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Apatheia

Do grego ἀπάθεια (“ausência de paixão”, impassibilidade e tranquilidade da alma quando esta atinge o desprendimento perfeito e irrepreensível), conceito que exprime o ideal de liberdade interior do “sábio”, entendida como independência face a todas as perturbações geradas pelas paixões.

Próximo da “ataraxia” epicúria e da epoché cética, é com a escola estoica que este ideal assume um relevo central. Concretamente, para os estoicos antigos, a paixão é um impulso excessivo que deve ser entendido como uma distorção da razão, que assim é corrompida por influências negativas externas. A razão, assim afetada, deve ser reconduzida à sua retidão graças a uma terapia. Tratando-se de uma distorção semelhante a um estado patológico, e não de uma atitude natural, a paixão e os impulsos cegos devem ser, negativamente, eliminados e não apenas moderados. A apatia contribui para a realização do fim moral, que para os estoicos é a conformidade à natureza racional, certamente, porque esta representa a restauração da reta razão. Esta doutrina suscitou muitas reações, sobretudo no âmbito académico e peripatético, onde se preferiu seguir o ensino de Crantor de Soli, que recomendava a moderação da paixão, não excluindo a simpatia pelo sofredor de grandes dores. No estoicismo médio, abandonou-se o carácter excessivamente severo da apatia e criticou-se a analogia da afeção (pathos) com a doença. Já no neoestoicismo, Séneca prossegue esta linha, conservando o termo apatheia, mas esclarecendo, nas Cartas a Lucílio (9, 1-4), que isso não significa impatientia, ou seja, incapacidade de experimentar sentimentos agradáveis ou dolorosos, mas, positivamente, a capacidade de os dominar. Epicteto considera a apatia sinónimo de “ataraxia” ou controlo dos impulsos violentos e das representações, cuja avaliação errada é causa de paixões, mas deprecia-a como sinónimo de insensibilidade e falta de humanidade (Diatribe, III, 5, 8; III, 2, 4).

A importância conferida pelo estoicismo à apatia e ao papel que esta assume na prática da virtude teve grande influência no pensamento judaico-cristão e no neoplatonismo: para Filo de Alexandria, a apatia é um estado superior à moderação dos impulsos e é representada por Moisés (Legum Allegoriae, III, 101 e 132; De Vita Mosis, II, 59). Para Clemente Alexandrino (Stromata, II, 20, pp. 169 ss.; IV, 7, pp. 273 ss.; VI, 9, p. 468; VI, 13, p. 484) e para Orígenes (Contra Celsum, VIII, 8, 13-8; Commento al Vangelo di Matteo, XV, 17, 43), a apatia é a conquista da virtude cristã, que no entanto – e esta é uma diferença significativa face à tradição estoica – não assenta apenas nas forças do homem e da sua razão, mas necessita da ajuda divina, paradigma da impassibilidade perfeita – tópico de grande importância na espiritualidade. Segundo Plotino, a apatia é a liberdade do espírito imaterial de qualquer perturbação que derive do sensível (En., III, 6, 1-5; V, 9, 4, 10) e pode ser alcançada em sentido absoluto apenas quando a alma, separada do corpo, entra no reino do imaterial. Para Porfírio, a metriopatia é o grau mais baixo de ética, enquanto a apatia é a culminação reservada aos eleitos e aos filósofos (De Abstinentia, II, 34).

Sintomaticamente, os autores cristãos da tradição ocidental, em geral, dão-se conta do irrealismo da impassibilidade estoica (cf. Lactâncio, S. Jerónimo e S.to Agostinho), vincando a necessidade de uma luta contra as tentações que emanam das paixões, sobretudo as que arrastam a alma para o mal. Mas haverá paixões universalmente válidas que justifiquem a apatheia? E, quanto às boas paixões, não seria preferível usá-las para melhor chegarmos à virtude? Mais do que destruir todas as paixões, melhor será discerni-las à luz da razão, para manter e utilizar umas e aniquilar as outras. É nesta linha que S. Tomás de Aquino se posiciona. Para este autor, nem todas as paixões da alma são moralmente más (Sum. Theol., 1a 2ae, qu. 24, a. 2, ad 3), distinguindo a virtude da paixão (Id., qu. 59, a. 1) e examinando se a virtude moral pode existir independentemente da paixão (Sum. Theol., 1a 2a qu. 59, a. 5.). Donde se conclui que a apatia não é um estado tão desejável como os antigos defenderam, sendo que a paixão não é em si mesma má, apenas manifesta a atividade do nosso apetite sensível.

Com a modernidade, assiste-se a um certo deslocamento da apatheia. Por um lado, insiste-se na luta contra as paixões e na erradicação de todo o elemento afetivo do campo da moralidade (cf. Kant). Por outro, discute-se a quietude, uma virtude que, mantendo algum contacto com a apatia, é bem diferente da apatheia dos antigos.

Mais recentemente, a categoria da apatia é também usada para analisar o desencanto e o vazio espiritual da cultura pós-moderna e a urgência de restaurar um clima de serenidade e de equilíbrio.

 

Bibliog.: AA.VV., “Il concetto di pathos nella cultura antica”, Elenchos, 16, 1995; BARDY, G., “Apatheia”, in VILLER, M. et al. (dir.), Dictionnaire de Spiritualité Ascétique et Mystique, t. 1: Doctrine et Histoire, Paris, Beauchesne Editeur, 2004, pp. 727-746; BECCHI, F., “Plutarco tra platonismo e aristotelismo: La filosofia come ‘paideia’ dell’anima”, in Plutarco, Platón y Aristóteles: Actas del V Congreso Internacional de la I.P.S., Madrid, Ed. Clásicas, 1999, pp. 25-43; BRUNSCHWIG, J. e NUSSBAUM, M. (orgs.), Passions and Perceptions. Studies in Hellenistic Philosophy of Mind, Cambridge, Cambridge University Press, 1993; CASAGRANDE, C. e VECCHIO, S., Passioni dell’Anima. Teorie e Usi degli Affetti nella Cultura Medievale, Florence, SISMEL – Edizioni del Galluzzo, 2015; LAMMA, P. e ALESSE, F., “Apatia”, in MELCHIORRE, V. (dir.), Enciclopedia Filosofica, vol. 1, Milano, Bompiani/Fondazione Centro Studi Filosofici di Gallarate, 2006, pp. 551-552; MUCCI, sj, G., “Un effetto del Postmoderno: L’apatia per la bellezza”, La Civiltà Cattolica, n.º 3565, 1999, pp. 28-40; NUSSBAUM, M., “The Stoics on the Extirpation of the Passions”, Apeiron, 20, 1987, pp. 129-158; PETERS, F. E., Termos Filosóficos Gregos. Um Léxico Histórico, trad. BARBOSA, B. R., pref. PEREIRA, M. B., 2.ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1974; REALE, G., História da Filosofia Antiga, vol. iii: Os Sistemas da Era Helenística, trad. PERINE, M., São Paulo, Edições Loyola, 1994; SORABJI, R., Emotion and Peace of Mind, Oxford, Oxford University Press, 2000.

 

Carlos Bizarro Morais

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