Destaca-se, por um lado, na antropologia cristã, o valor atribuído à dimensão material do ser humano. Verifica-se, por outro lado, uma ambiguidade, oscilando a corporalidade entre a limitação e a possibilidade de transfiguração (e.g. IRENEU DE LIÃO, 1969, V, 3, 2; 1995, 11; TERTULIANO, 1980).
No platonismo, para que a alma possa pôr em prática toda a sua potência de conhecimento, é necessário separar-se do corpo (PLATÃO, 2000, 66d). Esta é também a perspetiva de Plotino: “Em se separando do corpo, ela [a alma] se recolhe nela mesma” (PLOTINO, 1982, I, 2, 5).
Pelo contrário, a ortodoxia cristã entende que o ser humano é um composto indissociável de corpo e alma, e será no corpo glorioso que se realizará na plenitude. Na certeza da incarnação e ressurreição corporal de Cristo se funda a tradição dos Padres da Igreja que afirma que o corpo humano participará na união transformante com o divino (ressurreição da carne), que, justamente, a união hipostática do Logos com a natureza humana, na incarnação, veio possibilitar. O corpo é, assim, dotado da capacidade de receber o divino porque Cristo se revestiu de matéria. Também o corpo será semelhante a Deus, juntamente com todas as outras faculdades humanas, isto é, o intelecto (νοῦς) e a razão (διάνοια). Para alguns pensadores da tradição bizantina (por exemplo, Orígenes, Basílio, Palamas), a própria matéria do corpo no percurso espiritual é passível de adquirir diferentes graus de “subtilidade”. É assim que explicam a elevação corporal de alguns santos, como Maria Egipcíaca e Elias.
Na contemporaneidade, o tema do corpo volta a ser objeto de reflexão no âmbito da teologia. Sob a designação de “Teologia do Corpo” foi compilada uma série de conferências proferidas por João Paulo II, entre os anos 1979 e 1984. Posteriormente, destaca-se o volume intitulado Le Corps Chemin de Dieu, que reúne artigos de vários especialistas que procuram contribuir para desconstruir a ideia de que o cristianismo despreza a corporalidade e entendem, antes, o corpo como “lugar teológico”. Portanto, uma tentativa de regresso à tradição dos Padres da Igreja, em cujos escritos se encontram já estas mesmas ideias. O conceito de “espiritualidade incorporalizada” tem vindo a ser desenvolvido sobretudo na área da psicologia. É dada ênfase ao corpo como microcosmos, como fonte de intuições espirituais, entre outros aspetos que pouco trazem de novo, mas que situam o tema na contemporaneidade.
Bibliog.: DUARTE, Paulo, “Corpo e carne”, La Civiltà Cattolica, n.º 1, 15, 2018, pp. 367-379; FERRER, Jorge N., Participation and the Mystery: Transpersonal Essays in Psychology, Education, and Religion, New York, State University of New York Press, 2017; GESCHÉ, Adolphe et SCOLAS, Paul, Le Corps Chemin de Dieu, Paris, Université Catholique de Louvain, Faculté de Théologie, Cerf 2005; IRENEU DE LIÃO, Adversus Haereses. Contre les Hérésies, livre v, tome i-ii, trad. de A. Rousseau et al., Paris, Sources Chrétiennes 152-153, Cerf, 1969; Id., Epideixis, Démonstration de la Prédication Apostolique, trad. de A. Rousseau, Paris, Sources Chrétiennes 406, Cerf, 1995; PLATÃO, Phaedo, Platonis Opera, t. i, ed. de I. Burnet, Oxonii, E Typographeo Academico, 1900-1907 (trad. portuguesa do Fédon por E. Gala), Lisboa, Guimarães Editores, 2000; PLOTINO, Plotini Opera Omnia, vol. i, ed. de G. F. Creuzer, Oxonii, E Typographeo Academico, 1835 (trad. castelhana de Eneadas I-II por J. Igal), Madrid, Editorial Gredos, 1982; JOÃO PAULO II, Teologia do Corpo. O Amor Humano no Plano Divino, Lisboa, Alêtheia Editores, 2013; TERTULIANO, De Ressurrectione Carnis. La Résurrection des Morts, texte traduit par Madeleine Moreau, introduction, analyse, notes par Jean-Pierre Mahé, Paris, Desclée de Brouwer 1980.
Patrícia Calvário