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Conhecimento

O principal objeto de estudo da epistemologia é o conhecimento (do latim cognoscere). Este é pensado como a relação estabelecida entre o sujeito conhecedor e o objeto conhecido, sendo, por isso, constituído por três lados: o subjetivo (crença), o objetivo (verdade-realidade) e a relação (justificação). Daí, tradicionalmente, o conhecimento ser definido como uma crença verdadeira justificada (definição tripartida do conhecimento, teoria CVJ). Esta teoria   permaneceu praticamente indisputada (e.g., Platão é habitualmente identificado como o primeiro a formulá-la, continuando a ser expressa e defendida por autores contemporâneos como Chisholm e Ayer) até à publicação do artigo de Edmund Gettier (1927) “Is justified true belief knowledge?» (GETTIER, 1963). Por meio de dois contraexemplos, Gettier defende que a teoria CVJ é falsa, uma vez que é possível ter crença verdadeira justificada, mas não conhecimento; ou seja, a teoria CVJ reúne condições necessárias mas não suficientes para definir explicitamente o conhecimento.

Desde então, têm-se multiplicado os esforços por encontrar uma quarta condição capaz de responder às objeções de Gettier (problema de Gettier ou da quarta condição) ou uma reformulação da definição tradicional. Por exemplo, Keith Lehrer (1936) introduz a noção de irrevogabilidade ou de não derrotabilidade, passando o conhecimento a ser entendido enquanto crença verdadeira justificada irrevogavelmente. Por outro lado, Alvin Goldman (1938) reformula a teoria a partir da noção de nexo causal, apresentando o conhecimento como crença verdadeira apropriadamente causada. Outros autores seguiram diferentes caminhos, como é o caso de Linda Zagzebski (1946), que se centra nas virtudes intelectuais do sujeito como forma de alcançar o conhecimento. Timothy Williamson (1955) questiona o interesse, pertinência e viabilidade do problema da definição do conhecimento, por considerar que este é uma noção básica e irredutível a conceitos mais básicos. Nesse sentido, com base no lema “o conhecimento primeiro”, defende que as noções de crença, verdade e justificação são explicáveis a partir de conhecimento, mas não o inverso.

A resposta ao problema “o que é o conhecimento?” implica, antes de mais, considerarmos os diferentes tipos de conhecimento: contacto, prático e proposicional. A distinção entre eles é determinada pelo objeto do verbo “conhecer”. Assim, no primeiro, “conhecer” refere-se ao contacto direto, imediato e inquestionável com um objeto, e.g., por meio de sensações gustativas ou pelo contacto com uma pessoa ou uma cidade (RUSSELL, 1967). No segundo, o objeto do verbo “conhecer” refere-se a uma aptidão ou capacidade, sendo por isso designado por “conhecimento prático” ou “saber-como”, e.g., andar de bicicleta ou saber cozinhar (RYLE, 1951). No terceiro, “conhecer” refere-se a proposições e, por isso, designa-se “conhecimento proposicional”, “conhecimento teórico” ou “saber-que”. Neste caso, o sujeito conhece proposições (teorias, descrições), e.g., a Teoria Newtoniana, “o Bom Jesus fica em Braga” e “2+3=5” (RUSSELL, 1967). Os epistemólogos tendem a valorizar o conhecimento proposicional pelo facto de a proposição permitir representar a realidade e expressar o pensamento.

Existem vários modos de conhecer ou, mais genericamente, de obter o conhecimento e de aspirar à verdade. Alguns autores defendem a possibilidade do conhecimento inato, um conhecimento ou processos com os quais a pessoa já nasceu, pelo que conhecer nada mais é do que um processo de recordação ou de manifestação e desenvolvimento durante a vida (cf. PLATÃO, 1990; CHOMSKY, 1965).

A observação e a experiência empírica constituem um outro modo de conhecer. Pelo uso dos sentidos, o sujeito copia ou produz ideias que visam representar a realidade/verdade do mundo exterior à sua mente (conhecimento a posteriori). A teoria que valoriza os sentidos como principal fonte do conhecimento designa-se empirismo (cf. LOCKE, 1999). O racionalismo defende a razão enquanto fonte principal do conhecimento, valorizando o conhecimento a priori, ou seja, aquele que é obtido apenas pelo pensamento e não por observação (cf. DESCARTES, 1985).

A distinção a priori/a posteriori tem sido alvo de crítica (cf. QUINE, 1980). Autores como Immanuel Kant procuraram ultrapassar a dicotomia racionalismo-empirismo desenvolvendo uma proposta que combinasse pensamento e observação. Para além disso, Kant, juntamente com autores como David Hume, preocupou-se com a determinação dos limites do conhecimento humano (cf. KANT, 1989; HUME, 1999). O questionamento acerca da possibilidade e dos limites do conhecimento esteve sempre presente nas reflexões filosóficas. As dúvidas céticas funcionam simultaneamente como um questionar da viabilidade cognoscitiva e como uma oportunidade para desenvolver métodos, teorias e processos de justificação cognoscitivos melhores.

 

Bibliog.: AYER, Alfred J., O Problema do Conhecimento, Lisboa, Ulisseia, s.d; CHISHOLM, Roderick, Theory of Knowledge, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1989; CHOMSKY, Noam, Aspects of the Theory of Syntax, Cambridge, MIT Press, 1965; DESCARTES, René, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Almedina, 1985; GETTIER, Edmund, “Is justified true belief knowledge?”, Analysis, vol. 23, 1963, pp. 121-123; GOLDMAN, Alvin, “A causal theory of knowing”, The Journal of Philosophy, vol. 64, 1967, pp. 357-372; HUME, David, An Enquiry Concerning Human Understanding, Oxford, OUP, 1999; KANT, Immanuel, Crítica da Razão Pura, 2.ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989; LEHRER, Keith e PAXSON, Thomas, “Knowledge: Undefeated justified true belief”, The Journal Of Philosophy, vol. 66, 1969, pp. 225-237; LOCKE, John, Ensaio sobre o Entendimento Humano, 2 vols., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999; PLATÃO, A República, 6.ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990; Id., Teeteto, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005; QUINE, Willard V. O., “Two dogmas of empiricism”, From a Logical Point of View, 2.nd ed., Cambridge, Harvard University Press, 1980, pp. 20-46; RUSSELL, Bertrand, The Problems of Philosophy, London, OUP, 1967; RYLE, Gilbert, The Concept of Mind, New York, Hutchinson’s University Library, 1951; WILLIAMSON, Timothy, Knowledge and Its Limits, Oxford, OUP, 2000; ZAGZEBSKI, Linda, On Epistemology, Belmont, Wadsworth, 2009.

 

Artur Ilharco Galvão

 

Autor

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