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História Global da Espiritualidade e da Mística em Portugal [HGEMP] e Dicionário Global de Espiritualidade e Mística [DGEM]. Um tesouro perdido um tesouro (re)encontrado. Uma palavra de congratulação!

D. José Ornelas Carvalho, Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Estas duas obras foram sonhadas e projetadas com arrojo de visão, ousadia de objetivos, consistência de metodologia e rigor de execução, que certamente ficarão a marcar o contexto espiritual, literário, científico e cultural do mundo de língua portuguesa e, como tal, de incontornável valor na reflexão teológica, espiritual e mística no mundo. Foi nessa dimensão que a Igreja em Portugal, através da sua Conferência Episcopal, se assumiu como parceira e empenhada nesta aventura que começa a mostrar publicamente os seus contornos e brevemente se tornará disponível ao público. Merece especial congratulação o IEAC-GO, que está a cuidar desta ingente tarefa de desbravar, de modo inovador, global e científico, a história da mística e da espiritualidade desde o século I até aos nossos dias.

É frequente, nos nossos dias, sobretudo na cultura ocidental, ouvir-se e ler-se que a sociedade se está a tornar materialista e menos interessada em temas espirituais e místicos. Daí que muitos não vejam sentido ou utilidade numa obra deste género. Por outro lado, temos consciência de que, no passado como nos nossos dias, as convicções espirituais e místicas podem ser motoras de transformação, generosidade, amor, solidariedade e esperança para pessoas, grupos e sociedades, ou então, motivo de conflitos, manipulações e populismos oportunistas, que levam a guerras e catástrofes, de que o nosso mundo está repleto. Não admira, pois, que dois estudos publicados no ano passado, um pela Universidade Católica Portuguesa e outro pela fundação Francisco Manuel dos Santos, concordassem em assinalar que mais de 60% dos jovens portugueses diziam que tinham na vida referências e interesses relevantes de caráter religioso e cerca de 40% se diziam «praticantes», isto é, se envolviam pessoalmente, não apenas a nível do conhecimento descritivo e das interrogações, mas que essa ligação permeava o seu modo de viver e de tratar as questões importantes da vida. E isso é propriamente o domínio da espiritualidade e da mística.

Na realidade, a espiritualidade e a mística não são realidades destacadas da realidade. Pelo contrário, o caminho místico leva a penetrar pessoalmente, não apenas com o pensamento, mas com todas as dimensões do ser, empenhando o intelecto, mas igualmente a memória histórica, a emoção, os sentimentos, as atitudes, as ações e as relações. Quando Paulo afirma «para mim, viver é Cristo» (Fl 1,21) refere-se a essa transformação unitiva, englobante e transformadora operada no verdadeiro percurso de fé. E não há outra via que dê tamanha abertura de mente, tanta liberdade, tanta energia transformadora e tanta esperança. É dessa experiência concreta que falam os místicos.

Num mundo interligado em que vivemos, o conhecimento das várias formas de espiritualidade e das suas consequências práticas em cada grupo religioso e cultura tornam-se, não apenas motivo de curiosidade jornalística ou objeto de estudo académico, mas – porque a espiritualidade é eminentemente «prática» – torna-se cada vez mais urgente e necessário. Conhecer e investigar a própria realidade espiritual e a dos outros contribui para evitar manipulações, preconceitos e reações adversas e para que do conhecimento nasça respeito, diálogo e até convergências sempre possíveis, na busca de melhorar a vida de toda a humanidade.

Por isso, no contexto destas duas obras, conhecer a nossa própria realidade e a dos outros povos e culturas, com os quais nos fomos relacionando ao longo da história e com os quais nos sentimos ligados, constitui um notável contributo para aprofundar a nossa identidade espiritual e cultural, sem temer, depreciar ou excluir quem crê e pensa diferente.  Espero, pois, que este esforço e as parcerias e colaborações que se vão estabelecendo ao longo deste trabalho, seja, já por si, um contributo para um diálogo que promova caminhos novos de respeito, apreço e colaboração na construção de um mundo melhor para todos, a partir daquilo que o ser humano religioso considera como o mais precioso da sua vida.

Para terminar, quero ainda mencionar três caraterísticas deste trabalho que me infundem alegria e confiança:

a) O discurso religioso, nomeadamente o discurso espiritual e místico, constitui um notável campo de enriquecimento dos povos. Pense-se quanto perderia a nossa língua e a nossa cultura se eliminássemos, se expurgássemos do nosso mundo as narrações metáforas e parábolas bíblicas do nosso património literário, poético, musical, pictórico, escultórico ou arquitetónico… Que deserto se criaria na nossa maneira de conhecer, viver, relacionar-se e esperar! Repensar tudo e investigá-lo, em obras como estas que estão em curso, é uma empresa humana, humanizadora e criadora de cultura, porque se debruça sobre o que de mais nobre aqueles que realmente viveram esta realidade consideravam na sua vida, nas suas memórias e nas suas esperanças. Espero que estas duas obras contribuam para dar força e fermentar uma cultura que se desprenda do simples imediato, para pensar o todo, com harmonia e fraternidade, paz e esperança.

b) A língua em que exprimimos a realidade espiritual está já eivada de muitas memórias, experiências vividas, partilhadas e difundidas em outras culturas, adquirindo outros matizes, cores, tons e formas, no meio de nós e no nosso modo de vivê-las, exprimi-las e partilhá-las. O Espírito de Deus sempre cria formas novas de se exprimir e novos gestos de se tornar presente e atuante. Na fé, rever e narrar a memória é já um início de atualização, mas a forma como a memória é entendida e contada, em cada língua e cultura, é também distinta. A encarnação de Jesus, o princípio novo e o modelo de homem espiritual e místico, tem sempre a iniciativa de Deus, mas exprime-se em vidas, sentimentos, atitudes e gestos humanos e em seres humanos e culturas distintas. A fé foi sempre «mestiça», foi sempre criativamente mestiça na memória narrada que recebemos, na forma como a vivemos e partilhamos e igualmente no modo como foi sendo acolhida, vivida e exprimida por aqueles a quem a comunicámos.

c) Por isso, conforta-me ver o leque diversificado das pessoas que já estão a participar nestes projetos. Diversificados/as pela diversidade bem presente do feminino na história da espiritualidade e da mística, que se reflete igualmente neste empreendimento. Diversificado na diversidade cultural, pois as Igrejas que se espelham nesta reflexão têm modos novos e diferenciados de exprimir a fé e as atitudes celebrativas, vivenciais e relacionais que é importante integrar. Diversificadas na idade, pois, hoje, dentro de cada cultura estão-se a verificar mudanças velozes e radicais nos modos, não apenas de exprimir, mas ao nível mais profundo, de pensar, de organizar e partilhar as experiências importantes da vida e da fé.

Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
D. José Ornelas Carvalho

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