É um termo (berît, em hebraico; diathekê, em grego) que vem do acádico (“entre-dois”) e cujo conceito exige sempre duas partes, que podem ser indivíduos ou instituições: indivíduos (Gn 21, 22-33); estados (1 Rs 5, 26); soberanos e súbditos (2 Rs 11, 4.17); Esposo-Deus e esposa-Israel (Ez 16, 6-14). Por vezes, a linguagem da aliança tem conotações relacionadas com guerras, às quais correspondem os respetivos tratados de paz ou alianças entre as duas partes. Por isso, o tema da aliança na Bíblia corre o perigo de ser mal interpretado, como se a Bíblia fosse um livro de guerras, e Deus andasse a fazer tratados de paz com o povo de Israel.
Será, pois, importante saber se a aliança, na Bíblia, é um simples tratado de paz. Aqui daremos especial relevo à aliança no Antigo Testamento, pois, conhecendo as características essenciais deste termo na antiga aliança, facilmente conheceremos as da nova, estabelecida por Jesus Cristo com a humanidade. Esta continua e aperfeiçoa a do Antigo Testamento. Por isso, as edições hebraicas ou gregas frequentemente intitulam estas duas partes da Bíblia como Antiga (He Biblikê ‘Etairía) e Nova Aliança (haberît hahadashah).
Quando falamos de aliança na Bíblia, estamos a contas com um dos seus modos humanos de falar de Deus e da sua relação com o povo da Bíblia. É uma linguagem humana sobre Deus, que se inspirou em alianças, tratados de outras culturas vizinhas (sobretudo dos hititas), anteriores ao povo da Bíblia. E não podemos esquecer que, teologicamente, a aliança constitui a estrutura fundamental da Bíblia. Poderíamos mesmo afirmar que o Deus da Bíblia é, antes de mais, o Deus da(s) aliança(s) com o seu povo, pois é sempre Ele que tem a iniciativa da aliança, porque Deus é amor (ho theós ’agápê ’estín; 1Jo 4, 8.16). A aliança exprime, portanto, a mais íntima e profunda relação entre Deus e o seu povo, entre Deus e cada pessoa, sendo que, da parte de Deus, a aliança é sempre gratuita.
Campo semântico da aliança
O termo berît pode ter equivalência semântica noutros vocábulos e ser traduzido nas línguas modernas por diferentes palavras: aliança, pacto, tratado, testamento, banquete, promessa (que finaliza a cerimónia da aliança); mas também se apresenta com uma série de termos de obrigação, como “lei”, “mandamento”, “preceito”, “decreto”, “juízo”, ordens”, etc., que se devem entender, não simplesmente em sentido negativo, mas como resposta de fidelidade do povo à aliança feita com Deus. Tal compromisso é natural, por implicar as duas partes que se comprometem uma com a outra, assinando as respetivas “cláusulas da aliança”. É com este sentido que a instituição da aliança aparece nas línguas e culturas hitita, hebraica, grega e latina.
A Vetus Latina (tradução dos Setenta para latim) traduziu diathekê por testamentum, vocábulo que entrou nas línguas modernas novilatinas, com sentido um pouco estranho ao original. E assim continuou na Vulgata latina. O berît hebraico foi ainda traduzido, em grego, por outros termos, que significam “disposição”, “desígnio”, vontade de fazer alguma coisa (dia-thekê e syn-thekê).
É neste sentido que encontramos várias expressões sobre a aliança: a) concluir uma aliança diz-se cortar uma aliança, isto é, estabelecer uma obrigação (karat berît), porque se cortava o animal oferecido a Deus; b) pela expressão recordar a aliança, entende-se conservar a aliança (zakar berît); c) transgredir a aliança é romper a aliança (hapar berît).
Aliança designa, pois, a relação que existe entre dois ou mais sócios, por um acordo mútuo que os vincula, numa relação de reciprocidade, com direitos e obrigações.
Expressões equivalentes ao conteúdo de “aliança”
Além dos textos da Bíblia em que aparece a palavra “aliança”, há várias expressões que indicam a realidade da aliança ou os seus efeitos. Assim, o povo de Israel é chamado “propriedade pessoal” do Senhor. Tal como os reis tinham os seus haveres pessoais, na sua relação com Deus o povo torna-se também a propriedade (segullâh) que pertence inteiramente ao seu Senhor, numa relação de especial intimidade.
