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Motivação

O Diccionario de Psicologia (DORSCH et al., 1985) define “motivação” como o conjunto de pressupostos ou fatores que orientam o indivíduo a seguir uma determinada conduta. Tais fatores podem ser inatos ou internos, i.e., próprios do temperamento e carácter da pessoa ou externos, próprios do ambiente em que o indivíduo vive. Deste modo, a conduta de qualquer pessoa, na persecução de determinados objetivos, é mais ou menos determinada pelas motivações que lhe são conhecidas. O objetivo a atingir e a motivação podem considerar-se termos correlativos. A motivação espiritual surge da vontade pessoal de harmonizar ações e pensamentos em função de um bem maior, procurando criar uma relação empática com o outro e com o meio.

O conceito genérico de “motivação” relaciona-se diretamente com os ideais ou valores que impulsionam o ser humano a atingir determinados fins. Aplicado às ciências teológicas, poderá dizer-se que se refere às razões que estimulam o espírito humano a seguir pelo caminho espiritual de determinado sistema religioso ou religião. Trata-se, pois, de uma força interior – de carácter psíquico e espiritual – que leva o indivíduo a optar por determinados valores de carácter teológico. Pode abranger uma ampla gama de aspetos, desde a motivação para a prática da fé ao serviço ao próximo ou mesmo à vida cristã numa instituição religiosa de consagração total a Deus e à Igreja.

Para que a motivação chegue a atingir o fim para o qual alguém está motivado, para o qual tende, é necessário conhecer bem esse mesmo fim, assim como os meios necessários para o atingir. Só então a motivação tem sentido e se torna verdadeira e consistente. O contrário poderá chamar-se ilusão, ou idealismo puramente subjetivo. A motivação, em sentido cristão, teológico, define-se como um “idealismo objetivo”, porque a sua finalidade suprema é de natureza espiritual, tendo como fim último o encontro com Deus, a realidade mais objetiva, porque Ele é o Criador de todas as coisas. Assim, este conceito é também de carácter ético, na medida em que se trata de seguir um caminho prático, a fim de atingir esse objetivo geral.

Segundo este pressuposto, a motivação estaria ao serviço de uma “ética de bens”, já que tem como objetivo último o “Bem” supremo, o qual, segundo esta teoria, constitui o fim último da existência humana. Toda a “motivação” tem o seu fundamento no facto de os seres humanos agirem com uma determinada finalidade. Ora, no cristianismo, o fim último a atingir é Deus, pois todo o ser humano tem um sentido religioso, uma semente de Deus em si próprio, como se afirma em Gn 2, 7: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo”. S.to Agostinho (Confissões, 1.1.) afirmou a este propósito: “Criaste-nos para vós, Senhor, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousar em vós”. Deste modo, o ser humano tem não somente o “sopro da vida”, mas uma vida que é a do próprio Deus, que só será saciada quando chegar a Deus.

São várias as motivações espirituais, no contexto teológico, espiritual: a) motivação para a prática da fé: trata-se de uma resposta ao amor e à graça de Deus. A experiência do contacto pessoal com Deus, o desejo de viver o Evangelho, como programa de vida, e a aspiração para uma relação cada vez mais profunda com Deus são fontes de motivação espiritual; b) vocação/chamamento de Deus ao ser humano. Tal chamamento é uma poderosa fonte de motivação para exercer uma missão ou serviço específico na sociedade ou na Igreja, por um certo tempo ou mesmo para toda a vida. Deste modo, o desejo de praticar a justiça, a humildade e a caridade, ao serviço do próximo, pode ser visto como uma resposta ao ensinamento e exemplo do próprio Jesus, Filho de Deus; c) transformação espiritual. O conceito de “motivação” também pode estar ligado à ideia de transformação interior, como busca de uma vida mais plena, pela superação de vícios e pelo desenvolvimento pessoal à luz da fé cristã. Assim, a motivação de carácter teológico ajuda a compreender o sentido último da vida, não apenas em relação com o Criador, mas também com a sociedade, onde o cristão manifesta a sua fé no quotidiano da sua existência.

 

Bibliog.: ALVES, Herculano, “Cristocentrismo em S. Paulo”, in Raízes da Fé – Temas Bíblicos,  vol. v, Fátima/Lisboa, Difusora Bíblica/Paulinas, 2024, pp. 410-452; Bíblia Sagrada, 5.ª ed., Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica, 2008; DORSCH, Friedrich et al. (dirs.), Diccionario de Psicología, Barcelona, Editorial Herder, 1985; LÓPEZ CASTELLÓN, E., “Ética (sistemas de)”, in ROSSI, Leandro e VALSECCHI, Ambrogio (dirs.), Diccionario Enciclopédico de Teología Moral, 5.ª ed., Madrid, Paulinas, 1986, pp. 1342-1357; SANTO AGOSTINHO, Confissões, trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, 12.ª ed., Braga, Livraria Apostolado da Imprensa, 1990.

 

Maria Olinda Magalhães Ribeiro

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