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Ente

Embora o termo ente seja gramaticalmente um substantivo, o seu sentido é verbal. De acordo com a nomenclatura da gramática latina, trata-se de um particípio presente, figura que desapareceu dos cânones gramaticais da língua portuguesa, mas deixou resquícios percetíveis em termos como “amante”, “falante”, “vidente”, etc. Assim, “ente”, particípio presente do verbo ser (em latim, respetivamente, ens e esse), significa aquilo que é, que existe. Suas origens, no entanto, estão na filosofia grega antiga, nomeadamente em Platão e Aristóteles (tò ón, “o ente”, particípio presente do infinitivo eînai, ser). Como conceito e objeto de experiência, ente é o que manifesta o ser e permite distinguir entre a vivência que todo o ser humano tem do mundo no qual está imerso (com tudo o que o integra) e a interrogação sobre a essência que faz um ente ser o que ou quem ele é. Os autores medievais, justamente na receção do pensamento platónico e aristotélico, conservaram o sentido do ente como manifestação, por um lado, da essência compartilhada com a sua espécie e, por outro, da “condição” de algo que é, que existe. Dessa perspetiva, muito se debateu sobre a conveniência de empregar o termo “ente” para se referir a Deus. Tomás de Aquino (1224-1275), por exemplo, é parcimonioso em tal emprego, pois considera que Deus, fonte do ser, não deve receber o mesmo tratamento dado aos outros entes, pois isso pressuporia que se tem conhecimento da essência divina ou do seu modo íntimo de ser, o qual, em rigor, só pode ser conhecido de modo indireto; disso decorre a analogia como única possibilidade de falar coerentemente sobre ele. Já Duns Escoto (1266-1308), ao enfatizar precisamente que Deus é fonte do ser, defendia a possibilidade de um discurso unívoco sobre Deus e as criaturas, ao menos no tocante ao compartilhamento do ser, fundamento para empregar o termo “ente” para se referir tanto a Deus como às criaturas. Na teologia e espiritualidade contemporâneas ainda se discute sobre essa conveniência, pois observa-se uma tendência para criticar a assim chamada excessiva helenização, metafísico-estática, da mensagem de fé, ao passo que, nas suas raízes bíblicas, a fé se apresenta com carácter mais existencial e dinâmico. Para alguns pensadores, seria mesmo necessário tratar Deus como o Outro que está além de tudo o que existe e que se revela numa relação de amor, não de inteleção. Para um autor como Emmanuel Levinas (1906-1995), por exemplo, ente é tudo o que tem autoconsciência mediante a atividade de representação, passando, necessariamente, pelo desejo da alteridade (e do Outro, em seu nível máximo). No seu dizer, o pensamento ocidental, em vez de pensar o ser (a “condição” de ser), concentrou-se no ente (substantivando o ser), o que terminou por enfraquecer o vínculo natural entre o mundo e Deus, intelectualizando a visão do ser divino e tomando-o por um ente supremo e distante.

 

Bibliog.: ARISTÓTELES, Metafísica, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa, Edições 70, 2021; BLANC, Pierre, La connaissance du singulier chez Thomas d’Aquin et Duns Scot, Friburgo, Éditions Universitaires Européennes, 2010; LEVINAS, Emmanuel, De outro modo que ser ou para lá da essência, trad. José Luiz Pérez e Lavínia Leal Pereira, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2011; PLATÃO, O sofista, trad. Henrique Murachco et al., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.

 

Juvenal Savian Filho

 

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