Gesto e ação em forma de duplo envolvimento de dois corpos, o abraço é uno e revela a “arquitetura íntima” da relação ao outro como nunca o Outro e o Eu poderão ser só por si. Síntese em carne e osso do verbo transitivo “abraçar”, o abraço completa em amplexo sensível a incompletude física do ser e do estar no mundo. Como gesto humano, manifesta-se em diversos tipos, ocasiões, significados e intenções, que podem ser vivenciados de maneiras diferentes e com variadas conotações em diversas culturas e situações, e.g.: o abraço cumprimento aqui entre amigos e conhecidos, que noutro país equivale a um beijo; o abraço amoroso que transmite sentimento; o abraço de um filho que pede conforto e segurança; o abraço a animais e árvores (tree huging), que nos renova as energias e vibrações.
Como experiência sensorial e cinestésica, o abraço revela gramáticas de afetos, ativa hormonas de bem-estar e a fisiologia corporal, transportando o sentir para vivências concretas de emoções que fazem histórias, que fazem História. Da mesma maneira, no seu reverso e ausência, o abraço contém histórias de outros afetos e emoções que petrificam os corpos e os seus sujeitos. Ou será falta de afeto, justamente, objeto de desamor. Como uma história de violências várias que marcam os gestos e seus autores. Quantos traumas não anestesiam esses laços e nós? Quantas palavras serão necessárias dizer para que o abraço se possa cumprir na sua perfeição? Vivido como um encontro para lá das palavras, o abraço será um antídoto às guerras, aos ódios, às aniquilações. O abraço é terapêutico. O abraço reconforta. Encosta peito a peito, cruzando os corações, que passam a ocupar, com o seu bater, os dois lados de cada corpo. O abraço é redondo, ritmado, pode fazer suspender a noção de tempo e, ao mesmo tempo, acelerar o passo da circulação no grande músculo cardíaco. O abraço é vida a dobrar. É calor. Música sem som. Tempo. Amor. Amizade. Autenticidade e pacificação. Silêncio no seu maior esplendor. Não precisa de palavras para ser claro e evidente. Não precisa de traduções. Vê o essencial e não vê cores. Sente densidades e subtilezas. Tem um idioma transversal a todas as línguas. Dita o seu próprio tempo e intensidade, sem programação nem programador. O abraço é um medidor de saúde e de entusiasmo. Pode regular a tensão arterial e as mentes em agitação. Acalma os espíritos inquietos e mata saudades. O abraço realiza também o encontro de espíritos, ou seja, dá corpo ao que de corpo não se vê na existência física. Tem tanto de sensorial como de espiritual, num sentido anterior a qualquer religião ou religiosidade. No seu movimento conciliador, re-liga partes de um todo feito de gente que vive um mesmo espaço-tempo. É barómetro de ligações e dom recíproco. Cumpre a forma do nosso corpo humano de braços abertos e alçados. Existe graças à nossa verticalidade antropológica e serve de fio de prumo ao equilíbrio psicológico.
Podemos concluir que, na sua anatomia, fisiologia, antropologia e psicologia, o abraço é a forma específica da nossa existência humana saudável e realizada. O abraço tem vocação de um desejo comum: o de que todas as pessoas possam abraçar e serem abraçadas. Seremos mais humanos quanto mais nos abracemos.
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Elsa Lechner