Proposto em 1960 por Martinet, o conceito de monema remete para a escolha mais elementar que o sujeito falante faz no decorrer de um ato de enunciação. No âmbito do funcionalismo de Martinet, cada unidade é objeto de uma escolha, sendo que uma mensagem representa várias escolhas e, por isso, várias unidades significativas, comportando, desta forma, vários significados ou valores. Quando estas unidades já não podem ser decompostas em unidades menores também significativas, considera-se que são unidades significativas mínimas, constituindo monemas. Neste sentido, “gato” é um monema, dado que ga- t- ou o- não têm significado. Pelo contrário, a palavra “gatos” inclui dois monemas: o monema “gato” e o monema de plural representado por -s. Por outro lado, em “gatos amarelos”, há apenas três monemas e não quatro, pois o plural resulta de uma única escolha, considerando que a concordância é obrigatória a partir do momento em que se escolhe o plural “gatos”. Da mesma forma, o “o” inicial de “O bolo é bom” não constitui um monema, dado que não é resultado de uma escolha, mas uma imposição do género da palavra. Martinet (1960) distingue dois tipos de monemas: os gramaticais e os lexicais. Os primeiros, os gramaticais, fazem parte de “inventários fechados”, como, por exemplo, “presente do indicativo” ou “determinante artigo”. Neste sentido, caso surgisse um novo tempo verbal ou artigo, o valor dos tempos e artigos existentes sofria obrigatoriamente uma modificação. Os segundos, os monemas lexicais, fazem parte de “inventários abertos”, como, por exemplo, “cadeira” ou outros nomes comuns que designam objetos. Neste caso, o surgimento de novo tipo de objeto não obrigaria à modificação do valor de “cadeira” (DUCROT & TODOROV, 1972, 193-194). Esta análise dos monemas como “escolhas do locutor” possibilita, por exemplo, dar conta das escolhas efetuadas e da sua relevância nas mensagens veiculadas pelos discursos religiosos e místicos.
Bibliog.: BARBOSA, Jorge de Morais, Introdução ao estudo da fonologia e morfologia do português, Coimbra, Almedina, 1994; DUCROT, Oswald e TODOROV, Tzvetan, Dictionnaire encyclopédique des sciences du langage, Paris, Seuil, 1972; MARTINET, André, Éléments de linguistique générale, Paris, Armand Colin, 1960.
Rute Rosa