Depois de um período preparatório, o Movimento Litúrgico iniciou-se na Bélgica, em 1909, e terminou com a convocação do Concílio Vaticano II pelo Papa João XXIII, em 1959.
O séc. xix foi um período peculiar para as igrejas de França que experimentaram o cisma da Revolução de 1789, com as suas consequências marcantes para a sociedade. A Revolução Francesa, juntamente com os conceitos que visavam a recuperação dos princípios de igualdade entre os homens, conduziu à destruição dos sinais de culto cristão, nomeadamente à supressão dos mosteiros. Paralelamente, o romantismo literário afirmava a sua reação contra o racionalismo e o intelectualismo do séc. xviii, de que é exemplo François Chateaubriand e a sua obra Le Génie du Christianisme, na qual faz uma apologia do cristianismo pela sua utilidade social e política e pelo seu valor poético e literário. É nesta mesma época que Lamennais critica a filosofia do séc. xviii, no seu Essai sur l’Indifférence en matière de Religion, e se propõe reconstruir a sociedade política através de uma sociedade religiosa.
A sociedade política e religiosa da época sofria dum mal-estar de difícil diagnóstico. A Revolução Francesa vinha simplesmente agravar os erros precedentes. Na verdade, o mal era muito mais remoto, pois tinha a sua origem no protestantismo e na constelação dos seus rebentos – jansenismo, galicanismo, quietismo, febronianismo, josefismo e, finalmente, o modernismo –, os quais tinham escravizado o Homem a partir de um erro filosófico-teológico: a não gratuidade da graça, a inutilidade das obras e a falibilidade do sumo pontífice, favorecendo as mais diversas formas de individualismo e devocionismo. Foi contra esta situação que Próspero Guéranger (1805-1875), principal responsável pelo recomeço litúrgico em França, se insurgiu, despertando a consciência católica para o sentido do divino, atraindo a sua atenção para a prática do dogma. Guéranger tinha recebido a ordenação sacerdotal em 1927 e logo se interessou pela agitada questão da unidade dos católicos franceses, à qual quis dedicar toda a sua atividade. O seu ponto de partida foi a restauração da vida beneditina, no Mosteiro de Solesmes, desde 1833, do qual se tornou o primeiro abade em 1837. Esta restauração assumia um duplo significado para a Igreja: por um lado, tratava-se do renascimento beneditino em França e, dali, irradiaria para a Alemanha (Beuron) e para a Bélgica (Maredsous); por outro, Solesmes e as suas filiais exerceriam um papel considerável na renovação litúrgica e da vida cristã.
Depois destes antecedentes, o Movimento Litúrgico, como movimento orgânico e dotado de uma consistência de ideias e programas, teve o seu início em 1909, no Congrès National des Oeuvres Catholiques, em Malines (Bélgica). Neste Congresso, Lambert Beauduin, que tinha compreendido a capacidade da liturgia praticada pela comunidade beneditina como meio eficaz de penetração das ideias cristãs no povo, chamou a atenção do público com um discurso notável sobre a ignorância dos fiéis nesta matéria e sobre o mal que daí resultava, apontando as soluções que poderiam contribuir para o seu desaparecimento. A especificação da ignorância religiosa como causa principal dos males que corrompiam a sociedade e a necessidade de combater essa situação, conduzindo os fiéis à fé mediante uma experiência religiosa fundada na liturgia, foram algumas das ideias motoras que acompanharam as reflexões do congresso. Os votos aí formulados não ficaram estéreis. A partir deste evento, o Movimento Litúrgico deixou de ser uma corrente subterrânea, tornando-se visível e reconhecível aos olhos de todos. Efetivamente, este congresso deu frutos significativos. Seguiram-se diversas iniciativas tendentes à formação de uma espiritualidade fortemente enraizada na liturgia. Sucederam-se, e.g., as semanas litúrgicas, às quais afluíram muitos párocos e fiéis, e surgiu a revista mensal La Vie Liturgique, que fornecia os textos da missa dominical para as dioceses da Bélgica. Em 1911, Lambert Beauduin iniciou igualmente a publicação de Les Questions Liturgiques, uma revista de liturgia, de carácter pastoral, especificamente dirigida ao clero. Convicto da necessidade de atrair os fiéis ao inestimável valor da liturgia e à riqueza espiritual que dela poderia advir, em consequência da participação nas celebrações, Beauduin considerava fundamental a sensibilização dos párocos, principais responsáveis pela formação litúrgica dos fiéis.
O sinal que melhor testemunha a mudança de clima relativamente à liturgia pode ser encontrado no estudo La Liturgie Catholique, do beneditino de Maredsous de origem francesa Maurice Festugière. Nesse estudo, o autor explica os objetivos de fundo do amplo projeto dos beneditinos belgas, orientado para a promoção da liturgia como a principal forma de oração dos católicos, que visavam a recuperação de uma específica identidade católica e o relançar da sua hegemonia na sociedade católica. Festugière mostrava eficazmente que a liturgia é fonte de vida, e não apenas uma instituição cerimonial e rubricista. A obra acabaria por ficar associada a uma controvérsia entre Beneditinos e Jesuítas, que só conheceu o seu termo com a publicação de La Piété de l’Église, de Lambert Beauduin, considerado o texto programático do Movimento Litúrgico.
