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Caverna, alegoria

No livro VII (514a-521b) de A República de Platão, a alegoria da caverna descreve a condição humana na situação cognitiva típica do senso comum, ou seja, pré-filosófica. Dentro da caverna, os prisioneiros acorrentados apenas podem olhar para a parede do fundo, onde fluem sombras e ecos de objetos projetados por um fogo aceso atrás deles: essa é a forma de conhecimento do mundo aparente, permitida pelos sentidos, que geram a mera opinião. Os prisioneiros acreditam que esse é o único mundo existente, até que um deles, o filósofo, libertando-se, sai da caverna e vê, usando a razão, os objetos reais do mundo (representando os objetos inteligíveis da ciência), acabando por levantar os olhos para o sol que os ilumina e os faz existir (representa a intuição da Ideia de Bem).

Estes níveis cognitivos e ontológicos da alegoria da caverna estão em correspondência com os graus do diagrama da linha, descrito no final do livro VI (509d-511e). Além desta ascensão espiritual, cognitiva e ontológica, a alegoria da caverna, possui também um significado ético, político e pedagógico, dado o imperativo do regresso à caverna do prisioneiro que se libertou, para revelar a verdade e os autênticos valores aos seus antigos companheiros, mesmo correndo o risco de não acreditarem nele e de não mais o tolerarem na sua comunidade.

A atmosfera de reorientação interior do olhar, por efeito da luz, em direção ao ser e à verdade que, ao nível do humano, dificilmente compreendemos, e que caracteriza a alegoria da caverna, teve forte repercussão na filosofia e espiritualidade, de que o tratado de Nicolau de Cusa, De docta ignorantia (1440) é excelente exemplo. Também em Simone Weil (1909-1943) se encontra uma permanente meditação sobre a conversão que aqui se preconiza, mediante a educação, ao mundo transcendente e absoluto.

 

Bibliog.: BARONE, F. e VEGETTI, M., “Caverna, Allegoria della”, in V. Melchiorre (dir), Enciclopedia Filosofica, vol. 2, Milano, Fondazione Centro Studi Filosofici di Gallarate/Bompiani, 2006, pp. 1789-1790; FERRARI, G. R. F. (ed.), The Cambridge Companion to Plato’s Republic, Cambridge, Cambridge University Press, 2007; JEANMART, G., “Le cycle de la vie humaine. Une relecture de trois mythes platoniciens”, Daimon – Revista Internacional de Filosofia, n.º 23, 2001, pp. 31-44; PLATÃO, A República, introdução, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2017; SILVA, C. ,“Caverna (Alegoria da)” in R. Cabral et al. (dir.), Logos: Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 1, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1989, cols. 920-933.

 

Carlos Bizarro Morais

Autor

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