O termo aramaico Abbâ, “Pai”, é o nome pelo qual, nos primeiros séculos do monaquismo, eram chamados os monges, particularmente os mais velhos e veneráveis. Depois passou a indicar o superior do mosteiro sui iuris. No Oriente, manteve-se ao lado de outros termos, como hegúmeno ou arquimandrita; no Ocidente, prevaleceu sobre o título praepositus, que quase sempre passou a designar o segundo monge na hierarquia do cenóbio, logo depois do abade. Nos primeiros séculos do monaquismo, onde não vigoravam regras escritas, o abade foi muitas vezes um personagem carismático, que agregava em torno de si os irmãos com o prestígio da ação e da santidade; depois tornou-se uma figura institucionalizada e sempre mais definida.
São Bento (480-547) consagra dois longos capítulos ao “abade” e nomeia-o mais de 150 vezes no decorrer da Regra. A direção da abadia está nas suas mãos, mas nem tudo gira à sua volta, como erroneamente se poderia supor. O mosteiro é uma comunidade de monges que procura a Deus e cuja vida está centrada em Cristo. No meio desta comunidade, Cristo é representado pelo abade, o que está perfeitamente na linha do carácter sacramental da economia de salvação de Deus, segundo o qual o divino se torna visível através do humano.
Numa comunidade de monges, é o abade que representa Cristo, como cabeça, doutor e pastor: “Ao abade, já que se crê fazer as vezes de Cristo, dê-se-lhe o título de ‘Dom’ e ‘Abade’, não porque ele o pretenda, mas pelo amor e honra devidos a Cristo” (Regula Benedicti, LXIII, 13). O abade deve renunciar a si próprio e orientar-se para Cristo, que é pai de todos e de cada um. É precisamente porque Cristo é para São Bento o pai dos monges que o abade se deve apagar para melhor o representar na comunidade.
Como um pastor cheio de ternura, o abade exercerá o seu ministério segundo o critério da justa medida e da discrição. Esta imagem do pastor assenta sobre a vigilância que o abade deve exercer sobre a comunidade, como também sobre as contas que terá de prestar a Deus, Pai de família. A Regra multiplica os termos para exprimir esta preocupação: “vigilância”, “solicitude”, “diligência”, “adaptabilidade”. Conhecer as necessidades de cada um requer do abade, além da atenção a todos devida, uma grande sagacidade e uma habilidade pouco comum. Entramos aqui, pois, no domínio da discrição, virtude do meio termo, que caracteriza a Regra e deve caracterizar o abade. A direção das almas requer uma grande circunspeção; adaptar-se aos diversos temperamentos, às diferentes situações, aos conceitos mais díspares, não é coisa fácil. A virtude da justa medida, a discrição, tornará o abade apto a ajudar cada um na descoberta do caminho a que Deus o chama, nas condições e circunstâncias que lhe são pessoais. Deste modo, evitará que ele se desvie, quer por pusilanimidade, quer por excesso. Esta virtude do meio termo não é medíocre, mas concentra todas as energias para fazer amadurecer em nós os gérmenes semeados pelo Espírito de Deus.
Nesta arte de conduzir almas, São Bento está perfeitamente consciente de que o homem não é puro de espírito. A maneira como fala das necessidades de cada um, no que respeita à alimentação, à bebida, ao vestuário, aos cargos, mostra claramente que a direção espiritual implica o homem todo, o corpo, como também as suas ocupações materiais.
Na escola do serviço do Senhor, o abade é responsável de tudo, mas pode escolher auxiliares. Cada um receberá uma parte de responsabilidade para seu bem pessoal e de toda a comunidade. É o princípio da subsidiariedade: a autoridade permite que cada um sirva segundo a sua capacidade. O abade só intervém para suprir as insuficiências. O monge não é, portanto, um simples instrumento ao serviço da comunidade e o espírito de iniciativa é valorizado em ordem ao bem comum. Um superior que sabe fazer-se ajudar adquire uma maior liberdade para se dedicar às tarefas próprias. Encarregado de superintender, perderá o controlo do conjunto e falhará no exercício da sua missão, caso se ocupe de tudo.
É interessante notar que, na Regra, a imagem do pastor intervém quando se trata da fraqueza espiritual, moral, psíquica, ou física dos monges. A atenção aos doentes, o desvelo pelos sobrecarregados, etc., são solicitudes tão pastorais como corrigir uma conduta faltosa, ou prevenir a infeção do corpo pelos membros corrompidos. A Regra propõe em todos estes casos o exemplo do Bom Pastor cheio de ternura. Exceto no caso dos hipócritas, Cristo preferiu a misericórdia à justiça. O pastor procura o que é salutar para cada um e pode, neste sentido, ser chamado pai. Dá a cada um segundo as suas necessidades, para que todos vivam em paz. Se a boa ordem é indispensável à paz, esta exige mais. Compete ao abade estabelecê-la e conservá-la no mosteiro. A paz exige uma justa distribuição dos cargos, segundo as possibilidades de cada um. Se o abade possui este sentido da justa medida, poderá dar ao conjunto da comunidade esta orientação geral, a qual permitirá que o Espírito se exprima sob múltiplas formas. Para que, através de uma estrutura geral, o abade possa dar livre expressão às vocações pessoais, exige-se da comunidade uma grande flexibilidade. Fortes e fracos, cada um segundo as suas capacidades, sentir-se-ão na comunidade como em casa. “Não distinga no mosteiro quem quer que seja” (Regula Benedicti, II, 16). Deste modo, deixará transparecer algo do amor de Cristo, para quem não existia qualquer aceção de pessoas, que não preferia o forte ao fraco.
Bibliog.: BOMBELLI, Maria Cristina, Administrar com Sabedoria: A Regra de S. Bento e a Gestão, Lisboa, Paulinas, 2019; HERWEGEN, Ildefonso, Sentido e Espírito da Regra de S. Bento, tradução dos monges do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Lumen Christi, 1953; JUST, Cassià M., Regla de San Benito con Glosas para uma Lectura Actual de la Misma, Zamora, Ediciones Monte Casino, 1983; LUCAS, João, “O abade numa sociedade democrática”, Presença de Singeverga, n.º 36, 91, 2013, pp. 4-10; Regra de S. Bento, 3.ª ed., Singeverga, edições Ora & Labora, 2020.
Bernardino Costa