A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Adivinhação

Segundo o magista Eliphas Levi (LEVI, 2017), a palavra divinare “é algo mais do que tornar-se divino”. Originada da palavra divinus, que por sua vez se refere a uma deidade, um ser divino, pode-se considerar, portanto, adivinhação como o ato de aproximar e decodificar uma informação considerada divina. A prática baseia-se no uso da intuição e clarividência na análise sobre as analogias universais. Apesar de não existir um formato padrão para o uso, o exercício desta arte convida, para além de apenas sentir, a compreender aquilo que se sente.

A prática de adivinhações sofre muitas mudanças ao longo dos anos, tanto na sua metodologia como na definição do conceito. Inicialmente, os adivinhos, aqueles que praticam a adivinhação, eram sacerdotes que recebiam informações do divino em locais sagrados, como é o caso de Delfos. Já na época dos profetas, com a deposição quanto a necessidade de um local específico para realizar a arte divinatória, dá-se lugar de destaque à relação entre o adivinho e a divindade. Com a expansão do estudo do hermetismo e da alquimia na Idade Média, os adivinhos procuraram nos tratados de astrologia e de ciências naturais referências para realizar as adivinhações. Assim, às competências divinatórias une-se o estudo da natureza das coisas, suas correspondências e potências sobrenaturais. A adivinhação passa, portanto, a precisar de lógica, inteligência.

É comum na literatura que adivinhos tenham uma aura santa, ou que, no mínimo, realizem purificações e uma vida dedicada à sua crença. Na contemporaneidade, as obras sobre o assunto não exploram este ponto como uma necessidade, mas como uma ferramenta capaz de facilitar a comunicação com o plano divino.

A pessoa que se propõe desenvolver a técnica da adivinhação procura conectar-se com a essência divina das coisas e dos acontecimentos por meio de um ofício religioso. Adivinhar é predizer aquilo que está oculto no espaço e no tempo, procurando as causas, pensamentos, sentimentos e até o que está para ser atraído por uma pessoa, no seu futuro, em função das suas atitudes até ao presente.

Para isso, são utilizados muitos métodos. São classificados como métodos passivos aqueles em que o adivinho não se esforça para receber a informação, adquirindo-a de maneira involuntária por vezes, como se passa com Abraão, no Antigo Testamento, a quem Deus fala por meio de sonhos. Métodos ativos são aqueles em que o adivinho usa de vias de invocação ou oráculos para estabelecer diálogo com o sagrado, como os utilizados por uma das cartomantes mais famosas do mundo até à Idade Contemporânea, Marie Anne-Lenormand.

Neste último grupo encontra-se a prática de adivinhação a partir de oráculos (cartomancia, búzios, quiromancia, runas, etc.). Os mecanismos utilizados servem para despertar a intuição e a imaginação por meio de um artefacto sagrado, de modo a obter e interpretar sinais de uma realidade mais subtil do que aquela que normalmente conseguimos perceber.

E há ainda a adivinhação ligada a causas naturais (clima, agricultura, fases lunares e marés). Este tipo de adivinhação reconhece a organização do cosmo e percebe a ordem da natureza como uma escrita direta do divino. Conhecido inicialmente como “augúrios”, este método de adivinhação, bastante difundido no mundo grego, implicava o estudo ao longo de toda uma vida por parte do sacerdote que o dominava, possuindo também um valor social para preservação da comunidade. Os augúrios, posteriormente, passam a utilizar utensílios como canal de resposta. Trata-se do caso da licnomancia, lacanomancia ou catoptromancia, que utilizam lâmpadas, bacias e espelhos, respetivamente, dando mesmo forma a outras práticas divinatórias, em sistemas mais contemporâneos, como a Alta Magia e a Goetia.

As adivinhações desenvolvidas depois da Idade Média, apesar de já existirem em ritos pagãos com a mesma metodologia, socorrem-se da invocação de deuses, elementais ou forças espirituais como ferramenta para receber as respostas corretas. Mesmo que a palavra adivinhação popularmente seja usada para identificar uma predição de uma situação futura, a adivinhação pode ocorrer relativamente a tempos passados, como ao tempo presente ou ao tempo futuro.

 

Bibliog.: AGRIPPA, H. C., e TYSON, D., Tres Libros de Filosofía Oculta, São Paulo, Madras, 2008; BRANDÃO, J. L., “A adivinhação no mundo helenizado do segundo século”, Classica-Revista Brasileira de Estudos Clássicos, 4, 4, pp. 103-121; KARDEC, A., O Livro dos Espíritos, 105.ª ed., Araras, SP, IDE., 1996 [1.ª ed. 1954]; LEVI, E., Dogma e Ritual da Alta Magia, Editora Pensamento, 2017.

 

Natasha Martins

 

Autor

Scroll to Top