O termo “hipocrisia” vem do grego “ypokritís” (υποκριτής) e do latim “hypocrisis”, relacionando-se com a máscara usada pelos autores de teatro. Daí a sua conotação com o disfarce e a ocultação. A máscara é uma aparência que permite o desempenho de diferentes papéis. O hipócrita é alguém que aparenta ser algo que na realidade não é. Permite-se aconselhar os outros, exigindo deles comportamentos que não segue.
É um conceito conotado negativamente no plano ético e, como tal, tem sido objeto de críticas. Uma das mais violentas surge no Novo Testamento, no Evangelho de S. Mateus (23, 1-34). É uma longa diatribe em que Cristo denuncia a hipocrisia dos fariseus. Apelida-os de “serpentes” e de “raça de víboras”, fazendo o levantamento de todos os malefícios provocados pela dissimulação da sua conduta.
A hipocrisia também despertou a atenção dos filósofos. A filosofia moderna é um terreno fértil onde podemos procurar perspetivas interessantes sobre as paixões humanas. Descartes, Espinosa, Pascal, Leibniz, Locke, La Rochefoucauld, Hume, Kant, Nietzsche e muitos outros analisaram a condição humana e as suas paixões, dedicando-se, alguns deles, especificamente à hipocrisia. Elegemos Pascal como representativo, não devido à extensão do que escreveu sobre este conceito, mas pelo facto de ter conseguido fazê-lo de um modo acutilante e sempre atual. Enquanto fino analista da condição humana, o filósofo francês debruçou-se sobre a hipocrisia no seu livro Pensamentos, considerando-a uma característica decorrente do amor próprio, ao qual dedica um longo fragmento (PASCAL, Pensamentos, 978 L [100 B]). Segundo Pascal, os homens têm consciência das suas imperfeições e verificam que elas provocam nos outros aversão e desprezo. Por isso, desenvolvem todos os esforços possíveis para encobrir esse estado de coisas. O olhar dos outros define-nos e fragiliza-nos. É uma situação que deveria ser encarada positivamente, porque nos torna conscientes das nossas limitações, mas, na verdade, incomoda-nos e entristece-nos. É raro termos de nós mesmos uma visão objetiva. Consequentemente, preferimos o olhar lisonjeiro de quem encobre as nossas vulnerabilidades. Pascal é perentório quando afirma “odiamos a verdade e aqueles que no-la dizem”. Por isso, acolhemos bem aqueles que se enganam a nosso favor e detestamos toda a espécie de críticas. Evitamos aqueles que nos dizem a verdade porque esta nos é profundamente desagradável. Esquecemos que é do nosso próprio interesse ouvi-la. As consequências deste estado de coisas levam-nos a preferir viver numa ilusão. Para manter amizades, enganamo-nos uns aos outros e evitamos desagradar. A hipocrisia faz parte da condição humana. Daí a conclusão, pouco lisonjeira, do citado fragmento: “L’homme n’est donc que déguisement, que mensonge et hypocrisie, et en soi même et à l’égard des autres. Il ne veut donc pas qu’on lui dise la vérité. Il évite de la dire aux autres; et toutes ses dispositions, si éloignées de la justice et de la raison, ont une racine naturelle dans son cœur [O homem não é senão disfarce, senão mentira e hipocrisia, seja para consigo mesmo seja para com os outros. Não quer que lhe digam a verdade. Evita dizê-la aos outros; e todas estas suas disposições, tão afastadas da justiça e da razão, têm no seu coração uma raiz natural]” (Id., Ibid.).
Trata-se de um texto que, embora escrito no séc. xvii, se mantém perfeitamente ajustado.
Bibliog.: LA ROCHEFOUCAULD, François de, Les Maximes, Paris, Flammarion, 1864; PASCAL, Pensées, Paris, Seuil, 1962.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira