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Melancolia

A melancolia, ou bílis negra (μέλαγχολία ou μέλαινα χολή), é um dos quatro humores identificados pela medicina antiga, a par do sangue, da fleuma e da bílis amarela (cólera). Para Hipócrates (460 a.C.-375 a.C.), o desajustamento na quantidade de bílis negra conduz a um estado ou a uma condição (doença) a que chama “melancólica”, caracterizada pela persistência de medo ou tristeza (dysthymia) ao longo de muito tempo: Ἤν φόβος ἤ δυσΘυμίη πουλὺν χρόνον διατελέῃ, μελαγχολικόν τὸ τοιοῦτον (HIPPOCRATE, 1844, 568-569). Rufo de Éfeso (c. 80-150 d.C.), cujo tratado sobre o tema foi muito influente na Idade Média, reconhece o estado melancólico pela presença de medo, angústia e suspeita, com exacerbamento da imaginação e desejo de ficar a sós, longe de todos, sem nenhuma causa visível que o justifique. Galeno (129 d.C.-200 d.C) concorda com a classificação hipocrática dos inúmeros sintomas melancólicos em dois grupos associados ao medo e à tristeza: todos os melancólicos exibem manifestações de medo ou tristeza. Ao compará-los a crianças perdidas na mais profunda escuridão, mantém o nexo entre o nome do humor, da doença a que este dá origem e o estado em que se encontram os doentes: tal como a escuridão faz com que as pessoas se amedrontem, também a cor deste humor provoca medo, quando a sua treva lança uma sombra sobre o pensamento humano.

Na tradição espiritual cristã, herdeira deste quadro médico, a melancolia é trabalhada a partir de duas linhas de pensamento diferentes, mas complementares. A primeira arranca com Orígenes (185-254), na tentativa de identificar vícios ou pecados principais, tem continuidade nos oito pensamentos (logismoi) pecaminosos fixados por Evágrio Pôntico (345-399) e adquire plena forma entre os Padres do Deserto na figura de João Cassiano (360-465). Na obra De Institutis Coenobiorum, Cassiano retoma o quadro nosológico e sintomático da melancolia ao tratar da acédia (ἀκηδία), um espírito que causa pensamentos pecaminosos, que pesa na alma e acompanha o início de qualquer tarefa e que se faz sentir como uma tristeza destrutiva que vem do Diabo, cheia de zombaria, e que deve ser combatida com trabalho e oração. A acédia é o sexto dos combates espirituais do monge cristão aos oito vícios principais (gula, luxúria, avareza, ira, tristeza, acédia, vaidade e soberba), que se acusa no cansaço (ou na tristeza) e na angústia do coração. Por atacar os homens solitários que vivem no deserto, em especial durante a hora sexta (meio-dia, intervalo entre o meio-dia e as três da tarde), este espírito foi identificado como o demónio do meio-dia que figura nas versões grega e latina do salmo 90 (δαιμόνιον μεσημβρινόν/daemonium meridianum). Ao combater este demónio, o monge sente horror ao lugar onde se encontra, náusea pela sua cela e pelos irmãos que com ele coabitam, torna-se indolente, fica inativo relativamente a qualquer espécie de trabalho, físico ou espiritual, sente cansaço físico e apetite de comida e cai numa confusão irracional da mente, como que coberto por escuridão. Sem fazer parte dos Padres do Deserto, S. Jerónimo (347-420) merece aqui uma referência. Primeiro, por também ele alertar para os perigos da vida monástica e das práticas cenobíticas dos monges: a vida nas celas, o excessivo jejum, o tédio da solidão e o estudo exagerado levam-nos a cair em melancolia (carta cxxv). Segundo, por estabelecer uma relação profunda entre a melancolia, a morte e a tristeza da vida humana (carta cxxv). Algum tempo mais tarde, o Papa Gregório Magno (540-604) fixa sete pecados capitais, entre os quais a melancolia, ou a acédia, figura como tristeza (tristitia) (Moralia in Job, XXI, 87-90). Essa fixação levará depois S. Tomás de Aquino (1225-1274) a dedicar uma questão inteira ao fenómeno da acédia na sua obra clássica, a Summa Theologiae (II-II, q. 35), onde a classifica quer como um pecado mortal, quer como um pecado capital, uma tristeza que deprime o espírito e gera um tédio que impede a ação boa.

