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Imanência

Entende-se por imanência a presença da Divindade, da Vida, do Ser, do Espírito no mundo manifestado e em tudo quanto nele existe ou, pelo menos, nos entes animados.

Nas espiritualidades do Oriente, a imanência de teor panteísta é predominante, desde as sublimes conceções das Upanixades ou do Dao De Jing até formas vulgares de animismo.

O mesmo sucedia no Ocidente, tanto em notáveis filósofos da Antiguidade, de pendor não-dualista, com exemplo maior em Plotino, quanto em cultos mistéricos, como no naturalismo pagão, erudito, ou popular, em que a pluralidade de deuses e númenes aludia à imanência de uma divindade cósmica inexpressável.

Nas religiões abraâmicas, dá-se o oposto. Há exceções, claro: algumas formulações da Cabala, no Judaísmo, ou o Sufismo, no Islão. Quanto ao cristianismo, as teologias predominantes sempre rejeitaram ou olharam com desconfiança tendências panteístas, vistas como profanações da singularidade incomparável de Deus e como pondo em causa a sua liberdade e a sua natureza pessoal. É maiormente afirmada a transcendência divina.

No entanto, a relevância da imanência está presente entre muitos cristãos marcantes na sua vivência e na própria teologia. Entre muitos exemplos, ressoam as palavras do apóstolo Paulo sobre Deus: “É n’Ele que vivemos, nos movemos e temos o nosso ser” (At 17, 28). De S.to Agostinho é a formosa exclamação: Et multum laboravi quarens Te extra me, et Tu habitas in me. O Cântico das Criaturas e outras palavras e atos de S. Francisco de Assis não só relevam o amor que abraça toda a Criação, mas que a valoriza em todos os seres. Mestre Eckart – às vezes comparado a Śaṅkarā, mestre do Vedanta que identifica Brahman e Ātman – proclamou: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo, o fundo de Deus”. Na segunda década do séc. xxi, o Papa Francisco refere-se à sacralidade de tudo quanto existe.

Até o proémio do Evangelho segundo S. João – que talvez ecoe a noção de Deus primeiro (transcendente) e segundo (o Verbo, a Sabedoria que cria e ordena o mundo), desenvolvida por Fílon, o judeu platónico – poderá revelar um profundo e adicional sentido no seu final: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, não apenas em Cristo, mas, de algum modo também em tudo quanto é.

 

Bibliog.: ANACLETO, José Manuel, Ideias Essenciais de Pietro Ubaldi, Lisboa, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2020; ECKART, Mestre, O Livro da Divina Consolação, 5.ª ed., Bragança Paulista, Editora Universitária São Francisco, 2005; SCHARFSTEIN, Ben-Ami, A Comparative History of World Philosophy, Albany, University of New York Press, 1998.

 

José Manuel Anacleto

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