O termo “kantismo” refere-se ao sistema filosófico inaugurado por Immanuel Kant (1724-1804) e por outros seguidores ou adeptos, filósofos que de uma maneira ou de outra perseguiram as ideias do idealismo transcendental e do criticismo de Kant.
O kantismo está também muito associado ao Iluminismo, à ilustração das Luzes e à urgência de colocar a razão em tribunal, no sentido de ver quais são as suas possibilidades e limites. Assim, o kantismo é também uma atitude de reflexão filosófica que se propõe uma clarificação racional da vida humana e do mundo. Este desejo de clarificação que o kantismo trouxe à filosofia do séc. xviii, e até aos nossos dias, é absolutamente necessário, cumprindo de resto os objetivos de uma razão que já existia desde a Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios (1751-1772), de Diderot e de D’Alembert. A Crítica da Razão Pura só foi publicada em 1781 e propunha-se criar um sistema filosófico baseado na profunda crítica da razão, face à tradição quer dogmática-racionalista, quer positivismo-empirista e ao irracionalismo. Assim, o kantismo e os seus seguidores sempre tiveram como tarefa fundamental submeter a razão a julgamento. Aliás, esta tarefa iniciada por Kant teve uma importância de tal ordem na história da filosofia que só a partir dela é possível determinar o sentido e o alcance da figura de Kant como teórico do conhecimento e como filósofo da ciência e da moral.
Enquanto movimento filosófico, o kantismo assume-se igualmente como uma exigência de a razão se superar a si própria, de se dar a si própria à lei, de ser autónoma de forma livre sem estar sujeita a outros preceitos que não aqueles ditados pela razão. O kantismo teve, por isso, repercussões enormes em toda a filosofia, de tal maneira que podemos dizer que há uma filosofia ante e depois de Kant, ao nível gnosiológico, epistemológico, ético-moral, político, religioso e estético e do próprio idealismo alemão. Tanto na Alemanha e na França como nos países anglo-saxónicos, a influência do kantismo fez-se sentir com toda a sua força. Embora nem sempre tenha sido acolhida de forma simpática, esta corrente representa de facto um contributo poderosíssimo para toda a filosofia que se lhe seguiu, libertando-a, contudo, de algumas das sua aporias e dualismos.
O kantismo exige, pois, que o ser humano se imponha a si mesmo esclarecer-se acerca do que é e acerca dos seus fins, limites e interesses. Para Kant, a filosofia é a ciência que reúne e relaciona todo o conhecimento com os fins essenciais do Homem, i.e., todo o conhecimento deve estar ao serviço e na promoção dos fins últimos da razão, portanto, ao serviço da humanidade, para que esta seja mais livre, mais justa, mais orientada para a realização dos fins últimos do Homem. É esta herança do kantismo que irá levar autores como Leonardo Coimbra, Norberto Bobbio, Paul Ricoeur, Alexandre Fradique Morujão, John Rawls, Karl-Otto Apel, Alexandre Philonenko, Alfredo Dinis, Alain Renaut, António Marques, Viriato Soromenho Marques ou Jürgen Habermas, entre tantos outros, a sentirem-se atraídos pelos seus ideias de justiça, liberdade, igualdade e solidariedade. Ainda hoje sentimos a necessidade de voltar a Kant e ao kantismo e às suas intuições fundamentais. A necessidade de cumprir o dever kantiano, de voltar aos valores autenticamente humanos e espirituais, como o bem comum, de olhar para o ser humano como um valor intrínseco que nunca poderá ser usado unicamente em virtude da sua maior ou menor utilidade.
Bibliog.: COSTA, António Martins da, O Pensamento Filosófico Português Contemporâneo: A Receção de Kant em Leonardo Coimbra, Porto, Universidade Católica Portuguesa Editora, 2012; Id., A Reescrita Rawlsiana da Filosofia Política de Kant, Maia, Cosmorama, 2013; COSTA, António Martins da e BATISTA, Ricardo Barroso (coords.), Ética e Política Contemporânea. Ressonâncias Kantianas, vol. 75, n.º 1, Braga, RPF, 2019; GAMBRA, Rafael, Pequena História da Filosofia, Porto, Livraria Tavares Martins, 1970; Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 3, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1991; NAVARRO CORDON, Juan Manuel e CALVO MARTÍNEZ, Tomas, História da Filosofia, vol. ii, Lisboa, Edições 70, 1986; RUSSEL, Bertrand, História da Filosofia Ocidental, vol. 3, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977; VANCOURT, Raymond, Kant, Lisboa, Edições 70, 1986.
António Martins da Costa