A partir de França e, sobretudo, da Bélgica, o Movimento Litúrgico expandiu-se por quase toda a Europa Ocidental, principalmente pela Alemanha, Itália, Espanha e Inglaterra, e chegou, em 1926, aos Estados Unidos. Depois de um certo período de “gestação”, também Portugal viu nascer, de modo oficial, o mesmo Movimento, em 1926, no primeiro congresso litúrgico realizado na Diocese de Vila Real. O principal impulsionador deste Movimento foi, sem dúvida, o beneditino António Coelho (1892-1938). Formado nos mosteiros de Maredsous e de Mont-César, entre 1910 e 1919, no convívio com Columba Marmion e Lambert Beauduin, foi ele, incontornavelmente, não só o responsável, mas também o protagonista de dois itinerários em Portugal: o renascimento da vida beneditina e o Movimento Litúrgico em Portugal.
Condicionado pela conjuntura histórica nacional, o Movimento Litúrgico português foi, em muitos aspetos, semelhante ao Movimento Litúrgico da Bélgica, mas contou também com algumas iniciativas a nível nacional que lhe conferem uma certa originalidade. Um olhar conclusivo sobre esses acontecimentos permite-nos identificar as duas fases do Movimento Litúrgico português: uma fase progressiva e unânime, durante o tempo de António Coelho, assinalada com os seguintes marcos: 1) a realização de congressos (Vila Real e Braga, em 1926 e 1928, respetivamente); uma revista litúrgica (Opus Dei), como órgão de divulgação dos princípios orientadores do Movimento; duas semanas litúrgicas (Lisboa e Porto, em 1932); e a criação, por parte do episcopado, da Liga de Ação Litúrgica e Paroquial, com a comissão nacional e comissões diocesanas, apresentadas na semana litúrgica de Lisboa, e respetiva aprovação do programa de ação, promulgado definitivamente em 1933; 2) uma segunda fase de desconcerto, depois da morte de António Coelho, em que se regista a suspensão da revista Opus Dei e se verifica o insucesso das comissões instituídas para promover e comandar as iniciativas do Movimento Litúrgico, o que veio a condicionar o próprio Movimento. Este apenas se manteve graças ao labor e empenho da comunidade beneditina de Singeverga e de alguns protagonistas que, desde a primeira fase, se esforçaram por manter acesa a chama do Movimento: Mons. Pereira dos Reis, Mons. Freitas Barros, etc. Durante esta segunda fase, as revistas litúrgicas Mensageiro de S. Bento, Liturgia e Ora & Labora, publicadas pela comunidade beneditina, constituíram a garantia de que a voz do Movimento Litúrgico em Portugal não se apagara na totalidade. Convém realçar que o Movimento Litúrgico, iniciado em 1909, impôs-se solidamente graças à harmonia e à colaboração dos vários intervenientes: os monges beneditinos, os bispos e o clero secular e regular. Esta harmonia possibilitou que a iniciativa ultrapassasse as fronteiras, mesmo nos períodos em que tudo parecia ter separado os seus protagonistas, sobretudo durante a Primeira e a Segunda Guerra mundiais.
Por fim, o Movimento Litúrgico é uma bela ilustração do mistério da Igreja: os pastores não ficaram à espera das diretrizes da hierarquia para se lançarem ao trabalho. Em alguns momentos, os papas assumiam a iniciativa: e.g., o Papa Pio X empenhou-se, de 1911 a 1914, numa reforma litúrgica que foi limitada no seu progresso pela Primeira Guerra, e um dos seus sucessores, o Papa Pio XII, escreveu duas cartas encíclicas, Mystici Corporis (1943) e Mediator Dei (1947), que asseguram uma visão sacramental da Igreja e da liturgia e foram o prelúdio do seu trabalho de reforma litúrgica, concretizada na reforma da Vigília Pascal (1951) e de toda a Semana Santa (1955).
Bibliog.: BROVELLI, Franco (coord.), Ritorno alla Liturgia. Saggi di Studio sul Movimento Liturgico, sep. Bibliotheca Ephemerides Liturgicae. Subsidia, n.º 47, jan. 1989; Id. (coord.), Liturgia: Temi e Autori. Saggi di Studio sul Movimento Liturgico, sep. Bibliotheca Ephemerides Liturgicae. Subsidia, n.º 90, jan. 1990; COELHO, António, A Importância da Cultura Litúrgica na Vida Espiritual, Fátima, Secretariado Nacional da Liturgia, 2018; COSTA, B., Movimento Litúrgico em Portugal: D. António Coelho, o Protagonista, Singeverga, Ora & Labora, 2009; GANHÃO, Joaquim Augusto Nunes, O Movimento Litúrgico em Portugal. O Contributo de Monsenhor Pereira dos Reis, Moscavide, Seminário Maior de Cristo-Rei, 2006; NEUNHEUSER, B., “O movimento litúrgico: Panorama histórico e linhas teológicas”, in NEUNHEUSER, B. et al. (coord.), Anámnesis, vol. 1: A Liturgia Momento Histórico da Salvação, São Paulo, Paulinas, 1986, pp. 9-36; Id., “Movimento litúrgico”, in SARTORE, Domenico e TRIACCA, Achille M. (dirs.), Dicionário de Liturgia, São Paulo, Paulinas, 1992, pp. 787-799.
Bernardino Costa