Israel é ainda chamado, por vezes, reino de sacerdotes (mamelèkèt kohanim; Ex 19, 6), isto é, o povo escolhido para exercer a função de intermediário entre todos os povos e o Senhor universal, o único Deus de todos eles.
Finalmente, o povo é chamado nação santa (gôy qadosh; Ex 19, 6), expressão que significa duas coisas: o povo é subtraído, separado do uso profano, para ser reservado completamente para Deus; por isso mesmo, são-lhe proibidas certas ações incompatíveis com a sua consagração a Deus. Nesse sentido, foi escrito um autêntico tratado no livro do Levítico, que se chama “Código de Santidade” (Lv 17, 1 – 26,46).
Berît: Aliança unilateral e bilateral
Frequentemente perguntamo-nos se as alianças da Bíblia são unilaterais, isto é, se exigem apenas o compromisso de uma das partes, o auto-compromisso, ou se são bilaterais, em que as duas partes juram cumprir o prometido no “contrato”. As grandes alianças da Bíblia são, em geral, unilaterais: é apenas Deus que se compromete com o seu povo, porque este não tem capacidade para responder à proposta de Deus, pois falha continuamente aos seus compromissos para com Ele. Quando isso acontece, diz-se que Deus jurou favorecer o seu povo ou que lhe fez uma determinada promessa. Por vezes, há o compromisso bilateral, uma aliança recíproca, em que o povo de Israel se compromete também com Deus. É o caso da aliança do Sinai, reinterpretada pelo Deuteronómio, em que o povo jura cumprir os mandamentos (Dt 5, 6-21; 26, 16-19).
Daqui se conclui que a aliança na Bíblia é sobretudo um ato de amor por parte de Deus em relação com o seu Povo, como nos mostra este texto do profeta Oseias, em que Deus trata o Povo como uma mãe trata o seu filho pequenino: “Quando Israel era ainda menino, Eu amei-o e chamei do Egipto o meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais eles se afastaram; ofereceram sacrifícios aos ídolos de Baal e queimaram oferendas a estátuas. Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que era Eu quem cuidava deles (Os 11, 1-3).
Existem vários exemplos de grandes alianças bíblicas: a aliança de Deus com Noé (Gn 9, 1-17); as alianças com Abraão (Gn 15, 1-21; 17, 1-27); aliança do Sinai (Ex 19, 1-24, 18; aliança deuteronómica: Dt 28, 69-30, 20; aliança das tribos com Deus (Js 24, 16-28; Sir 44, 21-23); nova aliança (Jr 31, 31-34; Mt 26, 26-29; Rm 11, 25-27; Hb 8, 8-12); aliança entre o Esposo-Deus e a esposa-povo (Ez 16; Os 1-3).
O mundo contemporâneo, apesar de ser sensível aos problemas ecológicos, foi o que mais guerra fez à Terra e à Criação. Um dos textos bíblicos que mais tem a ver com os problemas ecológicos é precisamente o do ciclo de Noé: o texto do dilúvio e da aliança com Noé. Aparece aqui, pela primeira vez, a palavra aliança (Gn 6, 18), e a aliança formal aparece em Gn 9, 8-15, com um carácter universal.
O contexto próximo da história e da aliança de Noé é constituído por Gn 6, 5-9. 19, que não pertence à história de Israel, mas é o background de uma história de alianças. Pode representar, não o início da teologia da Aliança, mas um paradigma das alianças que Deus fez com Israel ao longo da sua história e quer fazer com todos os povos ao longo da história humana.
Bibliog.: BOTTERWECK, G. Johannes, e RINGGREN, Helmer, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. 2, Grand Rapids-MI, W. B. Eerdmans Publishing Company, 1993, pp. 253-279; COENEN, L. et al., Diccionario Teológico del Nuevo Testamento, 5.ª ed., vol. 1, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2003, pp. 84-89; Dictionnaire Encyclopédique de la Bible, Brépols, 1987, pp. 35-39.
Herculano Alves