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Hilemorfismo

Designa-se por hilemorfismo o resultado de uma síntese compósita entre matéria (hylê) e forma (morphe). Apesar de esse termo não comparecer grafado ad literam nos tratados de Aristóteles – encontrando-se a sua origem lexical reportada a uma vaga mas muito incerta construção terminológica oitocentista –, a ideia que se lhe associa reveste-se, todavia, de uma crucial importância para a sua filosofia. A base conceptual remete para a teoria da substância (ousia; hypokeimenon), à qual inerem três possibilidades constitutivas: matéria (hylê), forma (eidos ou morphe) ou composto (de ambas) (synolon) (ARISTOTLE, 1995b, VII, 3, 1029a 3-4; VIII, 3, 1043a 27-28; XII, 3, 1070a 9-12). Se a matéria é aquilo “de que” (ex hou) algo provém ou a partir do qual se produz algo (passível de uma determinação constitutiva), já a forma é aquilo que se apresenta ou já essencialmente determinado (to ti he on), ou, por isso mesmo, capaz também de facultar uma “figuração” (skhema), i.e., um contorno, um recorte, ao que materialmente se expõe.

É justamente no âmago da vinculação entre matéria e forma que o síolo (synolon) se constitui, possibilitando o nexo substancial em que assenta a individuação de cada ser (Id., Ibid., XII, 3, 1070a 12-13). Em termos práticos, porém, o hilemorfismo não releva apenas de uma especulação metafísica. No opus aristotelicum, o seu impacto antropológico projeta-se na imaginação como faculdade mediadora capaz de, em síntese unificante, coadunar tanto o polo da inteleção (fonte “da forma determinante” dos conceitos universais) como o da sensação (fonte da “matéria indeterminada” das perceções particulares), num circuito integrado que articula alma e corpo numa totalidade vivida (Id., 1995a, II, 1, 412a 20). Graças a essa articulação, a razão humana pode percorrer quer “verticalmente” o campo gnosiológico desde a perceção sensível até à apreensão inteligível (Id., Ibid., III, 432a, 3-7), quer “horizontalmente” o campo prático desde a apropriação moral da virtude até à estruturação prudencial da decisão, designadamente naquelas situações-limite críticas que, à semelhança da arte manufatural ou plástica para moldar a forma numa matéria, exigem, também elas, a “modelação” de uma apreensão formal (no tocante à universalidade da norma) numa compreensão material (no respeitante à particularidade da circunstância) (Id., 1995c, V, 10, 1137b 29-32).

O hilemorfismo foi historicamente absorvido, desde logo em ambiência neoplatónica, pela pena de Ibn Gabirol (Avicebron), e, já depois, em contexto medieval cristão (a partir de e com base num notório influxo escotista e tomista), teologicamente reutilizado, e.g., nas disputadas e complexas estabilizações doutrinais dos dogmas da ressurreição e da transubstanciação eucarística, sem que surpreendentemente nada o tivesse impedido de reemergir em teorizações filosóficas na ciência contemporânea, e.g., no contexto da mecânica quântica (cf. HEISENBERG, 1958, 41).

 

Bibliog.: ARISTOTLE, “De Anima”, in The Complete Works of Aristotle, ed. BARNES, Jonathan, 2 vols., Princeton, Princeton University Press, 1995a; Id., “Metaphysics”, in The Complete Works of Aristotle, ed. BARNES, Jonathan, 2 vols., Princeton, Princeton University Press, 1995b; Id., “Nicomachean Ethics”, in The Complete Works of Aristotle, ed. BARNES, Jonathan, 2 vols., Princeton, Princeton University Press, 1995c; BYNUM Caroline, “Resurrection, hylomorphism and abundantia: Scholastic debates in the thirteenth century”, in The Resurrection of the Body in Western Christianity: 200-1336, New York, Columbia University Press, 1995, pp. 229-278; DE HAAN, D. D., “Hylomorphism and the new mechanist philosophy in biology, neuroscience, and psychology”, in SIMPSON, W. et al. (eds.), Neo-Aristotelian Perspectives on Contemporary Science, New York, Routledge, 2017, pp. 293-326; DUBARLE D., “L’idée hylémorphiste d’Aristote et la compréhension de l’univers”, Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques, vol. 36, n.º 2, 1952, pp. 205-230; HEISENBERG, Werner, Physics and Philosophy, London, Allen and Unwin, 1958; JAWORSKI, W., Structure and the Metaphysics of Mind: How Hylomorphism Solves the Mind-Problem, Oxford, Oxford University Press, 2016; JOHNSTON, M., “Hylomorphism”, Journal of Philosophy, n.º 103, 2006, pp. 652-698; KOONS, R., “Staunch vs. faint-hearted hylomorphism: Toward an Aristotelian account of composition”, Res Philosophica, n.º 9, 2014, pp. 151-177; MANNING, Gideon, “The history of hylomorphism”, Journal of the History of Ideas, vol. 74, n.º 2, 2013, pp. 173-187; MARMODORON, A., “Aristotelian hylomorphism without reconditioning”, Philosophical Inquiry, n.º 36, 2013, pp. 5-22; WILLIAMS, B., “Hylomorphism”, in The Sense of the Past: Essays in the History of Philosophy, Princeton, Princeton University Press, 2006, pp. 218-228.

 

António Amaral

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