Os povos antigos não distinguiam “mar” de “oceano”. Enquanto o primeiro é limitado ou cercado por terra, o segundo circunda os continentes e é mais volumoso e profundo que aquele. Na simbologia religiosa, eles são intercambiáveis. Devido à sua extensão aparentemente ilimitada, o oceano é imagem da indeterminação original e da própria primordialidade.
Se no relato bíblico da Criação mar e oceano correspondem às “águas inferiores”, sobre as quais paira o sopro de vida de Javé (Gn 1, 2), no taoísmo eles correspondem às águas superiores, à essência divina. No budismo, a calma da superfície do mar simboliza simultaneamente o vazio e a iluminação.
A imensidão das águas salgadas e o seu carácter informe e imprevisto suscitam no ser humano admiração e medo. A grandiosidade do oceano contrapõe-se à minúscula gota de água, simbolizando a vida universal e a particular. Há uma ambivalência no oceano: dele provém a vida, ao mesmo tempo que ele pode provocar a morte. Quando agitado, transforma a travessia em algo perigoso para a vida dos navegantes, devido às tempestades e às ondas gigantescas. Os barcos sinalizam a ousadia humana, capaz de singrar sobre as águas, como também a sua fragilidade, pois está sujeita ao naufrágio.
Vários povos criaram lendas sobre monstros marinhos que ameaçariam os navegantes, a ponto de os levar à morte. Algumas correntes da psicologia relacionaram a profundeza do oceano e os monstros marinhos com o inconsciente humano, cujas correntes podem ser vivificadoras ou mortais. Para a psicologia analítica de Jung, o oceano evoca o arquétipo da mulher-mãe, que acolhe, gera e nutre a vida, mas encontra o seu reverso no obscuro, sedutor, apavorante e fatal.
Conforme a crença judaica, o Criador organiza o caos inicial separando as “águas inferiores” (mares e oceanos) das “águas de cima” (nuvens e chuva) (Gn 1, 10). Deus habita nos céus, sobre as águas superiores do firmamento. Ele é Criador e Senhor dos três reinos cósmicos: céu, terra e mar (Ex 20, 4; At 4, 24). Os autores bíblicos provavelmente conheciam o simbolismo oriental das águas primordiais: “Deus fundou a terra sobre os mares e a firmou sobre as águas” (Sl 24, 2). Também compartilhavam a visão pré-científica de que os mares e os oceanos terminariam num “grande abismo” (Jó 38, 16ss.), do qual se originariam as águas dos mananciais. A palavra hebraica “tehon” expressa tanto as águas originais como o mundo subterrâneo. De forma poética, o salmo 104, 6 louva a Deus, que “envolveu a terra com o manto do oceano/abismo”. No oceano, com os seus braços imensos, movem-se incontáveis seres. Por aí circulam os navios e o Leviatã (monstro marinho), criatura de Javé, com o qual o Senhor brinca (vv. 25-26). O mar (yâm) é de Deus, pois foi Ele quem o fez, e a terra firme, as suas mãos modelaram (Sl 95, 5).
Existe na Bíblia uma certa visão negativa segundo a qual os mares e os oceanos seriam a habitação do mal. Assim, o autor do Apocalipse anuncia que nos “novos céus e nova terra”, na Jerusalém glorificada, tais águas não existirão mais (Ap 21, 1). Ondas e tempestades marítimas são domadas por Deus (Jn 1, 4). O gesto de Jesus de acalmar o mar revolto (que na realidade é um grande lago de água doce), estando na barca com os seus discípulos (Mt 8, 23-37), é um apelo a que se confie n’Ele em situações ameaçadoras.
Daniel tem um sonho, no qual “do grande mar” surgem quatro seres terríveis, simbolizando reinos opressores, que serão vencidos por Deus (Dn 7). O oceano, denominado de “águas profundas”, “grandes águas”, “águas do abismo” e “mar”, é uma realidade hostil e ameaçadora, contra a qual Deus luta e que domina. Marinheiros em apuros clamam a Deus para acalmar o bramido das ondas (Sl 107, 23-30). Ao mesmo tempo, o oceano e as criaturas que nele habitam são convidados a louvar o seu Criador junto com os humanos (Dn 3, 79; Sl 96, 11). Por fim, o oceano pode-se transformar também em fonte de bênçãos, junto com as águas do céu (Gn 49, 25).
