Etimologicamente, o termo astrologia refere-se ao estudo dos astros. A astrologia pode definir-se como ciência que investiga a ação dos corpos celestes sobre os corpos, sejam eles inanimados ou animados. Os astros, por sua vez, fazem parte de um macrocosmo que se espelha no microcosmo, produzindo correspondências quanto à sua natureza e possíveis tendências de reação. Entretanto, como palavra que perpassa tantas civilizações ao longo da história, a astrologia recebe novos atributos e definições, conforme o tempo e o lugar.
A astrologia é sobretudo uma narrativa que, com função cosmogónica, descreve também a maneira como uma civilização se relaciona com o mito da criação e a sua participação no tempo e no espaço. O céu, o intocável, exprime os anseios humanos, um encontro com o vazio que refletia o universo interior. Uma maneira de pertencer a algo maior, divino. No período medieval chegou a ser considerada uma das ciências mais nobres, abaixo apenas da teologia, pois ambas aspiravam a pesquisar as coisas próximas de Deus.
A astrologia, bem como a astronomia, desenvolve-se entre os povos da Mesopotâmia, da Índia, da China e do continente americano. O seu estudo partia da relação entre as comunidades, a agricultura, as estações e os astros. São inúmeras as diferenças entre os tipos de astrologia. Por exemplo, comparar a astrologia maia com a astrologia grega é o mesmo que comparar duas culturas completamente diferentes. Os seus símbolos, definições, cosmovisões e divisões quanto ao ciclo solar são totalmente distintos um do outro.
Ainda sobre o exemplo levantado anteriormente, na astrologia dos antigos povos americanos, chamados maias, os ciclos anuais são guiados pelas fases lunares, enquanto na astrologia grega o ciclo é solar. A astrologia indiana estabelece como marco o momento da conceção, entre o óvulo e o espermatozoide, para verificar a sua proximidade com os astros, diferente das restantes tradições mencionadas, que realizam o cálculo a partir da data de nascimento dos indivíduos. Os maias chamam de selos, ou kin, a identificação da ação dos astros nas pessoas, tendo um total de 260 kins. Já os gregos identificam tal ação como signo, e são de apenas 12 tipos; o que mais vai modificar a sua interpretação e trazer uma visão mais ampla sobre a ligação ao cosmo é a leitura do mapa astral. Para os maias, o kin é um semblante da alma, um código que acompanha os indivíduos por todas as suas vidas e em todas as dimensões do tempo e do espaço. Segundo os gregos, o mapa astral aponta para apenas uma vida específica, não sendo prolongada a outras vidas. Basta uma busca rápida na Internet, jornais e revistas para perceber que o tipo de astrologia mais disseminado mundialmente é o grego. Como tal, a maioria dos apontamentos que se seguem versam sobre ele.
O mapa astral é único e composto por vários aspetos que definem de maneira minuciosa características e tendências sobre o ser que está a ser analisado. Chama-se mapa, pois é uma estrutura que precisa de ser desvendada, não se resumindo unicamente à ação do signo solar. Mesmo que o astro Sol apresente forte influência na construção do microcosmo, o que é natural, uma vez que sem Sol não existiria vida, reduzir a leitura de um mapa astral exclusivamente à regência solar é invalidar o próprio conceito de astrologia, que compreende o macrocosmo como reflexo e como uno ao ser.
Desta maneira, um mapa astral terá sempre os mesmos símbolos, desenho e demarcações, mas a sua tradução pode variar conforme a leitura que o astrólogo faz. Como uma história a ser contada, o astrólogo precisa costurar os significados, para assim passar as informações. Basicamente, a história a ser contada é a história da vida de alguém.
Os ciclos astrológicos são períodos que podem variar de uma lunação até séculos. Eles falam dos eventos coletivos, sendo muitíssimo utilizados pelas sociedades primitivas. Através da observação do ciclo, é possível analisar o passado e o presente e, com isso, fazer previsões para o futuro. Para a maior parte dos povos, os cometas simbolizavam desejos dos deuses, ou ainda presságios para adversidades que viriam. Os eclipses eram vistos unanimemente como algo negativo, uma mensagem para demonstrar o malgrado das divindades quanto às ações humanas, ao aumento de atos considerados pecaminosos, que poderiam, além disso, acarretar intervenções agressivas por parte do divino, como guerras, inundações e tempestades.
