“Psicagogia” é um termo pouco comum, formado por duas palavras gregas (psychê + agô). O substantivo psychê significa “espírito”, “alma”, “mente”, ou seja, aquilo que está para além do corpo físico; o verbo agô significa “conduzir”. Portanto, “psicagogia” significa, literalmente, a ação, a arte, de “conduzir o espírito”, de tratar da cura psíquica da pessoa humana. Para um mais desenvolvido esclarecimento sobre este assunto, devem ser explicados os termos “alma” e “espírito”, para os quais se deveria recorrer às línguas bíblicas hebraica e grega, e mesmo a latina, o que não é possível fazer aqui. Fiquemos, portanto, com a distinção, muito genérica, entre espírito e alma, por um lado, e mente, por outro.
De espírito e alma trata a teologia, nos seus diferentes ramos, sobretudo na espiritualidade. Quanto à mente, tratam dela as ciências psicológicas (psicologia, psicoterapia, psiquiatria…) e pedagógicas. Aqui, interessam-nos as ciências teológicas. Sobre este aspeto, é interessante a afirmação de S. Paulo que apresenta o ser humano em três “dimensões”: “Que o Deus da paz vos santifique totalmente, e todo o vosso ser – espírito, alma e corpo – se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5, 23). Portanto, a psicagogia, em sentido teológico, cristão, tem a ver com a condução, a orientação, da pessoa humana para os valores religiosos, cristãos, espirituais, em sentido próprio e restrito. O mesmo S. Paulo exprime perfeitamente a psicagogia em ambiente cristão quando fala da Lei do Antigo Testamento em relação com o Novo: “A Lei tornou-se o nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Uma vez, porém, chegado o tempo da fé, já não estamos sob o domínio do pedagogo” (Gl 3, 24-25).
- Paulo refere-se certamente aos “pedagogos” do seu tempo, muito diferentes dos de hoje. Eram as pessoas da casa (geralmente escravos) que faziam o trabalho de pedagogo, palavra que significa “condutor de crianças” (pais-paidós + agô). Para onde conduziam a criança? Para a escola do professor, pois não havia escolas públicas. O pedagogo não podia ensinar nada, porque não sabia ler nem escrever; apenas levava, pela mão, a criança, para a defender de eventuais perigos. Deixava-a entregue ao professor e voltava a trazê-la para casa, no fim das aulas. S. Paulo aplica este facto cultural à relação entre o Antigo e o Novo Testamentos, para afirmar, categoricamente, que foi Jesus quem veio trazer a verdadeira doutrina, o ensinamento definitivo. Ele é o verdadeiro Professor, e o Antigo Testamento teve a função pedagógica de conduzir aquele povo, ainda “criança”, até ao verdadeiro Professor. Também é certo que S. Paulo não pretendeu negar as maravilhosas doutrinas do Antigo Testamento, querendo apenas realçar as de Jesus, que vieram levar as antigas a maior perfeição.
Em suma, a psicagogia é um conceito que compreende a orientação e condução da mente e do espírito para ajudar no crescimento pessoal e espiritual. É aplicada em contexto de aconselhamento, educação espiritual e práticas místicas, procurando transformar a vida interior e promover um entendimento mais profundo das experiências emocionais da própria pessoa.
Bibliog.: AA.VV., “Psychê, psychikós”, in GERHARD, Friedrich (ed.), Theological Dictionary of the New Testament, vol. ix, Grand Rapids, WM. B. Eerdmans Publishing Company, 1992, pp. 608-666; ALVES, Herculano, “Psichê, pneuma, sôma (espírito, alma, corpo [1Ts 5, 23])”, in Raízes da Fé – Temas Bíblicos, vol. ii, Fátima/Lisboa, Difusora Bíblica/Paulinas, 2024, pp. 278-281; LÉON-DUFOUR, Xavier, “Âme”, in Dictionnaire du Nouveau Testament, Paris, Seuil, 1975, pp. 109-110; ZAVALLONI, R., “Psicologia e spiritualità”, in DE FIORES, Stefano e GOFFI, Tullo (orgs.), Nuovo Dizzionario di Spiritualità, Roma, Ed. Paoline, 1982, pp. 1296-1315.
Maria Olinda Magalhães Ribeiro