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Filocalia

O sentido teológico habitual do termo “filocalia” é o amor do belo, proveniente da junção dos vocábulos gregos “φιλία” (philía) e “κάλλος” (kállos). Esta expressão será empregue também, no seio da Igreja de rito eslavónico, para designar um florilégio de textos. Basílio Magno e Gregório Nazianzeno atribuíram este termo à sua antologia, que reúne obras de Orígenes, compilada por volta do ano 360. Mas o vocábulo “filocalia” é sobretudo conhecido devido a uma coletânea de textos publicada inicialmente em Veneza, em 1782, seguindo-se Constantinopla, em 1861, e Atenas, em 1893 e 1900. No decorrer do séc. xx, surgiram outras edições gregas da Filocalia. A edição grega de 1982, publicada em Atenas, foi a edição de referência para a edição parcial da Filocalia em língua portuguesa publicada em 2017.

Dois teólogos gregos, Nicodemos do Monte Atos, o Hagiorita (1749-1809), e Macário, bispo de Corinto (1731-1805), estiveram na origem da Filocalia. Reuniram um conjunto de textos ascéticos e místicos redigidos do séc. iv ao séc. xv por autores da tradição bizantina. De entre os autores incluídos na Filocalia, contam-se os seguintes: Antão, o Grande; Evágrio, o Pôntico; Máximo, o Confessor; João Damasceno; Simeão, o Novo Teólogo; Nicetas Estetatos; Gregório Palamas; Simeão de Tessalónica; Gregório, o Sinaíta; Hesíquio de Batos; Marcos, o Asceta; Macário, o Egípcio; e outros mais. Devemos ainda acrescentar que João Cassiano, que escreveu em latim, também foi incluído nesta coletânea, visto que algumas das suas obras já tinham sido traduzidas para o grego durante o período bizantino.

Recordemos alguns elementos que nos permitem elucidar a génese da renovação da história helénica e ortodoxa. Em Veneza, residia uma numerosa comunidade ortodoxa ligada ao helenismo. A comunidade de origem helénica renascia das cinzas provocadas pela guerra da independência contra o Império Otomano (1821-1832). A atividade teológica concentrara-se durante vários séculos após a frustrada união florentina (1439) em detalhes que opunham a Ortodoxia à Igreja Católica Romana, como o Filioque, o problema dos ázimos, o purgatório, a beatitude dos santos e o primado do papa. A cultura bizantina vai soçobrar numa morte violenta sob o golpe turco. A partir do séc. xv, a comunidade ortodoxa grega que residia na região da lagoa de Veneza irá empreender o estabelecimento de um lugar perene para a sua comunidade de cerca de 4000 pessoas. As negociações da comunidade grega com a Sereníssima República de Veneza após a queda de Constantinopla (1453) foram árduas e tornaram-se efetivas a partir de 1456. Só no século seguinte começaram a construir a igreja de São Jorge dos Gregos, iniciada em 1539 e terminada em 1573. Este contexto será determinante para o renascimento espiritual da teologia monástica, o qual tornará possível a publicação da Filocalia dos Padres Népticos. As 15 tipografias gregas presentes em Veneza nessa época assumiram um papel relevante, porque tornaram possível a publicação de textos de escritores antigos, livros litúrgicos, patrísticos e livros religiosos em geral. Esta cidade era um dos raros lugares onde a Igreja Ortodoxa grega, de resto, em geral sob o domínio otomano, podia encontrar livros para a celebração do culto. Estas relações dos gregos sob o domínio da República Sereníssima com os monges do Monte Atos durarão até à queda da República de Veneza, em 1797.

No decorrer do séc. xviii, ocorre um renascimento da corrente hesicasta (do termo grego “hesíquia”, que significa quietude ou silêncio). Em 1743, é fundada uma escola eclesiástica no Monte Atos, perto do Mosteiro de Vatopedi, que prosperou, em particular durante o período em que foi dirigida pelo teólogo Cirilo Vulgaris (1716-1806). Neste ambiente, surgirá a partir de 1754, junto dos monges da comunidade de S.ta Ana, uma polémica a propósito da oração dos defuntos, em que os opositores contestavam a prática dessa oração no Domingo da Ressurreição. Estes vão ser designados como os Kolívados. Esta corrente desejava preservar a sua tradição numa certa oposição à influência ocidental.

No mundo eslavo, sobretudo russo, a Filocalia terá uma grande difusão. Paisij Veličkovskij (1722-1794), nascido em Poltava, na Ucrânia, venerado particularmente na Roménia e na Rússia, traduziu a Filocalia para a língua russa, publicando-a em São Petersburgo, em 1793, sob o nome de Dobrotolyoubié. A corrente espiritual manifestada pela vida e obra de Paisij irá ramificar-se, dirigindo-se, por um lado, para a Rússia e, por outro, enraizando-se em território romeno. Os discípulos russos levarão até ao coração da Rússia a corrente hesicasta, em particular ao Mosteiro de Optina, um dos centros espirituais desse país. Ali irão perpetuar a oração do coração. O bispo Teofânio, bispo de Tambov e mais tarde de Vladimir, mais conhecido como Teofânio, o Recluso (1815-1894), decide estabelecer a grande Filocalia russa, que será publicada em 1877. Alguns capítulos considerados mais teóricos não serão incluídos nessa edição. Na Roménia, após a morte de Paisij, até aos anos 1860, os seus monges constituem uma grande biblioteca patrística romena. Na Valáquia, outro principado romeno, também a tradição da oração do coração se enraizará.  Enquanto isso, em França, o P.e Jacques Paul Migne (1800-1875) dedica-se a construir a sua famosa Patrologia Latina e Grega, que terá, apesar das suas limitações científicas, uma enorme influência.

