Ichthus e ’opsarion (“peixe seco”), em grego; dag, em hebraico. Segundo a Bíblia, dag indica os peixes que têm escamas; só estes são cacher, i.e., “aptos” para fazerem parte da ementa do judeu cumpridor da lei; os outros animais da água, não (Lv 11, 9-12; Dt 14, 9ss.; Mt 15, 1-20; Mc 7, 14-23; Lc 11, 37-41; 1Cor 15, 39).
Para compreendermos a importância do peixe e dos animais marinhos, talvez seja útil recordar que o peixe, sendo um habitante das águas mais ou menos profundas, está associado aos antigos mitos relacionados com o mar profundo, segundo os quais um peixe gigante segurava a terra sobre o seu dorso, e, nas lutas cosmogónicas entre o Yam (mar profundo) e Baal, o deus do céu e da luz, é este último quem vence a batalha, entre a luz e as trevas, pelo que o Yam, espécie de baleia gigantesca, foi cortado em duas partes e, daí em diante, nunca mais se levantou contra o reino da luz. O peixe-monstro de Jonas pode estar relacionado com estes mitos antigos, ao engolir Jonas e guardá-lo durante três dias, para que não se afogasse. Neste caso, tornou-se um “peixe” de vida e não de morte, porque guardou no ventre “materno” o profeta fugitivo (Jn 2, 1-11).
Outro fenómeno sobre o peixe é o referido no livro de Tobite: o arcanjo Rafael aconselhou o jovem Tobias a apanhar um determinado peixe no rio Tigre, cujos fel, coração e fígado iriam afastar o diabo que matava todos os homens casados com Sara, a jovem que iria casar com Tobias (Tb 6, 1-5). Estes elementos do peixe, queimados na noite de núpcias, afugentaram, de facto, tal demónio, e Tobias viveu feliz com Sara (Tb 8). Com o fel do peixe, que Tobias tinha guardado para o efeito, ao esfregá-lo nos olhos de seu pai, Tobite, curou-o da cegueira em que ele vivia (Tb 11, 9-14).
O peixe está relativamente presente no Antigo Testamento. Assim, os Israelitas sentem saudades dos peixes do Egito (Nm 11 ,5), mas os profetas utilizam o peixe e a pesca em sentido figurado, na medida em que o peixe facilmente cai nas redes (Is 19, 8; Jr 16, 16; Ez 26, 5.14; 29, 4; 32, 3-5), e Ezequiel 47, 8-11 afirma que até no mar Morto há peixe abundante, devido às águas vivas que emanam do altar do Templo de Jerusalém. Consta também que os fenícios, grandes pescadores do Mediterrâneo, vendiam o peixe em Jerusalém (Ne 13, 16), cidade que tinha uma porta, chamada precisamente Porta dos Peixes (Sf 1, 10; Ne 3, 3; 12, 39; 2Cr 33, 14). Segundo o Novo Testamento, o peixe fazia parte da alimentação quase diária, já que a carne era mais cara e, portanto, destinada sobretudo aos ricos (Mt 7, 10; Mc 6, 38.41.43; Lc 5, 1-11; 9, 13.16; Jo 21, 6.8-9). Há referências ainda ao peixe seco (’opsarion), conservado por mais tempo, já que o sal era escasso (Jo 6, 9.11; 21, 9-13).
No Novo Testamento, o lago de Genesaré, ou mar da Galileia, é o lugar onde mais se fala de peixe e de pescadores, já que não era fácil para os pobres pescadores terem barcos grandes para entrarem no Mediterrâneo. Junto do lago, havia pequenos portos para barcos de transporte e de pesca e também lugares para salgar o peixe. Por isso, os evangelhos referem o peixe diversas vezes, assim como os pescadores do lago, onde Jesus foi buscar “pescadores de homens”, a fim de levarem o evangelho por todo o mundo (Mt 4, 19; Mc 1, 17; Lc 5, 11; Jo 21, 9-13).
Os primeiros cristãos, ao pensarem numa espécie de sigla que os identificasse, escolheram o nome “peixe” em grego (ichthus), já que o conjunto das letras significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (Iêsous Khristós, Theou Yios, Sôter). Assim, o desenho de um peixe no chão era o sinal usado para os cristãos se identificarem entre si. O peixe tornou-se também um símbolo eucarístico, nas diferentes multiplicações do pão e, por vezes, também dos peixes (Mt 14, 13-21; 15, 32-38; Mc 6, 34-44; 8, 1-9; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-15).
No judaísmo, o peixe estava ligado aos tempos messiânicos, motivo pelo qual, talvez, Jesus come peixe com os discípulos depois da Ressurreição (Lc 24, 41-43; Jo 21, 9-13). De qualquer modo, a ligação do peixe com a eucaristia é apenas indireta, na medida em que o pão, o alimento mais importante, era acompanhado com o peixe, e não o contrário.
Bibliog.: ALVES, Herculano, “Peixe”, in 50 Símbolos na Bíblia, Fátima, Difusora Bíblica, 2017, p. 371-384; DAY, Alfred Ely, “Fish”, in ORR, James (ed.), International Standard Bible Encyclopaedia, vol. 2, Peabody, Hendrickson Publishers, 1994, pp. 1114-1115; LECLERCQ, H., “Ichtys”, in CABROL, Fernand (ed.), Dictionnaire d’Archéologie Chrétienne et de Liturgie, t. vii, vol. 2, Paris, Librairie Letouzey et Ané, 1927, cols. 1910-2086.
Herculano Alves