A segunda linha de pensamento foca-se na relação entre a melancolia e o pecado original e ganha fôlego nos escritos de Hildegarda de Bingen (1098-1179), nomeadamente na obra Liber Compositae Medicinae (ou Causae et Curae): a causa da melancolia é o pecado original – a bílis negra desenvolveu-se a partir do sémen adâmico transmitido a toda a posteridade humana e é a raiz de todas as doenças sérias que afligem a humanidade, inclusive as espirituais. No cruzamento entre as duas linhas, e no contexto da criação de conventos e mosteiros femininos da Ordem dos Carmelitas, S.ta Teresa de Ávila (1515-1582) escreve o livro das Fundações (1573-1576), que contém um capítulo inteiro (o sétimo) dedicado ao fenómeno da melancolia – uma forma de sentido oposta à vida espiritual e uma enfermidade grave – e à maneira de lidar com ele por parte das prioresas. Por último, a grande referência clássica sobre a melancolia, e que puxa todas as pontas dos estudos sobre a melancolia até à sua data, é a obra The Anatomy of Melancholy, de Robert Burton (1577-1640). Em geral, e logo no ponto de partida, para Burton a melancolia é inseparável da queda do Homem. Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano abandonou o estatuto que tinha de a mais perfeita criatura do mundo. Neste ponto, Burton é bastante ortodoxo, e o seu pensamento move-se na mesma linha das reflexões de Hildegarda de Bingen: foi pelo pecado adâmico que a morte, o sofrimento e a doença entraram no mundo, devido à corrupção do Diabo. Burton distingue dois grandes géneros de melancolia, trata das várias causas, dos sintomas e das curas da mesma, e dedica longas páginas àquilo a que chama “melancolia religiosa”, aquela que tem sempre Deus como objeto, em qualquer dos casos. Tanto pode ter a sua causa em Deus – no seu amor, na sua beleza –, como no Diabo e nos instrumentos de que este se serve para atormentar a humanidade com a superstição. Burton repete com insistência que a melancolia é “o banho do Diabo” (balneum diaboli) e que ela dá origem a todas as agruras dos monges cristãos, mas também ao ateísmo. Para Burton, é evidente que a impiedade tem na melancolia a sua raiz e que é uma forma extrema de melancolia – a descrença em Deus é uma perturbação melancólica, assim como o desespero.

Finalmente, vem a talho de foice o reparo de que a melancolia continua bem presente na contemporaneidade, quer naquilo que tem de peso histórico-cultural e filosófico, quer naquilo que tem de existencial, perturbador e religioso. Basta pensar, a esse título, na presença agora mais ou menos discreta que tem ainda no Catecismo da Igreja Católica, onde consta na lista de pecados capitais sob a forma de preguiça.

 

Bibliog.: BURTON, Robert, The Anatomy of Melancholy, New York, New York Review Books, 2001; HIPPOCRATE, Oeuvres Completes d’Hippocrate, ed., trad. e notas LITTRÉ, E., t. iv, Paris, Baillière, 1844; JOUANNA, J., Greek Medicine from Hippocrates to Galen. Selected Papers, trad. ALLIES, Neil, Leiden/Boston, Brill, 2012; KLIBANSKY, R. et al., Saturn and Melancholy, Nendeln/Liechtenstein, Kraus Reprint, 1979; PIGEAUD, J., “Prolégomènes à une histoire de la mélancolie”, Histoire, Économie et Société, 3.ᵉ année, n.° 4 (Santé, Médecine et Politiques de Santé), 1984, pp. 501-510; Id., La Maladie de L’Âme, Paris, Les Belles Lettres, 2006; Id., Melancholia. Le Malaise de L’Individu, s.l., Payot, 2008; RADDEN, Jennifer (ed.), The Nature of Melancholy. From Aristotle to Kristeva, Oxford, Oxford University Press, 2000; RUFUS OF EPHESUS, On Melancholy, ed. PORMANN, Peter E., Tübingen, Mohr Siebeck, 2008; SCHMIDT, J., Melancholy and the Care of the Soul. Religion, Moral Philosophy and Madness in Early Modern England, s.l., Ashgate, 2007.

 

Álvaro Almeida

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