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Face humana

Muito antes de Emmanuel Lévinas ter chamado filosoficamente a atenção para le visage, o rosto, já a “face humana” assumia uma relevância fundamental em vários domínios da realidade antropológica. Ainda antes de a face humana surgir em imagens, encontram-se, mais do que “representações”, “apresentações” humanas muito antigas, sob o modo de materializações formais, de partes distintivas daquilo a que chamamos o corpo humano em formações rochosas cujas condições de preservação permitiram a sobrevivência de tais atos de apresentação. Talvez porque o rosto – e é precisamente isso que faz dele um rosto – apresenta um pormenor configurativo muito fino, muito difícil de manifestar pictograficamente, os seres humanos tenham optado por se apresentar através de outras suas partes distintivas mais fáceis de re-criar, como, e.g., profundamente significativa, a mão.

Como defende o filósofo Jean Brun (1990), entre a mão e o espírito há uma ligação profundíssima, funcionando ambos como cometades essenciais necessárias para a definição do que é o ser humano. A mão, neste sentido, terá sido a primeira face humana, manifestando não apenas a individualíssima mão do desenhador, que, assim, se apercebe de algo em que palpita ou em que habita já o sentido de se ser algo como uma pessoa, mas também, porque não vive atomicamente só, mas em humano grupo, aquilo que é a sua comum pertença a um mesmo grupo, grupo que para ele constitui “a humanidade”. A mão marcada a vazio pelos contornos do ocre soprado manifesta o pleno da humanidade como pessoa e como união de pessoas, pois todos têm mão, todos são mão.

Todavia, o paradigma da mão não basta como identificador da pessoa, exatamente por causa da falta de pormenor. É no rosto, mais ou menos subtilmente, que se encontra o pormenor que simboliza, porque encarna, aquilo que cria cada ser humano como propriamente pessoa: a sua comunidade – já dada na mão como forma paradigmática de humanidade comum –, com todos os outros (a sua especificidade), mas também a sua irredutível individualidade. Os traços próprios de cada face humana, mais próximos do paradigma quando se é mais novo e praxiologicamente indiferenciado (outros dirão “historicamente”), mais distantes do mesmo através do trabalho de escultor do movimento que constitui a vida de cada ser humano no seu mundo, são únicos e irrepetíveis (mesmo em gémeos univitelinos). Ora, é este burilado do movimento, que informa e constitui a vida de cada pessoa no seu ambiente, o que determina a forma da face, mas é esta forma única, não paradigmática a este nível, que simboliza, incarnada na pessoa, o irredutível ontológico da sua realidade própria. É este também, na sua linguagem própria, o sentido profundo das palavras de Lévinas. A face do outro não representa em mim o outro; ela é símbolo, na semelhança que reconheço em mim próprio, do absoluto da diferença ontológica própria do outro e que o constitui como algo de ontologicamente irredutível seja ao que for, tanto à matéria como a Deus. O rosto é o absolutamente objetivo ontológico do outro em manifestação. Sobre tal não tenho qualquer poder, salvo o poder de aniquilação, atualizado nos campos de extermínio, nazis e de outras denominações.

De facto, alargando o campo de reflexão, a face/rosto é o absoluto manifesto que constitui o próprio de cada ser humano como algo de ontologicamente irredutível. Esta irredutibilidade não significa qualquer forma mágica de indestrutibilidade, mas o sentido do ato que ergue cada ser humano como dom (divino, natural, dos pais) e como retrabalho sobre esse mesmo dom, quer por parte dos seus próprios atos, quer por parte dos atos de terceiros. A face, em cada seu momento de manifestação, é, assim, o fenómeno ontológico, onto-fenoménico, quer da essência concreta da pessoa, quer da sua substância, aqui sempre substância primeira, que põe em ato de ser isso que é ontologicamente irredutível em cada um dos seres humanos. A face é a manifestação objetiva da pessoa. Neste sentido, a face constitui um objeto sagrado para todos os que nela reconhecem o absoluto ontológico da pessoa que manifesta: das faces de Cristo, nos seus vários paradigmáticos momentos (das faces de uma imensidade de entidades sagradas com rosto e de outras cujo rosto é não ter rosto algum), à face do filho morto em combate, a objetividade ontológica manifestada no rosto sacraliza a matéria em que tal se presentifica. Deste modo, a face, no seu sentido mais profundo, apresenta o sentido sagrado de cada ser humano e, nele, da humanidade universal que constitui, humano ente a humano ente, com todos os outros. Não há ser humano sem face. Tal aplica-se mesmo a quem tenha perdido a face em sentido biofisionómico comum. Uma cara queimada com ácido não deixa de ser uma face, que manifesta a beleza remanescente deixada por um ato de negação do rosto, i.e., do ser humano que se agrediu. O que ficou dito sobre a face humana aplica-se, analogicamente, ao que se possa considerar a “face do divino”, quiçá de Deus entendido como Pessoa(s).

Sem face não há humanidade. De momento, a humanidade parece viver um movimento em que o rosto se metamorfoseia em bits de imaginária fotográfica ou de programa informático. Em cada momento da história da humanidade, o que cada ser humano foi espelhou-se no rosto que de si para si criou. Que espessura ontológica e que sacralidade tem a face da pantalha do telemóvel ou da televisão?

 

Bibliog.: BRUN Jean, A Mão e o Espírito, Lisboa, Edições 70, 1990; LEROI-GOURHAN, André, As Religiões da Pré-História, Lisboa, Edições 70, s.d.; Id., O Gesto e a Palavra, 2 vols., Lisboa, Edições 70, s.d.; LÉVINAS, Emmanuel, Éthique et Infini, Paris, Le Livre de Poche, 1982; Id., Humanismo do Outro Homem, Petrópolis, Vozes, 1993; Id., Ética e Infinito, trad. de João Gama, Lisboa, Edições 70, 2000; Id., De Deus Que Vem à Ideia, Petrópolis, Vozes, 2002.

 

Américo Pereira

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