Termo de origem grega que significa “pai do princípio” (da descendência); é usado, na tradução grega do Antigo Testamento, para chefes de clã (1Cr 24, 31; 2Cr 19, 8; 26, 12), chefes das tribos de Israel (1Cr 27, 22) ou chefes de soldados (2Cr 23, 20). Em referência a Abraão, Isaac e Jacó figuram somente no apócrifo 4Mc (7, 19; 16, 25). O Novo Testamento chama de patriarcas Abraão (Hb 7, 4), os 12 filhos de Jacó (At 7, 8-9), além de David (At 2, 29).
As tradições referentes a Abraão, Isaac e Jacó são desenvolvidas sobretudo no livro do Génesis, o qual acrescenta também a história de José (Gn 11, 27-50, 26). Ao tematizar a promessa da terra e de descendência numerosa, com a multiplicação do povo (Ex 1, 7) e o seu estabelecimento na terra de Canaã (Js 5, 10-12), a história patriarcal prepara o êxodo do Egito. Segundo os textos bíblicos, Abraão estabeleceu-se em Siquém, entre Betel e Hai (Gn 12, 8; 13, 3-4), em Guerar (Gn 20) e Bersabeia (Gn 21, 31-33). Isaac está ligado a Guerar (Gn 26, 1-22), Bersabeia (Gn 26, 31-33) e Beer Lahay Roí (Gn 24, 62). Jacó é situado em Bersabeia (Gn 28, 10; 46, 1-4), Betel (Gn 28, 11-22; 35, 1-7.15), Fanuel (Gn 32, 23-33) e Siquém (Gn 33, 17-20). A comparação dos locais relacionados com cada um dos patriarcas e a análise dos textos indicam que as tradições originárias sobre Abraão estão ligadas ao santuário de Betel, ponto de chegada de Abraão, ao vir para Canaã (Gn 12, 8). As tradições de Isaac, se considerados Amós 5, 5 e 7, 9, conectam-no originalmente com Bersabeia. As tradições mais antigas referentes a Jacó situam-no sobretudo no norte do território. Uma vez que os textos relativos a Abraão trazem traços de épocas mais recentes, a história dos patriarcas parece ter-se desenvolvido primeiramente ao redor de Isaac e Jacó. Mesmo se escritas tardiamente, e com intuito teológico, trazem, todavia, traços antigos (os seus nomes, em formas não comuns em Israel; o Deus que adoram; costumes e normas). Ao enfatizar a terra e a numerosa descendência, as promessas patriarcais tiveram especial importância na época do exílio babilónico, em que parte significativa do povo se encontrava fora do território israelita, sendo ameaçada a sua continuidade.
Ponto fulcral das tradições patriarcais é a ideia de eleição e de constante amor de Deus. Deus escolhe livremente, protege e conduz. Em Abraão é enfatizada a sua prontidão e obediência (Gn 12, 1-4), a sua fé (Gn 15, 6; Rm 4, 1-25; Gl 3, 6-29; Tg 2, 21-23) e confiança na palavra divina, mesmo em situações-limite (Gn 22, 1-19). Abraão é ainda intercessor que interroga Deus sobre a justiça divina (Gn 18, 16-33). Em Isaac sublinha-se a realização da promessa (Gn 21, 1-8; Rm 9, 7-9; Gl 4, 28-31) e a sua fé (Hb 11, 20). Jacó é o ponto de unidade para as 12 tribos e, assim, de todo o povo de Israel, nome que recebeu no encontro com o ser misterioso (Gn 32, 28; 35, 10).
Além dos três grandes pais de Israel, são considerados patriarcas também os dez personagens ancestrais listados em Génesis 5. Este registo tem semelhança com listas de reis paleobabilónicos antediluvianos, que apresentam também cifras fabulosas. O grande número de anos de Génesis 5 reflete a bênção de Deus de Génesis 1, 28.
Bibliog.: RUPPERT, L., “Patriarch. I. Altes Testament”, in KASPER, W. (dir.), Lexikon für Theologie und Kirche, vol. vii, Freiburg/Basel/Rom/Wien, Herder, 1998, cols. 1459-1461; Id., “Patriarcas”, in KASPER, W. (dir.), Diccionario Enciclopédico de Exégesis y Teología Bíblica, vol. ii, Barcelona, Herder, 2011, p. 1228; SKA, J.-L., O Canteiro do Pentateuco, São Paulo, Paulinas, 2016.
Maria de Lourdes Corrêa Lima