Hesicasmo vem da palavra grega ¹suc…a, que significa “quietude”, “calma”, “paz”, “tranquilidade”, como forma de alcançar a união com Deus na contemplação. Significa e implica a paz exterior e, sobretudo, interior, isto é, a ausência de perturbação e preocupação motivada por preocupações, paixões ou “maus pensamentos, como meio de chegar a Deus. A ¹suc…a, que já fora recomendada pelos filósofos antigos como condição para a contemplação filosófica (Platão, República, VI, 496d; cf. Político, 307E), distingue-se, porém, da apathéia estoica ou da ataraxia do epicurismo, na medida em que não é um fim, mas meio para alcançar um fim maior: a união com Deus. É busca da verdadeira quietude: a paz de Deus. A anacorese (retiro, silêncio e solidão) por si só não fazem o hesicasta cristão. Este pratica a solidão e o silêncio por amor à oração e união a Deus. Por conseguinte, a hesychia cristã não pode assentar na misantropia ou fobia egoísta, como já advertiam os antigos Padres da Igreja (A Diogneto VI, 10; Orígenes, Homilias sobre Jeremias, 20, 8).
No contexto monástico, o hesicasmo consiste, genericamente, no caminho da vida contemplativa que busca a perfeição na união com Deus por meio da oração contínua, ciente de que este ideal só é alcançável pela hésichia interior e exterior. No fundo, a hésychia é uma via apofática de busca de Deus associada à solidão de espírito (monachos), eremitismo ou anacorese interior e exterior.
Nos Apotegmas dos Padres do Deserto a hésychia aparece como um meio de alcançar a salvação, através da unificação interior. Neste sentido, ela traduz uma corrente presente em todo o eremitismo cristão antigo que tomou como programa estas palavras dirigidas pelo Senhor a Arsénio: “Foge dos homens, guarda silêncio, e pacifica-te (feàge, sièpa, ¹sÚcaze)” (Arsénio, Apotegmas, 1-2; GUY, 1993, 124). Segundo Hausherr (1980), tranquilidade, silêncio, quietude; solidão e recolhimento (habitare secum), silêncio (¹suc…a) e atenção (prosoc») são as palavras-chave que melhor traduzem o ideal da hésichia.
Os defensores deste ideal puderam invocar alguns textos bíblicos, especialmente neotestamentários, para justificar esta opção de vida (cf. 1Ta 4, 11; 2Ts 3, 12; 1Tm 2, 2; 2Pd 3, 4).
Quietude, repouso, paz, exterior e sobretudo interior, como resultado da eliminação das paixões e preocupações; foco na oração e contemplação. Começa por ser uma preocupação comum da ascese monástica como condição da oração.
O hesicasmo e os hesicastas, em sentido estrito, são aqueles que se recolhem na solidão do deserto ou noutra forma de ermo, cultivando a anacorese, o silêncio e a oração incessante, sabendo que esta implica a vigilância ou “guarda do coração” (nÁyij), a sobriedade interna e atenção a si mesmo (prosoché), com vista à ausência de todos os cuidados terrenos (João Clímaco, Scala paradisi, XXVII; João Cassiano, Const. XIV, 9). Ascese do coração e da inteligência exercita-se através da ardente atenção e oração contínua.
O motivo já presente no monaquismo do séc. iv foi ganhando uma configuração própria no Egito, na Palestina e no Sinai. A história posterior do hesicasmo é marcada, primeiro, pelos grandes nomes da chamada escola sinaítica: João Clímaco (+c. 600), Hesíquio e Filoteu Sinaíta. Mais tarde, por Simeão, o Novo Teólogo (+1022), e Nicéforo, monges de Constantinopla. A Simeão, o Novo Teólogo, é atribuído o importante tratado Método da santa atenção e oração, redigido com o intuito de divulgar o método hesicasta. Em 963, o monge Atanásio de Trebizonda funda, segundo a regra de S. Basílio, o mosteiro do Monte Athos, que se tornará num dos centros do monaquismo ortodoxo e da tradição hesicasta. No séc. xiv, Gregório Sinaíta divulgou no Monte Atos a prática do método de oração hesicasta, nomeadamente através do opúsculo Sobre a hesychia e sobre a oração (PG 150, 1303-1312). No monaquismo bizantino, o hesicasmo encontrou um dos seus expoentes em Gregório de Palamas, monge do Monte Athos que está na génese de uma acesa disputa teológica entre os seus apoiantes e adversários (e.g. Barlaão).
