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Arquétipo

Arquétipo (I)

Aquilo a que chamava Freud “resíduo arcaico”, Jung acurou, acrisolou e apodou, deveras, de “arquétipo”. “Arquétipo”, no senso platónico, é sinónimo de “ideia”. Ou melhor, é uma representação coletiva, encontra-se patente ou presente, sob a forma de símbolos, no repertório, preste e pronto, do inconsciente coletivo. Ele aparece, universalmente, nos sonhos, nos contos, nos mitos e nos delírios, é uma imagem, portanto, primordial. Jung, aqui, deu um passo mais além do que Freud: se a neurose, para este último, se assinalava e revelava sob a forma de sintoma, o arquivo arcaico, para Jung, são arquétipos, ideias ou símbolos em si. Fazendo a ponte, ou ligação, entre o individual e o coletivo, a vida de Cristo, a vida de Buda, os deuses, antigos, da Grécia e de Roma, são imagens, por isso, arquetípicas e míticas.

 

Bibliog.: DOUCET, Friedrich, A Psicanálise, Freud, Adler, Jung, Lisboa, Livros Unibolso, Editores Associados, 1972; MOUSSEAU, Jacques e MOREAU, Pierre, Dicionário do Inconsciente, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1984; RICHARD, Michael, A Psicologia e os Seus Domínios, vol. i, Lisboa, Moraes Editores, 1977; ROUDINESCO, Élisabeth e PLON, Michel, Dicionário de Psicanálise, Mem Martins, Editorial Inquérito, 2000.

 

Maria da Conceição Valdez Telles de Menezes

Paulo Jorge Brito e Abreu


 

Arquétipo (II)

Do grego, arkhétupos (-on), ou seja, “modelo primitivo” (arché – “antigo”, typos – “marca ou impressão”), e do latim, archetypum (-i), ou seja, “original”, “modelo”.

Figuração de um ideal primordial, o arquétipo é uma ideia imagética que pode ser reproduzida ou servir como paradigma. Ao arquétipo pode o ser humano aspirar, reproduzir e materializar. Platão, na teoria do conhecimento, considera que cada uma das formas ideais são, por sua vez, reproduzidas nos objetos do mundo sensível, mas são considerados imperfeitos porque não alcançam a sublimidade ou perfeição do ideal originário. Esta é uma ideia recorrente no neoplatonismo e evoca o posicionamento transcendental de um mundo original, permanente e imutável. A força desta ideia permeou o cristianismo e foi adotada por Agostinho de Hipona (S.to Agostinho), que descreve n’ A cidade de Deus um mundo dividido entre o espiritual e o mundo terreno.

No contexto da psicologia, este conceito reaparece com Carl Jung, que toma o arquétipo como uma imagem ancestral e simbólica do inconsciente coletivo, herança da humanidade revelada através de mitos e lendas da tradição oral e escrita dos povos, e que se manifesta no inconsciente individual através de sonhos, desejos, delírios e até através da arte.

A partir da noção e diferentes composições teóricas do conceito de arquétipo, numa perspetiva espiritual, a referência ancestral que tende a moldar a existência humana em papéis previamente definidos fundamenta-se numa dimensão transcendental e anterior. Esta ideia esvazia a vivência de uma individualidade não assente numa relação com o transcendente e com o divino, independentemente da sua identificação. É relevante, portanto, o recurso sistemático ao repositório de arquétipos fundamentais, que chegam aos dias de hoje através da arte, da filosofia, da história e das diversas expressões culturais.

Apesar da noção subjacente ao arquétipo ser uma noção de perfeição, nele coexistem também elementos complementares de natureza fundamentalmente contraditória, como seja a perpetuação de ideias que não encontram cabimento nos tempos atuais ou estereótipos hostis. Neste contexto, e numa perspetiva humanista, as sociedades e os indivíduos devem exercer uma leitura crítica e possuir uma consciência do erro. Apesar da imposição da modernidade, que acarreta por vezes a dissolução dos valores anteriores, o homem autonomiza-se e prossegue a sua busca de um ideal que assume proporções utópicas, criando uma imagem modelar de si no não-lugar em que se tornaram as redes virtuais.

 

Bibliog.: AGOSTINHO, Márcio Roberto, O arquétipo do sagrado, a religião e o sentido da vida em Carl Gustav Jung, Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, texto policopiado, 2006; BAUMAN, Zygmunt, Liquid Modernity, Cambridge, Polity Press, 2000; Id., The Individualized Society, Cambridge, Polity Press, 2001; BEATO, Sofia Cardetas, A pluralidade da “Terra Bíblica”: Construção e reconstrução de um arquétipo, Biblos, n.º 6 (3.ª Série), 2020, pp. 13-27; Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002; LAUGHLIN, Charles D. e de TIBERIA, Vicenza, Archetypes: Toward a Jungian Anthropology of Consciousness, Anthropology of Consciousness, vol. 23, n.º 2, 2012, pp. 127-157; MORA, José Ferrater, Dicionário de Filosofia, Lisboa, Círculo de Leitores, 1989.

Susana Queiroga

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