Poucas são as mitologias conhecidas que não possuam, a par dos seus deuses, os seus heróis exemplares ou semideuses. Entre eles, encontramos os que fundam a história dos homens, civilizadores de outrora, os revolucionários, muitas vezes promovidos a título póstumo. Nesse leque, encontramos os mártires, cantores, atores e desportistas, que apesar de seculares carregam uma aura que os distingue. É significativo que numa personagem individual se condensem simultaneamente uma ordem e uma contraordem, se resumam uma necessidade e um problema, um exemplo do que se afigura pensável e um modelo do impossível. Por conseguinte, os heróis épicos, tardios e modernos, encarnam, de certa forma, um exemplo de superação. Com efeito, Carlyle (2017) fala-nos do herói exemplar, enquanto divindade, profeta, poeta, líder religioso, homem de letras e rei. A experiência religiosa do cristão baseia-se na imitação de Jesus como modelo exemplar, na repetição litúrgica da vida, morte e ressurreição do Senhor. Numa leitura funcional dos mártires e dos santos cristãos, estes são sucessores dos deuses na qualidade de figura humana de exemplaridade. Concentra-se neles a procura do sentido religioso e espiritual, reinterpretado consoante os diferentes contextos epocais. Lidos em conformidade com os textos que deles falam, vida piedosa e santidade cristã, valores sob escrutínio dos instrumentos de análise sociológica e antropológica. A figura do herói da epopeia cristã surge como um elemento central da identificação da comunidade cristã, sendo os mesmos modelos de santidade. A sua vida de renúncia material e total dedicação ao próximo resumem parte do conceito associado. Um elenco vasto, tão abrangente quanto possível, sempre reatualizado de personagens territoriais, expõe a evolução de exemplos de santidade entre nós. Num universo paralelo, coexistem um número significativo de proto-santos e pessoas com fama de santidade, que, embora não sejam reconhecidos pela hagiografia científica, gozam de uma devoção popular. Noutras realidades religiosas, as figuras exemplares não são veneradas na mesma proporção, estando num patamar menos exuberante, sendo admiradas por um conjunto de virtudes. Não há um padrão prévio onde se insiram, mas reconhece-se o seu papel em determinado acontecimento ou acontecimentos, como são os casos de Moisés, Maomé, Buda, Confúcio, Lutero, por exemplo. Nos primeiros quatro casos, são meros enviados, mensageiros ou fundadores de uma religião ou filosofia, reconhecidos na região da Ásia Central, como meros profetas, em termos gerais.
Bibliog.: CALYLE, Thomas, On Heroes, Hero-Worship, and the Heroic in History, South Caroline, CreateSpace Independent Publishing Platform, 2017; ELIADE, Mircea, Aspectos do mito, Lisboa, Edições 70, 2000; ROMANO, Ruggiero, “Heróis”, in ROMANO, Ruggiero (dir.), Enciclopedia Einaudi, vol. 30: Religião – Rito, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1994, pp. 128-148; ROSA, Maria de Lurdes, “Hagiografia e Santidade”, in AZEVEDO, Carlos A. Moreira de (dir.) e JORGE, Ana Maria (ed. lit.), Dicionário de história religiosa de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 2000, pp. 326-358; TINCQ, Henri, “A expansão do extremismo religioso no mundo”, in DELUMEAU, Jean (ed.), As grandes religiões do mundo, 3.ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 2002, pp. 680-705.
Rogério Freitas