É comum, na contemporaneidade, ligar a palavra astrologia à noção de oráculo, com a finalidade de identificar o futuro de um indivíduo, e pode-se apontar os famosos horóscopos dos jornais como possíveis responsáveis pela propagação dessa ideia. Entretanto, originalmente, as atribuições desta ciência estavam mais ligadas à vida de toda a sociedade e não eram uma forma direta de preleção de futuro, mas sim de gerar uma proximidade energética. A conexão da astrologia com a agricultura era tão forte em algumas civilizações, como a da Babilónia, que todo o plantio e colheita era orquestrado por sacerdotes que recebiam informações dos céus.
Ao alcançar o pensamento grego, principalmente o conceito levantado por Empédocles sobre os quatro elementos (terra, água, ar e fogo), a astrologia mesopotâmica recebe novos valores e associações. Os seus estudos relacionam-se com a matemática e a filosofia, e mais tarde, na Idade Média, irão desenvolver-se fortemente no âmbito da medicina, da alquimia e da magia. Nesta época, os tratados astrológicos foram vigorosamente espalhados na Península Ibérica, principalmente por muçulmanos e, posteriormente, traduzidos para o latim e o castelhano. O catolicismo, por outro lado, irá comparar a astrologia a uma arte diabólica, de origem pagã e pecaminosa. Ainda no primeiro século da Era Comum, na obra O Testamento de Salomão, encontra-se a denominação de demónios para as constelações e astros, o que corrobora o entendimento de que a astrologia foi cultivada por muitas das populações do período. S.to Agostinho foi um dos grandes influentes na formação de opiniões acerca da astrologia, dado que, inicialmente, as suas obras a defendiam, porém, uma situação que se desconhece da sua vida faz com que posteriormente o autor passe a abominar tal conhecimento, reportando a sua deceção para com o mesmo. Roger Bacon, séculos mais tarde, foi um dos poucos católicos a tecer elogios à astrologia, alegando que esta poderia auxiliar na expansão do cristianismo, contribuindo para a realização do autoconhecimento entre os fiéis.
Para fugir das acusações de heresia, o rei Afonso X de Castela criou novos conceitos sobre a astrologia, dividindo esta ciência em astrologia supersticiosa e astrologia judiciária. A primeira seria a sua versão pagã, pecaminosa, ligada a práticas mágicas e de interferência ao livre-arbítrio. Já a astrologia judiciária tratava da sua face nobre, elevada, que orientava a corte nas suas decisões, determinando apenas atos vividos em comunidade, como casamentos, acordos, construções e guerras. Mas foi com os trabalhos de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton que a astrologia começou a ser vista com bons olhos na sociedade europeia, perdendo, em parte, a aura de profanação que a envolvera ao longo dos séculos.
Os 12 signos do zodíaco representam as 12 constelações identificadas na Antiguidade, que que continuam a ter o mesmo nome, mas que já sofreram algumas alterações na sua formação e aparência. Para a astrologia, a contagem de 12 signos serve apenas para separar entre si os graus que formam o círculo zodiacal, comportando cada um dos signos 30 graus que compõem a totalidade de 360.
As constelações que compõem os 12 signos do zodíaco são: Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes; sendo Carneiro o signo que demarca o início do equinócio de primavera, Caranguejo o solstício de verão, Balança o equinócio de outono e Capricórnio o solstício de inverno.
São ainda divididos em quatro grupos identificados por cada um dos quatro elementos primordiais, aqui chamados de essências dos signos: Terra, Água, Ar e Fogo. Cada um dos elementos se expressa como um signo de ritmo fixo, cardinal ou mutável. Assim, os 12 signos zodiacais são as três manifestações de cada um dos quatro elementos.
Os signos cardinais relacionam-se com a força propulsora, é a ação, o início, a criação. Os de ritmo fixo associam-se ao não movimento, à contenção, a segurança, a manutenção e a preservação. Já os mutáveis, ao movimento, adaptação, fluidez e flexibilidade.
Um ciclo solar e de 13 luas passa por estes 12 períodos a cada ano, ou seja, descreve um circuito completo do Sol em torno da Terra. Estes ciclos demarcam as mudanças de estações e, logo, da vida como um todo, ao pensar nas marés, agricultura, procriação de animais e climas.
Touro, Virgem e Capricórnio são os signos do elemento Terra. Touro é um signo fixo, aquele que preserva e permanece. Virgem é o ritmo mutável, aquele que precisa de mover a matéria. Capricórnio é a terra cardinal, o conquistador, que busca realizar na matéria.
Carneiro, Leão e Sagitário são os signos do elemento Fogo. Carneiro é o fogo que vibra, é o ritmo cardinal e impulsionador. Leão é o fogo fixo, o centro, aquele que alimenta o calor e a sua ação, a vitalidade do ser. Sagitário é o fogo mutável, as chamas que brincam e se aventuram.