No Ocidente, o hesicasmo propriamente dito só foi conhecido em tempos recentes, através das numerosas versões e dos Relatos de um peregrino russo e das traduções da Filocalia.
Bibliog.: GUY, J.-C. Les apophtegmes des Pères. Collection systématique, I, Paris, Cerf, 1993; HAUSHERR, Irénée, La méthode d’oraison hésychaste, Roma, Institutum Orientalium Studiorum, 1926; Id., Solitude et vie contemplative d’après l’hésychasme, Bregolles-en-Mauges, Abbaye de Bellefontaine, 1980; LELOUP, J.-Y., Escritos sobre o hesicasmo. Uma tradição contemplativa esquecida, Patrópolis, Vozes, 2004; MEYENDORF, J., Byzantine Hesychasme: Historical, Theological and Social Problems. Collected Studies, London, Variorum Reprints, 1974; MIQUEL, P., Lexique du Désert, Bregolles-en-Mauges, Abbaye de Bellefontaine 1986; Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual, Prior Velho, Paulinas, 2007; TOURAILLE, J., Philocalie des Pères neptiques, Paris, Desclée de Brouwer, 1995.
Isidro Lamelas
Hesicasmo (II)
O hesicasmo (Hesicasma, Hesíquia [do grego Hsucia, “quietismo”]) é uma via mística surgida nos primeiros séculos do cristianismo, em meios de ascetismo anacorético, que privilegia o louvor e a contemplação divinos através de práticas meditativas de interiorização em que o silenciamento da mente, a quietude de posturas corporais e a vocalização murmurada e repetida da invocação do nome de Jesus constituem a ambiência propícia para a comunicação pretendida com o Espírito, recebendo d’Ele, pelas energias que concede, a iluminação que liberta do peso das amarras da materialidade física, elevando o orante a patamares de dimensão ascética, de gozo espiritual, e à comunhão com Deus. Esta via foi-se aperfeiçoando em evolução permanente de métodos e transformou-se ao longo dos tempos. Nos primeiros séculos, o orante buscava a libertação da realidade visível pelo cultivo da virtude e a aquietação das paixões como forma de aceder à visão suprema de Deus. Nos séculos seguintes, a via enriqueceu-se pela aquisição de outros elementos de sentido simbólico-mistagógico e tornou-se uma forte corrente espiritualista.
Foram muitos os Padres da Igreja que, desde os primórdios (e, alguns, sob inspiração neoplatónica de filósofos em voga, como Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo), recomendavam o recolhimento interior como forma proveitosa de oração, inclusive como meio de aceder à luminosa presença divina, como sucedera no Tabor. Destacam-se os nomes de vários dos cultores e divulgadores desta prática orante, que passaram pelos mosteiros de Atos, do Sinai e do Egito e verteram as suas experiências místicas em forma escrita: Clemente de Alexandria; Orígenes; Gregório de Nissa; Evágrio Pôntico; Macário, o Metafrasta; Dionísio, o Areopagita; Marcos, o Asceta; João Clímaco; Máximo, o Confessor; Hesíquio de Batos, o Sinaíta; Simeão, o Novo Teólogo; Nicéforo, o Monge; Gregório, o Sinaíta; e Gregório de Palamas. Parte desse espólio, escrito em grego entre os sécs. iv e xv, foi recolhido na obra antológica Filocalia. Posteriormente, o aparecimento de uma outra obra – Relatos de Um Peregrino Russo – considerada joia do património ortodoxo russo, e que, a par da Bíblia, se refere à Filocalia como de incalculável proveito espiritual, veio também reforçar a sua difusão, inclusive no Ocidente.
