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Interpessoal

Partindo da definição de “persona” do Diccionario de Psicología (DORSCH et al., 1985, 565), analisamos o conceito de “interpessoal”, i.e., o facto de o ser humano, nas suas interações, revelar diferentes aspetos da sua identidade por meio de personas, entidades ou máscaras que pretendem facilitar as relações, a convivência e a comunicação interpessoais. Todavia, a inter-relação humana e o meio ambiente sobrepujam essas máscaras, permitindo criar uma empatia autêntica. Neste contexto, as relações interpessoais permitem o desenvolvimento espiritual, desenvolvendo-se uma empatia com o outro, bem como a harmonia com a natureza, de forma a um crescimento conjunto e a uma transformação profunda na relação e abertura ao transcendente.

Na teologia dos sécs. iv e v desenvolveu-se o conceito de “pessoa” através dos vocábulos gregos prósôpon, hypóstasis, ousía e physis (em latim, persona, substantia, essentia e natura, respetivamente). É certo que os teólogos estavam concentrados nas três Pessoas divinas – Pai, Filho e Espírito Santo –, mas essa reflexão deu azo a falar também do ser humano como tal, já que ele mantém com Deus não apenas uma relação criacional, mas também a de ser capax Dei, deixando entrever uma certa ligação com o divino, já que todo o ser humano é, essencialmente, religioso: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2,5-7). Assim, se o ser humano tem uma íntima relação com o Criador, tem, a fortiori, uma relação natural com os outros seres humanos. Ou seja, os seres humanos são, por natureza, sociáveis, pois necessitam uns dos outros e ninguém pode subsistir sozinho, não apenas no sentido vertical (com Deus), mas também no horizontal (com os outros humanos).

Deste modo, devemos ter em conta que, na Bíblia, mormente no Novo Testamento, e especialmente em S. Paulo, o cristão faz parte de um corpo, que é a Igreja. O apóstolo apresenta nas suas cartas várias metáforas da Igreja: como Corpo de Cristo, cujos membros são os cristãos (1Cor 12, 12-13; Ef 4, 13); Templo de Deus, construído com as “pedras vivas”, que são os membros da Igreja (1Cor 3, 16-17; 2Cor 6, 16; Ef 2, 20); Cristo, cabeça do corpo, que é a Igreja (Ef 5, 23-27; Cl 1, 18); Israel de Deus (Rm 9, 25; Gl 6, 16); Família de Deus (Ef 3, 19); Cristo, o Esposo da Esposa-Igreja (Ef 5, 21.25-27); plantação de Deus (Rm 11, 17-24; 1Cor 3, 6).

Toda esta doutrina cristã afirma que, no cristianismo, tudo é comunitário, eclesial, já que o termo “Igreja” significa ser chamado por Jesus (ek-kaleô – ek-klêsía) para estar em comunhão de vida com os outros membros, também chamados por Ele. Portanto, a interpessoalidade realiza-se sobretudo no cristianismo, na Igreja, e com muito mais profundidade e interligação do que em qualquer comunidade puramente humana, simplesmente porque não se trata apenas de um contrato social entre os membros de um determinado grupo, mas de uma união que é cimentada pelo próprio Espírito de Deus, que foi enviado por Jesus à sua Igreja e que é cimentada pela fé em Cristo.

 

Bibliog.: ALVES, Herculano, “A Igreja em S. Paulo”, in Raízes da Fé – Temas Bíblicos, vol. vii, Fátima/Lisboa, Difusora Bíblica/Paulinas, 2024, pp. 207-242; Bíblia Sagrada, 5.ª ed., Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica, 2008; DORSCH, Friedrich et al. (dirs.), Diccionario de Psicología, Barcelona, Editorial Herder, 1985; JOÃO Paulo II, Teologia do Corpo, coord. Miguel Pereira, Lisboa, Alêtheia Editores, 2013; LEVINAS, Totalidade e Infinito, 3.ª ed., Lisboa, Edições 70, 2008; SANNA, Ignazio, “Pessoa”, in CENTRO INTERNACIONALE VOCACIONALE ROGATE (ed.), Dicionário de Orientação Vocacional, Lisboa, Paulinas, 2008, pp. 1123-1130.

 

Maria Olinda Magalhães Ribeiro

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