Amizade I
Do grego “φιλία”, do latim “amicitia”, do inglês “friendship”, do francês “amitié” e do alemão “freundschaft”. Designa, em geral, a comunidade de duas ou mais pessoas ligadas por atitudes concordantes e por afetos positivos. É um sentimento que se caracteriza pelo desinteresse e pela reciprocidade.
Platão (428/427-348/347 a.C.), no Lisis, refere que a amizade descansa no amor e se regula pela virtude. O tema será desenvolvido por Aristóteles (384-322 a.C.) nos livros viii e ix da Ética a Nicómaco. Para ele, o homem feliz tem necessidade de amigos. A amizade perfeita dá-se entre homens iguais em virtude: estes querem o bem um do outro, enquanto são bons e são bons em si mesmos. A essência da amizade consiste em partilhar, em conversar e em se relacionar com o amigo como consigo mesmo. Esta ideia será retomada por Cícero (106-43 a.C.), que considera a amizade como unanimidade nas coisas divinas e humanas, e que se faz acompanhar de afeto e benevolência. Santo Agostinho (354-430), próximo de Cícero, dirá que o amigo é um outro si mesmo. Depois da sua conversão, a amizade é entendida como uma caritas, que une os seres humanos entre si e tem como fundamento último Deus. O homem feliz ama o seu amigo em Deus e o seu inimigo por causa de Deus. A verdadeira amizade realiza o ideal das primeiras comunidades cristãs: os amigos têm um só coração e uma só alma.
Esta conceção, da “amizade espiritual”, foi seguida por vários autores medievais. Aelredo de Rievaulx (1110-1167) une a conceção antiga da amizade com as virtudes da vida espiritual cristã. Na Modernidade, Kant dirá que a amizade exige o respeito pelo outro, requer uma igualdade que não está submetida à reciprocidade entre seres humanos, mas à lei moral universal. Na Contemporaneidade, Ricoeur retoma o tema da amizade aristotélica: o amigo é um outro si mesmo; a amizade é acompanhada pela solicitude pelo outro. Consiste numa “relação mútua” que reconhece a dívida infinita entre humanos, uma assimetria corrigida pela “simpatia pelo outro sofredor” que procede do eu amante. A amizade é um “centro” em que o eu e o outro partilham o mesmo desejo de viver juntos. Derrida, seguindo Levinas, considera que o acolhimento do estrangeiro, enquanto hospitalidade, é fundamental para estabelecer a amizade. Já para S. Weil, a amizade é uma igualdade feita de harmonia; embora compreenda uma certa reciprocidade, só existe onde a autonomia é conservada e respeitada. A amizade pura, que é rara, é uma imagem da amizade original e perfeita, a da Trindade, pois encerra algo como do “sacramento”.
Bibliog.: ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, Lisboa, Quetzal, 2012; LA CECLA, Franco, Essere Amici, Torino, Einaudi, 2019; CUNHA, Duarte da, A Amizade segundo Aristóteles, Lisboa, Principia, 2010; FIASSE, Gaëlle, L’Autre et l’Amitié chez Aristote et Paul Ricoeur. Analyses Éthiques et Ontologiques, Louvain/Paris, Peeters, 2006; MARTINS, Maria Manuela B., “Amititia nostra vera ac sempiterna erit: as fontes da amizade espiritual em Agostinho de Hipona”, Revista Portuguesa de Filosofia, n.º 64, 2008, pp. 209-240; MENEZES, Ramiro D. de, “A hospitalidade como ‘vivência da amizade’ segundo Derrida”, Cauriensia, vol. viii, 2013, pp. 445-458; MERLE, Jean-Cristophe, “A amizade nos limites da simples moral. A concepção da amizade em relação à humanidade”, Veritas, vol. 51, 4, 2006, pp. 79-90; QUERO, Andrés Sánchez, “Sobre el ser del amigo: amistad y metafísica en Platón, Aristoteles, San Agustín y San Alberto Magno”, Pensamiento, vol. 66, 27, 2010, pp. 5-33; RICOEUR, Paul, Soi-Même comme Un Autre, Paris, Seuil, 1990; WEIL, Simone, “Amitié”, in Attente de Dieu, Paris, Fayard, 1996, pp. 139-145.
