Costuma dizer-se que a curiosidade é a raiz de todo o conhecimento. De facto, este termo vem do latim (curiositas, curare) e significa cuidar de, desejo de conhecer, zelo pela busca do conhecimento. Quando se tem curiosidade, i.e., vontade de conhecer qualquer coisa, de entrar no âmago de um qualquer ramo das ciências humanas ou divinas, chega-se a atingir tal conhecimento. Mas, quando falamos no ramo das ciências sagradas do cristianismo, estamos a contas com uma curiosidade muito especial, pois tal curiosidade já parte de um certo conhecimento de Deus, de Jesus Cristo, da Bíblia. E, de facto, quanto mais conhecimento temos destas ciências sagradas, mais se aguça o espírito de curiosidade. Por isso, podemos distinguir diferentes tipos de curiosidade no campo da espiritualidade, que aqui nos ocupa.
Torna-se necessário afirmar, previamente, que o conhecimento da relação do nosso mundo com o mundo do divino obedece a certas regras e parte de variados pressupostos, entre os quais não podemos deixar de afirmar o seguinte: as ciências humanas são uma grande alavanca, que eleva o ser humano ao conhecimento das realidades superiores. O princípio fundamental é o que já proclamava Sócrates: “Ginoske seautón” (“Conhece-te a ti mesmo”), sendo que conhecer-se a si mesmo implica conhecer o ser humano e o seu contexto, ou seja, ter o mínimo conhecimento de antropologia filosófica. Ora, este conhecimento de base antropológica deve levar o “curioso” do divino a interrogar-se e a encontrar respostas sobre o modo de escrever dos autores sagrados, ou seja, a filosofia da linguagem da Sagrada Escritura, que é o grande livro das ciências divinas. Este é o princípio fundamental, a forma certo para chegar a conhecer, ainda que vagamente, o “caminho” que conduz a Deus, a satisfazer a “curiosidade” acerca do mundo do Alto. Sem os instrumentos de alguns princípios hermenêuticos, nunca chegaremos a encontrar a “verdadeira” palavra de Deus na Bíblia. Este seria um dos trilhos, de tipologia positiva, para caminharmos na procura do divino.
Mas não se pode esquecer, de modo algum, o grande e principal princípio, que é o da fé nessa mesma Palavra. A fé e as ciências bíblicas vão de mãos dadas, neste caminho “curioso” que é o da procura do divino, do mistério do mundo do além, da suprema verdade, que orienta o caminhar humano, para encontrar Deus, no fim desta viagem. Esta curiosidade é enaltecida pelos Padres da Igreja, como S.to Agostinho, para quem a busca do conhecimento de Deus se torna também um meio que leva ao aprofundamento da fé e da vida cristã cada vez mais plena. Deste modo, a “curiosidade” de conhecer Deus é já uma forma de o amar. Seguir por outro caminho, ou seja, ter uma “curiosidade doentia” apenas por valores terrenos, superficiais, é perder o verdadeiro sentido da vida humana.
Bibliog.: ALVES, Herculano, “Ser humano, ser em crise (Gn 2-3)”, in Raízes da Fé – Temas Bíblicos, vol. ii, Fátima/Lisboa, Difusora Bíblica/Paulinas, 2024, pp. 237-284; Id., “Bíblia e ciências modernas. Conflito ou colaboração?”, in Raízes da Fé – Temas Bíblicos, vol. x, Fátima/Lisboa, Difusora Bíblica/Paulinas, 2024, pp. 71-113; CENCINI, Amedeo, “Desejo”, in CENTRO INTERNACIONALE VOCACIONALE ROGATE (org.), Dicionário de Orientação Vocacional, Lisboa, Paulinas, 2008, pp. 480-490.
Maria Olinda Magalhães Ribeiro