Entre os sécs. xiii e xiv, o hesicasmo esteve no centro de uma forte polémica, em meios eclesiásticos bizantinos, a que se deu o nome de Controvérsia Hesicasta. O teólogo calabrês Barlaão (1290-1348) e, no seu seguimento, o teólogo bizantino Gregório Acindino (1300-1348) apodaram-no de “expressão de um novo panteísmo”, tornando-se seus detratores. Barlaão, inclusive, decidiu visitar Atos e contactar a realidade hesicasta, e, segundo ele, o rigor imposto pelos monges a si próprios conduzia-os a estados de fanatismo religioso que os deixavam à beira da demência. Posteriormente, rotularam-nos de “euquitas” e “massalianos” (denominações depreciativas de correntes do início do cristianismo que viviam em errância e de esmolas, recusando trabalhar, e que, sob a aparência de devotos, se entregavam à liberdade de costumes, fora da autoridade eclesiástica), e também de “umbilicalistas” (dado que os praticantes defendiam que a iluminação divina da alma se tornava visível para o monge que praticava a quietude perfeita, fixando o seu olhar nos centros subtis, sobretudo no umbigo). Acorreram em defesa dos hesicastas monges de renome que conheciam Atos e que seguiam esta já antiga corrente mística. Dentre eles, sobressaíram as figuras de S. Gregório, o Sinaíta, e S. Gregório de Palamas (defensores do valor teológico do hesicasmo e divulgadores da “Oração de Jesus”, ou “Oração do coração”, prática orante muito difundida). A Controvérsia, no entanto, apenas terminou depois de vários concílios que tiveram lugar em Constantinopla, entre 1341 e 1351, e em que Barlaão foi excomungado, tendo sido reconhecidas como ortodoxas as teses palamitas.
A “Oração do coração”, ponto central do hesicasmo, corresponde à oração de contemplação e esvaziamento, a kenosis dos místicos e santos da ortodoxia. O orante tem de se esforçar por interiorizar o que profere, e, à medida que se concentra, o seu intelecto, a pouco e pouco, vai-se unindo ao coração. Com essa união, o espírito adquire a capacidade de “habitar o coração” e a oração transforma-se em “oração do coração”, não se reproduzindo já pela elocução repetitiva, mas, calando a voz, essa cadência dos lábios transfere-se para a cadência cardíaca. Os lábios silenciam-se, mas, intimamente, o coração, à cadência das suas batidas, vai repetindo, sem desfalecimento, porque o ritmo cardíaco, pela sua própria natureza, é perene, estando desperto o intelecto reelabora e sublima essa experiência inefável da petição/louvor permanente. Uma das invocações mais comuns de que se socorrem os que usam este método é a simples enunciação do nome “Jesus”, ou então de uma forma mais completa: “Jesus, Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”. As posturas corporais também favorecem a concentração. Aconselha-se a ficar cabisbaixo, com o queixo apoiado no peito e os olhos fixos no coração. A esta postura chama-se “método hesicasta da oração”. As posturas, porém, não são um fim em si mesmo, nunca se descurando a humildade de reconhecer que os méritos da oração não dependem de qualquer técnica, por mais condicionadora ou motivadora que se julgue, pois o dom da graça divina não é forçada por mecanismos ou automatismos. Para os hesicastas, o cume da experiência mística é alcançar a visão da luz divina e incriada, na qual se manifesta a presença do Santo Espírito.
Bibliog.: BLUNT, John Henry (coord.), Dictionary of Sects, Heresies, Ecclesiastical Parties and Schools of Religious Thought, London/Oxford/Cambridge, Rivingtons, 1874; CAVALLO, Guglielmo (dir.), O Homem Bizantino, Lisboa, Editorial Presença, 1998; DELUMEAU, Jean, As Grandes Religiões do Mundo, 3.ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 2002; MIGNE, Jacques-Paul (coord.), Diccionario de las Herejias, Errores y Cismas: Obra Sacada em parte de los Santos Padres, de los Concilios y de las Historias Eclesiásticas y em parte Traducida de la Que bajo el Mismo Titulo […], Madrid, Imprenta de D. José Felix Palacios, 1850; MONTEIRO, José Luís de Almeida (coord.), Relatos de Um Peregrino Russo ao Seu Pai Espiritual, trad. FERREIRA, Maria Teresa, Prior Velho, Paulinas Editora, 2007; MONTEIRO, José Luís de Almeida e SOKOLOV, (Higumene) Arsenij (coords.), Pequena Filocalia, trad. ALMEIDA, António José Dimas de, Prior Velho, Paulinas Editora, 2017; SAROV, Serafim de, O Diálogo com Motovilov, trad., notas e introd. MONTEIRO, José Luís de Almeida, Prior Velho, Paulinas Editora, 2004; SCHLESINGER, Hugo e PORTO, Humberto, Líderes Religiosos da Humanidade, 2 vols., Edições Paulinas, São Paulo (Brasil), 1986; Id., Dicionário Enciclopédico das Religiões, 2 vols., Petrópolis, Vozes, 1995; SERRA, Martí Àvila i (introd., sel. e ed.), La Filocalia de los Padres Népticos, Palma de Maiorca, José J. de Olañeta, 2008.
Rui Costa Oliveira