Etelvina Nunes
Amizade II
Tanto em formas narrativas como em lições de sabedoria ou reflexão conceptual, compreende-se a amizade como uma forma do amor independente da ligação biológica de irmãos de sangue e da relação de sexos e idades. É a mais abrangente forma do amor, virtualmente com todas as criaturas e com Deus, e um raro tesouro (Ecl 6, 14). A narrativa bíblica ilustra com o pacto de amizade selado entre Jónatas e David, conservado com fidelidade na prova e na dor da perda (1Sm 18, 1-4). O Novo Testamento narra a amizade de Jesus com os irmãos Marta, Maria e Lázaro, provada por lágrimas (Jo 11), e de Paulo nas saudações de suas cartas. A narrativa grega descreve os laços de amizade entre Aquiles e Pátroclo em meio à guerra, retoma em diversas versões a trágica amizade entre Orestes e Pílades, seja na cumplicidade como na condenação e morte: cada um quer morrer no lugar do outro ou então morrer juntos. Na tradição filosófica, Platão introduz o aspeto social e pedagógico da amizade, unindo nela amor e liberdade. Aristóteles, na Ética a Nicómaco, livros viii e ix, interpreta a tradição grega, de que o amigo é como um “outro eu”, no paradoxo de ser como “uma só alma em dois corpos”, a mais clássica das definições de amizade. Pode-se entender como um “eu estendido” (phílos) em “outro” (xénos), surgindo daí a philoxenía, hospitalidade. Assim como alguém bom procura o bem, também procura o bem do amigo. Como o bem, também a amizade pode se dar: i) por utilidade e interesse comum; ii) por prazer e afeição, e iii) por bondade ou virtude em si mesma, sendo a última a mais elevada, cujo exemplo maior é o bem sem retribuição que a mãe deseja e faz por um filho. Os padres cristãos assumiram esta tradição e deram-lhe um referencial teológico cristão. Assim, Basílio e Gregório de Nazianzo, que cultivaram intensa amizade, colocam-na no quadro da teologia trinitária, sendo o amor (agápe) apropriado ao Pai, a amizade (philía) ao Filho e a comunhão (koinonía) ao Espírito Santo. Agostinho lembra a amizade como “uma alma em dois corpos”, quando sofreu a dramática perda de um amigo na adolescência, mas, refletindo sobre o facto, entende que só quem ama em Deus é verdadeiramente amigo e não perde nunca. Em Contra Academicos retoma quase literalmente Cícero, mas com linguagem cristã: “Amizade retamente e santamente definida é consenso sobre as coisas humanas e divinas com benevolência e caridade” (Martins, 2008, 4). O “bem querer”, a gratuidade, a partilha da fé e o humanismo são constitutivos da amizade. Em última instância, o modelo e clareza de amizade – philía – cristã está em João 15, 9-17: ao amá-los com o mesmo amor com que o Pai o ama, o mestre Jesus aphilía os discípulos, que passam assim à condição de amigos, ou seja, “afilhados”, pela partilha da intimidade desse amor divino, tornando-se também filhos do mesmo Pai. A maior prova desta amizade é a sua morte iminente, o dom da vida (da “alma”) pelos amigos, e o único pedido é que esta amizade – a alma, o amor e até a própria morte – seja passada adiante, virtualmente abraçando nessa mesma amizade toda a criatura.
Bibliog.: ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 2001; AVIZ, Darlan Aurélio de, Uma Alma em Dois Corpos: A Amizade Cristã como Processo de Humanização e Manifestação do Amor de Deus na Oração 43, 14-24 de São Gregório de Nazianzo, Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2017; MARTINS, Maria Manuela Brito, “Amicitia nostra vera ac sempiterna erit: As fontes da amizade espiritual em Agostinho de Hipona”, Revista Portuguesa de Filosofia, n.º 64, 2008, pp. 209-240; MATEOS, Juan e BARRETO, Juan, El Evangelio de Juan, Análisis Lingüístico y Comentario Exegético, Madrid, Cristiandad, 1979.
Luiz Carlos Susin