Para alguns místicos cristãos, os mares e os oceanos simbolizam o mundo e o coração humanos, lugar de paixões que podem desviar de Deus e levar a pessoa a submergir na sedução do pecado. Para os Padres da Igreja, a analogia das “grandes águas” aplica-se ao reino inferior do Diabo, devido à sua terrível profundidade, mas também significa a densidade inesgotável do mistério divino. A Igreja é como um navio que navega nos mares do mundo.
A Terra é conhecida como “o planeta azul”, pois praticamente três quartos da sua superfície são compostos por água, grande parte salgada. Toda a vida se originou dos oceanos. Como no nosso planeta tudo está interligado, os oceanos e grandes mares (Atlântico, Índico, Pacífico, Glacial Ártico e Glacial Antártico) são interdependentes do solo, do ar, do Sol e da Lua. Os oceanos contribuem para a vida do planeta e da humanidade de muitas formas. O fitoplâncton e as algas são responsáveis pelo maior índice de captura do CO2 e pela emissão de oxigénio, processo imprescindível para manter estável o clima do planeta. O equilíbrio da temperatura na Terra depende das correntes oceânicas interligadas, que ainda repõem os nutrientes das águas de superfície. Sob ação do Sol e dos ventos, a evaporação das águas oceânicas contribui para o ciclo de chuvas do planeta, necessário para plantas, animais e agricultura. Das suas águas provêm peixes, crustáceos e moluscos, que alimentam a população. A biodiversidade marinha mostra como beleza e cooperação são fundamentais para os ecossistemas e para a espécie humana. Mares e oceanos constituem a via de transporte mais importante do mundo.
O atual modelo económico de extração, produção, logística, consumo e descarte de produtos provoca sérios danos nos oceanos e no planeta. Uma quantidade enorme de resíduos sólidos (lixo) é lançada diariamente nos rios, mares e oceanos. Resíduos orgânicos e químicos contaminam as águas, exterminam várias espécies e reduzem a biodiversidade marinha. A destruição dos manguezais, origem de parte do ciclo de vida marinha, acrescida da sobrepesca, reduz sensivelmente a produção de peixes e frutos do mar. O aquecimento das águas marinhas, devido às mudanças climáticas, altera as correntes marítimas e provoca a morte de corais e algas. Modifica-se o ciclo das chuvas, provocando fenómenos extremos como tempestades, furacões ou a seca. O aumento da temperatura média do planeta, causado pela emissão dos gases de efeito estufa, produz o lento descongelamento das “calotas polares”, levando à subida do nível do mar, o que ameaça as cidades costeiras. São necessárias medidas urgentes para proteger os ecossistemas marinhos (FRANCISCO, 2015, §§ 29, 40, 41).
Os oceanos inspiram várias facetas da espiritualidade cristã. Do ponto de vista teológico: a consciência da presença do Espírito Santo na criação, a partir das águas primordiais, de onde surgiu toda a vida, e a experiência de Deus como mergulho na sua infinita bondade e insondável sabedoria; do ponto de vista antropológico: o reconhecimento da beleza e da fragilidade humana, necessitadas de acolher a graça de Deus, e a ambivalência do ser humano, capaz de gestos heroicos ou atitudes violentas contra os outros e a natureza; do ponto de vista ecológico: a gratidão a Deus pelo fascínio dos mares e oceanos e de tudo o que eles nos oferecem, e o apelo à conversão ecológica (Ibid., §§ 217-220), traduzida em atitudes individuais, ações coletivas e compromissos institucionais, em defesa da vida na Terra, no ar e nas águas.
Bibliog.: BAUER, J. B., “Mar”, in Dicionário de Teologia Bíblica, 2.ª ed., São Paulo, Loyola, 1979, pp. 658-660; CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A., “Oceano”, “Mar”, in Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1995, p. 650, 663-664; CIRLOT, J. E., “Oceano”, in Dicionário de Símbolos, Lisboa, Moraes Editora, 1984, pp. 424-425; FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum, Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2015; JUNG, C. G. Aspectos do Feminino, Petrópolis, Vozes, 2019; LURKER, M., “Mar”, in Dicionário de Figuras e Símbolos Bíblicos, São Paulo, Paulus, 1993, p. 147; MCKENSIE, J., “Mar”, in Dicionário Bíblico, São Paulo, Paulinas, p. 577; NIEMEYER, M., Água, s.l., Publifolha, 2012.
Afonso Murad