Gémeos, Balança e Aquário são os signos do elemento Ar. Gémeos é o ar mutável, aquele que se movimenta, que conduz, inclusivamente, os pensamentos. Balança é ar no ritmo cardinal, o intelecto, aquele que compartilha o ímpeto e equilibra o movimento. Aquário, o ar fixo, comprimido, estabelece a criatividade.
Caranguejo, Escorpião e Peixes são os signos do elemento Água. O ritmo cardinal é expresso por Caranguejo, o calmo rio que flui, gera a vida e as emoções. A água fixa é Escorpião, a água quente, profunda e intensa. E, por fim, Peixes, a água mutável, que como um mar em movimento representa as infinitas mutações do campo emocional.
Para compreender mais profundamente o que simbolizam os signos da astrologia grega, é aconselhável perceber a mitologia que está na sua origem. O funcionamento astrológico estabelece uma ponte direta com as figuras arquetípicas das deidades e dos seus mitos. Os 12 signos zodiacais correspondem, cada qual, a um astro. Inicialmente estes astros eram 7, mas posteriormente passaram a ser 12.
Os sete astros de origem são os mesmos que se encontram na maioria dos livros ocultistas clássicos, de autores como Eliphas Levi, Paracelso, Cornelius Agrippa, Francis Barrett e Papus. Conectam-se com os signos da seguinte forma: Leão, ao astro Sol, Caranguejo, à Lua, Balança e Touro a Vénus, Carneiro e Escorpião a Marte, Gémeos e Virgem a Mercúrio, Sagitário e Peixes a Júpiter e, por fim, Capricórnio e Aquário a Saturno.
Cada um destes astros, por sua vez, está relacionado com uma deidade, um mito e um conjunto de características do arquétipo. Sol é Apolo, Lua é Artemis, e os demais planetas recebem o nome da divindade a que se associam. Apolo, ou Febo, remete para signos ligados a clareza e iluminação. Artemis, ou Diana, dá a forma e instinto. Vénus, ou Afrodite, é a deusa do amor e da beleza. Mercúrio, ou Hermes, o senhor da comunicação e mistérios. Marte, ou Ares, é o deus da guerra e do trabalho. Júpiter, ou Zeus, é o pai da criação e da vitalidade. E Saturno, ou Cronos, constitui o aspeto destrutivo da criação, a interiorização.
No domínio da astrologia grega, constatam-se outras nomeações, atribuídas de acordo com o tipo de astrologia em causa. As mais comuns são: astrologia clássica, moderna, hermética e kármica. A astrologia clássica baseia-se nas obras realizadas até ao Renascimento e só considera os sete planetas já mencionados anteriormente. É dela que surgem várias ramificações, como a astrologia cabalística e a eletiva.
A astrologia moderna considera, além dos sete planetas originais, Urano, Neptuno, Plutão, Quíron, Lilith e outros asteroides menores. Alguns tipos de interpretações permitem distingui-la da clássica e, além disso, as suas análises incluem conhecimentos da psicologia analítica, do tarot, entre outros.
Já a astrologia hermética tem em consideração os textos mais antigos sobre astrologia, juntando aos seus achados os conhecimentos desenvolvidos no campo do hermetismo. Alguns chamam este tipo de astrologia de esotérica, por englobar outras áreas estudadas em ordens iniciáticas e antigas escolas de mistério, como a maçonaria e os rosacruz.
Por fim, a astrologia kármica explora as vidas passadas e procura entender como as energias planetárias interferem na missão, chamada de dharma, na vida presente. Baseia-se no conceito de reencarnação e explora de maneira superficial as escolhas tomadas pelo consulente e as suas consequências.
São muitos os pontos que integram a astrologia, seja ela grega, maia, chinesa, indiana, babilónica ou outra. Sendo claramente um assunto que necessita de um estudo bem mais profundo para a sua compreensão e que, simultaneamente, conduz o estudante a perscrutar as suas próprias ações e escolhas, oráculo ou não, a astrologia continua a ser uma ferramenta para o autoconhecimento.
Bibliog.: COSTA, R. da, “Olhando para estrelas, a fronteira imaginária final – Astronomia e Astrologia na Idade Média e a visão medieval do cosmo”, Dimensões, 14, 2002; VICENTE, R. F., “A prática astrológica na Península Ibérica durante a baixa Idade Média”, Revista Hydra: Revista Discente de História da UNIFESP, 4, 7, 2019, pp. 401-408; CASTRO, A. C. V., “Astrologia & narrativas do céu”, 9.º Interprogramas de Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, São Paulo, 22 e 23 de nov., 2013: https://casperlibero.edu.br/mestrado/interprogramas/textos-completos-2013 (acedido a 06.01.2022).
Natasha Martins