.

Apesar da profunda crise da cultura contemporânea ter enfraquecido o paradigma que se foi consolidando ao longo da tradição – que articulava a experiência estética com a arte, a beleza, o prazer e o bom gosto –, a dimensão estética está, no séc. xxi, mais presente do que nunca, numa articulação complexa, ligada a todas as áreas da atividade do ser humano, na medida em que é promotora de uma vivência culminativa e total, mobilizadora de todos os recursos e de todas as capacidades do nosso ser.

A experiência estética surge, pois, como o núcleo central desta disciplina filosófica, competindo-lhe refletir sobre os princípios e os critérios dos factos estéticos, problematizar a natureza da relação que se estabelece entre o sujeito e os objetos estéticos, objetos naturais e artefactos que, mediante a “atitude estética”, se convertem em moventes da contemplação, pretexto da emissão dos juízos de gosto sobre a beleza, o sublime e as outras categorias estéticas.

A experiência estética caracteriza-se por ligar, indissoluvelmente, o objecto estético ao sujeito e à experiência percetiva que simultaneamente o constitui e o reconhece. Nela opera-se a transformação da obra “transcendente” ao sujeito em objeto vivido, proporcionando aquela existência significante que constitui o horizonte da sua vocação ontológica. Por isso, este objeto oferece-se e aguarda ativamente esta mesma perceção, colocando nela também os seus requisitos; por isso, a consciência do sujeito não é soberana doadora de sentido: ela reconhece a presença de um sentido interior ao objeto, que por sua vez se orienta para o sujeito. Nesta recíproca intencionalidade entre o sujeito e o objeto, instaura‑se a vivência estética, enquanto espaço originário de uma situação ontológica, onde a relação é ainda prévia a toda a separação, privilégio de uma unidade primeira entre o visível e o vidente, o real e o imaginário, entre o homem e o mundo, que a obra de arte se esforça por mostrar. Perceção feliz e gratificante, a experiência estética convida‑nos a partilhar de uma presença anterior a toda a representação, estado primordial do ser do sentido anterior a toda a fragmentação proveniente dos dualismos do conhecimento e da linguagem.

A estética acolhe tematicamente a experiência estética como uma inesgotável fonte de pensamento e atividade espiritual, pois, ao meditar sobre aquela vivência, reconduz a própria consciência a uma radical experiência do sentido fundador da existência e transversal a todas as dimensões da vida e da realidade. Experiência do fundamento, cotejada não só pelo entendimento e pela razão, mas também pela imaginação e pelo sentimento que é via real da estética (Dufrenne). Por isso, não surpreende que A. López Quintàs posicione a experiência estética como porta de acesso a todas as outras experiências estruturantes da existência humana: experiência dos valores religiosos, ético-morais, sociais e políticos, científico-intelectuais.

No seio dos estudos filosóficos, a estética tem vindo a adquirir, ao logo da história, um estatuto cada vez mais amplo e consolidado. Na sua evolução, encontramos duas fases fundamentais. A primeira fase (Antiguidade e Época Medieval) é preponderantemente normativista, na medida em que conjuga um conceito metafísico de beleza com a doutrina preceituadora das artes. Esta estética legisladora exigia o conhecimento da beleza inteligível e impunha a sua adequada imitação à própria arte. A estética reservava para si mesma a tarefa da codificação dos critérios da produção e da apreciação da obra de arte, segundo a norma da beleza. Na segunda fase (modernidade e contemporaneidade) do seu desenvolvimento, a estética perdeu aquela fixação legisladora. A doutrina metafísica da existência de uma beleza absoluta e paradigmática foi paulatinamente substituída pela prioridade reconhecida ao tema da singularidade do juízo de gosto, analisado nas suas condições de legitimação universal, sem iludir os condicionalismos do seu devir dialético. A estética assume então, fenomenologicamente, uma tarefa de análise e de crítica do vivido, já que o ser do objeto estético remete para o sujeito e para o tipo de atitude que este lhe dispensa. Hoje, a estética desmultiplica-se num vasto leque de vias de aprofundamento, a partir de um eixo central que designamos de analítico-transcendental.

 

Bibliog.: DUFRENNE, Mikel, Phénoménologie de l’Expérience Esthétique, t. i: L’Objet Esthétique; t. ii: La Perception, 2.ª ed., Paris, PUF, 1967; Id. e FORMAGGIO, D. (coord.), Trattato di Estetica, t. i: Storia; t. ii: Teorie, Milano, Arnoldo Mondadori Editore, 1981; HEIDEGGER, M., “A origem da obra de arte (1935/36)”, “O tempo da imagem do mundo” (1938), “Para quê poetas?” (1946), trad. port. Caminhos de Floresta, coord. cient. e trad. I Borges-Duarte; trad. I Borges-Duarte et al., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002; HEIDSIECK, F., L’Inspiration. Art et Vie Spirituelle, Paris, PUF, 1961; KANT, I., Crítica da Faculdade do Juízo, introd. António Marques; trad. e notas A. Marques e Valério Rohden, Lisboa, IN-CM, 1992; KEARNEY, Richard, Poética do Possível: Fenomenologia Hermenêutica da Figuração, trad. João Carlos Silva, Lisboa, Instituto Piaget, 1997; LÓPEZ QUINTÁS, A., Para Comprender la Experiencia Estética y su Poder Formativo, Estella, Verbo Divino, 1991; MARITAIN, J., L’ Intuition Créatrice dans l’Art et dans la Poésie, Paris, Desclée de Brouwer, 1966; MERLEAU-PONTY, M., Phénoménologie de la Perception, 4.ª ed., Paris, Gallimard, Paris, 1945; PLAZAOLA, J., Introducción a la Estética. Historia, Teoria, Textos, 4.ª ed., Bilbao, Universidad de Deusto, 2007; PLEBE, A. (coord.), “Estetica”, in SPIRITO, Ugo (dir.) Storia Antologica dei Problemi Filosofici, Firenze, Sansoni Editore, 1965; RIBON, M., L’Art et l’ Or du Temps, Paris, Éditions Kimé, 1997; SCHILLER, F., Sobre a Educação Estética do Ser Humano numa Série de Cartas e outros Textos, trad., introd., coment. e gloss. Teresa R. Cadete, Lisboa, IN-CM, 1993; TATARKIEWICZ, W., Historia de la Estética, trad. D. Kurzyca, Madrid, Akal (vol. i: La Estética Antigua, 1987; vol. ii: La Estética Medieval, 1989; vol. iii: La Estética Moderna (1400-1700), 1991).

 

Carlos Bizarro Morais

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