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Böhme, Jakob

Jakob Böhme  nasceu em 1574 ou 1575 (HESSAYON, 2014, 13) numa aldeia alemã próxima de Görlitz, Alt-Seidenberg (atual Stary Zawidów, na Polónia). Apesar de ter tido apenas uma educação básica e de, na sua infância e juventude, ter sido pastor e sapateiro, Böhme produziu uma obra vasta e multifacetada (debateu problemas de filosofia, teologia, astrologia, alquimia, mística, etc.) que influenciou profundamente a história do pensamento subsequente (UNDERHILL, 1955, 304), em particular o romantismo e o idealismo alemães (HESSAYON e APETREI, 2014, 8; Hannak, 2014).

A vida de Jakob Böhme foi marcada por várias experiências místicas, e numa dessas experiências, em 1600, foi-lhe dado a ver, segundo o relato do seu biógrafo Abraham von Franckenber (1593-1652), “o mais íntimo fundamento ou Centrum da Natureza escondida” [“Unterdessen […] wird er […] zu dem innersten Grunde oder Centro der geheimen Natur eingeführet”] (UEBERFELD, 1715, II, 7). Dois anos volvidos, Böhme põe por escrito a sua experiência religiosa e as suas primeiras reflexões, as quais viriam a ser publicadas com o título Aurora oder Morgenröte im Aufgang. Aurora e as obras seguintes focam, em especial, a natureza da Criação, a origem e presença do mal, o significado e as condições de possibilidade da salvação, a liberdade humana. Assim, e.g., Böhme sustenta que a queda corresponde a uma etapa necessária na evolução do universo (von INGEN, 1988, 517). As considerações de Böhme (cf., e.g., Vierzig Fragen von der Seelen, questão 4, §§ 1 e 6) reinterpretam a Trindade de tal modo que lhe acrescentam uma quarta “pessoa”, a Sophia, que corresponde grosso modo ao lado feminino da sabedoria divina. Segundo Böhme, a liberdade de cada ser humano consiste propriamente na descoberta da presença da eternidade (Ewigkeit) em si mesmo, ou melhor, na possibilidade – que cada ser humano tem – de se perceber não como alguém que deseja apenas de forma relativa, condicionada (A, B ou C), mas antes como alguém que, enquanto vontade, tem justamente uma intrínseca relação com a eternidade: “Em primeiro lugar, é a liberdade eterna, que tem a vontade e é ela própria a vontade. Ora, cada vontade tem a ânsia de fazer ou desejar algo, e nisso vê-se a si mesma: ela vê em si a eternidade que ela própria é; ela faz de si mesma o espelho de si e, então, contempla-se no que é: assim, ela encontra então nada mais do que si mesma, e deseja-se a si mesma” (Idem, q. 1, § 13).

Em Aurora, Böhme procura mostrar que os princípios do bem e do mal na natureza constituem como que uma “força ininterrupta” [“eine ewigwährende Kraft”] que provém de Deus. Por sua vez, em Der Weg in Christo, de 1624, Böhme defende a tese segundo a qual o Céu e o Inferno estão “presentes em toda a parte. É apenas uma oposição da vontade ou no amor de Deus ou na [sua] ira” [“Himmel und Hölle […] überall gegenwärtig. Es ist nur eine Einwendung des Willens entweder in Gottes Liebe oder in Zorn”].

Estas e outras perspetivas teológicas – que, de resto, surgem durante um debate particularmente aceso, numa época cunhada pela Reforma e Contrarreforma – não foram, em regra, bem acolhidas. Assim, pouco depois de Aurora se tornar pública, Böhme foi acusado de heresia e proibido de escrever e, mais tarde, viu-se mesmo obrigado a sair de Görlitz, tendo o seu pensamento e linguagem sido considerados um absurdo, um “caos cintilante” [“chaos étincelant”] (Boutroux, 1908, 214). Por outro lado, as suas obras acabaram por criar um movimento de seguidores (os chamados boehmistas) e Böhme foi de facto visto como um iluminado, um génio ou alguém que perscrutou a fundo os mistérios de Deus. Angelus Silesius exprime bem este ponto de vista, quando afirma que “[…] o coração de Deus é o elemento de Jakob Böhme” [“[…] Gottes Herz ist Jakob Böhme’s Element”].

Böhme morreu em 1624 na cidade de Görlitz. Depois de superada a resistência por parte de alguns opositores, foi-lhe concedido um enterro de acordo com preceitos cristãos.

 

Obras de Jakob Böhme: Vierzig Fragen von der Seelen (s.d.); Aurora oder Morgenröte im Aufgang (1612); Der Weg in Christo (1624);

 

Bibliog.: BÖHME, Jacob, Sämtliche Schriften, ed. Will-Erich Peuckert, 11 vols., Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1955-1989; Id.Die Urschriften, ed. Werner Buddecke, 2 vols., Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1963-1966; Boutroux, Émile, “Le philosophe allemand Jacob Boehme”, in Études d’Histoire de la Philosophie, 3.ª ed., Paris, Félix Alcan, 1908; GAUGER, Andreas, Jakob Böhme und das Wesen Seiner Mystik, 2.ª ed., Berlin, Weißensee-Verlag, 2000; Guerrier, Eric Kaija, Le Problème du Mal dans Une Métaphysique de l’Alchimie. Une Filiation Insolite entre Luther, Böhme et Schelling, Paris, L’Harmattan, 2013; HANNAK, Kristine, “Boehme and German Romanticism”, in HESSAYON, Ariel e APETREI, Sarah (eds.), An Introduction to Jacob Boehme. Four Centuries of Thought and Reception, New York, Routledge, 2014, pp. 162-179; HESSAYON, Ariel, “Boehme’s life and times”, in HESSAYON, Ariel e APETREI, Sarah (eds.), An Introduction to Jacob Boehme. Four Centuries of Thought and Reception, New York, Routledge, 2014, pp. 13-37; HESSAYON, Ariel e APETREI, Sarah (eds.), An Introduction to Jacob Boehme. Four Centuries of Thought and Reception, New York, Routledge, 2014; Koyré, Alexandre, La Philosophie de Jacob Boehme. Étude sur les Origines de la Métaphysique Allemande, 3.ª ed., Paris, J. Vrin, 1979; Ueberfeld, Johann Wilhelm (ed.), Theosophia Revelata. Das Ist: Alle Gottliche Schriften des Gottseligen und Hocherleuchteten Deutschen Theosophi Jacob Böhmens, 2 vols., Hamburg, s.n., 1715; Underhill, Evelyn, Mysticism: A Study in the Nature and Development of Man’s Spiritual Consciousness, 12.ª ed., New York, Noonday Press, 1955; Vivenza, Jean-Marc, Qui Suis-Je? Boehme, Grez-sur-Loing, Pardès, 2005; von INGEN, F., Jacob Böhme in Marienlexikon, St. Ottilien, Eos, 1988.

 

Samuel Oliveira

Autor

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