As aparições são entendidas como manifestações sobrenaturais percetíveis quer pelos sentidos quer pela imaginação. São fenómenos que se apresentam nas mais diversas formações religiosas, cristãs ou não, com conteúdos que também mostram a sua dependência do sistema de crença do indivíduo ou do grupo que as experimenta.
A semelhança com o fenómeno das visões é muito grande, embora existam diferenças assinaláveis. A visão é um fenómeno que possui um carácter exclusivamente pessoal, enquanto no caso da aparição o objeto pode ser apreendido por um grupo.
Tradicionalmente, faz-se uma distinção entre as aparições de carácter material, percebidas pelos sentidos externos (como as de Fátima, Lourdes, Metjugore); as de carácter imaginativo, ou espirituais, percebidas pelos sentidos internos (como as que nos refere S.ta Teresa no livro da Vida, ou meramente intelectuais, percebidas só pelo espírito (como a chamada “Iluminação do Cardoner”, de S.to Inácio de Loyola).
A valorização do fenómeno das aparições afigura-se complexa. No campo da espiritualidade, os místicos tenderam a conferir-lhes um valor muito secundário e, inclusivamente, a considerá-las suspeitas ou, mesmo, perturbadoras de uma autêntica experiência espiritual. S. João da Cruz destaca-se especialmente pelo receio que manifesta face a estas aparições, visões e locuções. Relativamente às aparições coletivas, a possível interferência de fatores sociais, políticos ou económicos, assim como os fenómenos psíquicos de sugestão emocional, levaram a que a Igreja católica tenha sido sempre muito cautelosa quanto à sua aceitação.
Nas aparições importa também assinalar a influência dos diversos sistemas de crenças existentes num dado momento. As visões e as aparições foram diferentes em cada época da história do Ocidente. As que predominaram entre os Padres do Deserto foram umas, outras foram as da Idade Média, ou as que floresceram entre os místicos a partir do séc. xii, ou ainda as que tiveram lugar em tempos mais recentes, tais como as de Fátima ou Lourdes. Em todas elas, contudo, se alerta para a estreita proximidade com os contextos culturais e religiosos em que têm lugar. Em consonância, dificilmente um protestante terá uma aparição das almas do Purgatório, ou a um católico aparecerá uma deidade hindu.
Mas foi, sobretudo, no campo da psicologia clínica e da psiquiatria que se gerou um intenso debate sobre a origem, patológica ou sobrenatural, das aparições. É um facto que, tanto no âmbito do misticismo como no das doenças mentais, têm lugar aparições. O que leva a questionar se, em ambos os casos, estaríamos perante fenómenos alucinatórios, isto é, “perceções sem objeto”, como a psiquiatria define a alucinação. Segundo esta perspetiva, poder-se-ia pensar que as aparições descritas por muitos místicos têm um carácter alucinatório, na medida em que há que considerar que é metafisicamente impossível, por exemplo, que S. Estanislau pudesse ter o menino Jesus nos seus braços, sendo que quando Jesus deixou de ser criança, desapareceu enquanto tal.
No entanto, o problema prende-se com o carácter patológico que possui o termo “alucinação”. É legítimo pensar que uma aparição, mesmo assumindo que, a nível fisiológico e psíquico, decorre pelas mesmas vias no místico ou no doente mental, pode, não obstante, responder a dinâmicas psíquicas muito diferentes, com motivações muito diversas e, principalmente, com efeitos muito desiguais. As aparições espirituais, neste sentido, poderiam ter origem num estado de consciência particular, alheio por completo a qualquer tipo de patologia.
Convém ter em conta um ponto em que as aparições do doente mental claramente diferem das experimentadas pelos místicos: o contexto em que tiveram lugar e, sobretudo, os seus resultados. Lhermitte assinala três elementos em que as aparições se diferenciam das alucinações patológicas. O primeiro seria o da influência que as visões espirituais exercem na vida dos místicos, determinando o seu modo de pensar e agir. O segundo sinal seria a paz profunda que geram. O terceiro, a permanência na memória de quem as experimenta. Nenhum destes três elementos se encontra nas visões de carácter patológico. O elemento diferencial mais decisivo é dado, sem dúvida, pelos efeitos benéficos ou prejudiciais que a aparição comporta na vida do indivíduo, se possui ou não, como afirma S. João da Cruz, um “efeito de amor e humildade”. Em síntese, deparamos com o mais elevado critério evangélico de que “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 16).
Conclui-se, por conseguinte, que nas aparições estamos perante um fenómeno psíquico de carácter particular, diferente do que entendemos por alucinação, sem que isso implique atribuir a categoria de realidade material externa ao objeto da visão. “Perceção sem objeto”, portanto, semelhante, mas não igual à alucinação, originada num estado particular de consciência que possibilita o acesso ao Mistério que transcende os limites que nos constituem como humanos.
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Carlos Domínguez Morano