A Filocalia, mais do que uma coletânea de textos, revela uma tradição. Nela são coligidos textos ascéticos e místicos, baseados no antigo hábito monástico cultivado pelos anciãos, os quais se tornaram verdadeiros mestres na condução da batalha interior. O tema principal, sem ser exclusivo, é a oração do coração e a união da mente com Deus. Esta corrente surgiu junto dos Padres do Deserto do Egito e da Palestina, continuando depois entre os Padres do Mosteiro de Santa Catarina do Sinai e no seu entorno, e chegou, por fim, ao Monte Atos, no qual desabrocha a tradição hesicasta.

O trabalho interior que propõem estes textos é o de guiar os crentes, não só os monges, na experiência da união com Deus, a qual constitui o desejo e o anelo do fundo do coração. A descoberta pessoal suscita um desejo de Deus e um percurso que outros crentes já viveram e percorreram. Por esse motivo, os textos orientam o leitor para que siga, de forma segura e sem ilusões, pelas sendas daqueles que já fizeram a experiência de Deus que, com todo o seu amor, vem ao nosso encontro através do seu Filho feito homem. É por isso que Simeão, o Novo Teólogo (949-1022), se referiu, nas suas obras, à corrente dos santos, na qual cada um representa um desejo e todos juntos formam um caminho de santidade ininterrupta.

A partir de 1777, Macário de Corinto entrega a Nicodemos, para verificação, o manuscrito da Filocalia dos Santos Népticos (uma coletânea de textos patrísticos relativos à oração pura) e também o manuscrito do Evergetinos (uma coleção de textos monásticos reunidos pelo hieromonge bizantino de Constantinopla Paulo Evergetinos, que ali viveu no decorrer do séc. xi). Por seu turno, Atanásio de Paros exorta Nicodemos a intensificar as suas buscas no Monte Atos em vista da publicação das obras completas de Gregório Palamas, cuja edição não virá à luz nessa altura. Outras obras e iniciativas serão tomadas, demonstrando a amplitude manifestada por estes autores, com o desejo de tornar conhecidos os tesouros espirituais da tradição ortodoxa junto do povo grego. Também serão publicadas obras catequéticas ou apologéticas, assim como comentários da Sagrada Escritura e estudos hagiográficos. A abertura destes autores estende-se igualmente a autores ocidentais, como Lorenzo Scupoli, com o seu Combate Espiritual, e Inácio de Loyola, autor dos Exercícios Espirituais. O movimento impulsionado por Macário, Nicodemos e Atanásio possui igualmente uma dimensão litúrgica. De facto, a tradição hesicasta sempre tentou manter um equilíbrio entre as tendências da oração pura e a busca por uma vida sacramental autêntica. É nesse âmbito que a comunhão frequente se torna desejável.

Nesse contexto, no prólogo da Filocalia, Nicodemos sublinha o objetivo desta obra: suscitar, no coração dos cristãos, o desejo da oração contínua, tal como foi sugerido nos evangelhos e na Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses. A finalidade da obra é a de tornar evidente o primado da interioridade, i.e., a guarda do coração através da vigilância interior (nepsis). Por isso, nela se ensina que é necessário fazer convergir o intelecto na interioridade, na profundidade do coração, e invocar incessantemente o nome divino, concentrando-se no sentido das palavras da fórmula de oração para purificar a mente de qualquer imagem produzida pelo pensamento que vagueia. A Filocalia propõe como modelo de vida a experiência de oração dos Padres para um retorno aos valores cristãos da escatologia. E isso pode também ser considerado, no plano espiritual, uma resposta da parte da Ortodoxia em relação às ideias iluministas que se difundiam nos territórios gregos sob ocupação otomana, propagadas sobretudo por professores provenientes de Veneza e de Pádua. A Filocalia, alimentada, entre outras, pela teologia de Gregório Palamas, insiste ao mesmo tempo na aproximação negativa (apofática) ao mistério e na realidade da deificação, uma palavra que é utilizada seis vezes por Nicodemos na primeira página do seu prefácio. É, pois, um programa de vida e requer, além disso, o acompanhamento de um padre espiritual.

 

Bibliog.: CLÉMENT, Olivier (dir. e trad.), Philocalie des Pères Neptiques, Paris, DDB/J.-C. LATTÈS, 1995; D’ANTIGA, Renato, I Padri della Filocalia, Reggio-Emilia, Ed. San Lorenzo, 2022; GUILLOU, M.-L., “La renaissance spirituelle du xviiième siècle”, Istina, n.º 1, 1960, pp. 95-128; KAZHDAN, Alexandre P. (dir.), The Oxford Dictionary of Byzantium, 3 vols., New York/Oxford, Oxford University Press, 1991; UN MOINE DE L’ÉGLISE ORTHODOXE DE ROUMANIE, “L’avènement philocalique dans l’Orthodoxie roumaine”, Istina, n.º 3, 1958, pp. 295-328; Pequena Filocalia, seleção e organização dos textos por Fr. José Luís de Almeida Monteiro e Higumene Arsenij Sokolov, trad. do original grego por António José Dimas de Almeida, prefácio de José Luís de Almeida Monteiro, Prior Velho, Paulinas, 2017.

 

José Luís de Almeida Monteiro

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