Médium, literalmente, é o meio (ou o canal) através do qual a comunicação se estabelece com outras dimensões ou planos da realidade não física. Neste caso, seriam os próprios indivíduos que possuem capacidade mediúnica, ou médiuns, a assegurar a relação – ou intermediação – com a dimensão extrafísica, não sendo a comunicação estabelecida o resultado da mente do médium, o que pressupõe a capacidade de comunicação com entidades espirituais ou espíritos desencarnados presentes numa dimensão localizada fora do plano físico, admitindo-se assim a existência de uma realidade não material (TAYLOR, 2018). Habitualmente, reconhecem-se diferentes tipos ou manifestações de mediunidade, diferenciadas de acordo com o atributo dominante, contando-se entre os mais comuns a clariaudiência (audição), a clarividência (visão) e a psicografia (escrita).
Encontramos em várias tradições espalhadas por todo o planeta alusões mais ou menos explícitas a este contacto com os espíritos, sendo que as figuras típicas que o asseguram fazem parte do imaginário coletivo em diferentes contextos e épocas, dos oráculos aos videntes, passando pelos xamãs e pelos feiticeiros. No entanto, a mediunidade pode ser entendida também como uma característica comum, não especializada, presente em diferentes indivíduos de forma mais ou menos evidente e consciente, podendo, como tal, ser reconhecida e cultivada pelos próprios ou ignorada e mesmo reprimida, quando associada a algum tipo de perturbação. Na verdade, desde os seus primórdios que a psicologia se debruça sobre esta questão, oscilando as suas abordagens entre a patologização das manifestações mediúnicas e o reconhecimento das mesmas como parte do funcionamento psíquico normal dos indivíduos (MOREIRA e NETO, 2004). No entanto, as áreas da saúde mental tendem habitualmente a não possuir categorias para integrar este tipo de experiências. A principal exceção encontra-se nas abordagens de cariz transpessoal, que reconhecem a importância dos fenómenos de natureza “espiritual”, como acontece nos casos das chamadas “emergências espirituais” (GROF e GROF, 1989) ou dos relatos de “experiências de quase-morte” (TAYLOR, 2018), em que aspetos relacionados com o contacto com dimensões da realidade extrafísica são considerados.
No seu sentido coletivo, a mediunidade pode ser enquadrada em práticas religiosas e espirituais, integradas em diferentes cultos e religiões organizadas. Do espiritismo de influência Kardecista (KARDEC, 2011) – que emergiu em França no final do séc. xix – ao espiritualismo anglo-americano – que surgiu nos Estados Unidos também na mesma época e se propagou pela Europa (BUCKLAND, 1995) –, passando pelos cultos das religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé (SARAIVA, 2011), são vários os contextos em que as experiências mediúnicas podem ser entendidas de forma coletiva, promovendo determinadas práticas e identidades à volta das mesmas. Estes são contextos em que a mediunidade é praticada em grupo e, por isso, socialmente valorizada pelos diferentes participantes. Práticas como o transe mediúnico ou a incorporação – que implicam não só o contacto com os espíritos, mas igualmente a disponibilização dos médiuns para os “receber”, tornando assim possível a sua manifestação – podem adquirir um cunho não apenas espiritual, mas também terapêutico (SARAIVA, 2010).
Este último aspeto é comum, noutros contextos, a práticas mediúnicas desenvolvidas no âmbito do que podemos designar como “novas espiritualidades”, onde podemos incluir a chamada new age (SUTCLIFFE e GILHUS, 2014): das leituras de tarot à utilização de pêndulos, leituras de aura ou curas energéticas diversificadas, várias são as práticas em que os atributos mediúnicos se encontram presentes de um modo mais ou menos óbvio. Esta utilização pode ser desenvolvida por praticantes (adeptos ou iniciados) pertencentes a diferentes tradições (como o neoxamanismo, a wicca, o druidismo, etc.) ou desenvolvida individualmente. A categoria new age é, contudo, demasiado ampla para poder ser utilizada sem ambiguidade, englobando um conjunto diversificado de práticas, terapias e situações em que a mediunidade – mesmo quando a expressão não é empregue – é mobilizada como recurso pelos respetivos praticantes.
Bibliog.: ALMEIDA, Alexander Moreira de e NETO, Francisco Lotufo, “A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental”, Archives of Clinical Psychiatry, vol. 31, n.º 3, 2004, pp. 132-141; BUCKLAND, Raymond, Portas para Outros Mundos, Lisboa, Editorial Estampa, 1995; GROF, Stanislav e GROF, Christina, “Spiritual emergency: Understanding evolutionary crisis”, in GROF, Stanislav e GROF, Christina (eds.), Spiritual Emergency: When Personal Transformation Becomes a Crisis, Los Angeles, Jeremy Tarcher, 19089, pp. 1-26; KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, Brasília, Federação Espírita Brasileira, 2011; SARAIVA, Clara, “Afro-Brazilian religions in Portugal: Bruxos, priests and pais de santo”, Etnográfica, vol. 14, n.º 2, 2010, pp. 265-288; SARAIVA, M. C., “Energias e curas: A Umbanda em Portugal”, Revista Pós Ciências Sociais, vol. 8, n.º 16, 2011, pp. 55-76; SUTCLIFFE, Steven J. e GILHUS, Ingvild S., “Introduction: ‘All mixed up’ – Thinking about religion in relation to New Age spiritualities”, in SUTCLIFFE, S. e GILHUS, I. (eds.), New Age Spirituality: Rethinking Religion, London/New York, Routledge, 2014; TAYLOR, Steve, Spiritual Science. Why Science Needs Spirituality to Make Sense of the World, London, Watkins, 2018.
José Simões