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Pedro

Dos doze que estiveram originalmente com Cristo, Simão é seguramente o apóstolo referido com mais transparência. O seu carácter impulsivo levou-o a ser uma espécie de porta-voz do colégio apostólico, motivo pelo qual, certamente, Jesus o apelidou de “pedra”, i.e., “Pedro”. A sua ousadia, por vezes, foi também uma das suas fraquezas, levando-o a várias precipitações.

Nascido numa família de pescadores, era sócio do seu irmão André e de outros dois irmãos, João e Tiago, filhos de Zebedeu. Originário de Betsaida, localizada a norte do mar da Galileia (Jo 1, 44), Simão fixou depois residência em Cafarnaum (Mc 1, 21.29), a noroeste do lago, juntamente com a sua esposa, a sua sogra e o seu irmão André (Mc 9, 5). Como galileu, vemos Simão refletindo os ardentes anseios messiânicos, comuns naquela região, que prometiam o estabelecimento do Reino de Deus, geralmente através de meios revolucionários, o que certamente combinava com a sua notável intrepidez. Possivelmente tomado pelo seu zelo revolucionário, viajou para a Judeia quando ouviu dizer que aí havia surgido um profeta que não temia denunciar o pecado de Herodes.

Batizado por João Batista, tornou-se seu discípulo, mas cedo percebeu que não se tratava do libertador profético que ansiava, sendo apenas um precursor que anunciava a chegada de outro, que lhe foi anunciado quando o seu irmão, transbordando alegria, lhe disse: “Achámos o Messias!” (Jo 1, 41). Passou a segui-lo repleto de esperanças, o que se converteu em certeza quando, em Cesareia de Filipe, próximo do monte Hermón, confessou a sua fé: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16, 16). A sua crença foi validada pelo facto de Jesus ter aceitado o título afirmando que Pedro havia acabado de profetizar a verdade sobre Ele. Todavia, a noção de Cristo que ele tinha divergia significativamente do modelo de Jesus. Segundo o que pensava, o Messias não podia morrer. Logo após ter transbordado a sua fé, o relato de Jesus ao declarar a necessidade dos seus sofrimentos e morte soou de modo diametralmente oposto ao formato de Cristo concebido por Pedro. Assim, Simão mostrava-se agora quase como um opositor, um tentador, ao ponto de ser comparado por Cristo ao próprio Satanás (Mt 16, 23).

Pedro, juntamente com Tiago e João, formava um grupo de apóstolos mais próximos de Jesus, possivelmente como experiências necessárias àquilo que haveriam de passar nos seus ministérios: Pedro, o apóstolo mais ativo na fundação da Igreja em Jerusalém; Tiago, o primeiro apóstolo martirizado; João, o apóstolo mais jovem, que sobreviveu até ao final do primeiro século, sendo o último a morrer. Essa proximidade valeu ao grupo presenciar algumas ocasiões que apenas aos três foram franqueadas. Numa delas, Pedro vê Jesus transfigurado, ladeado por Moisés e Elias (Mc 9, 2-8). Quando finalmente chegou o momento de Jesus cumprir o seu projeto messiânico, Pedro tentou resistir. Primeiramente, opôs-se ao desejo do seu Mestre de lhe lavar os pés, pois um rei não deveria fazer o papel de um servo. Depois, quando no Getsémani, sacou a espada e cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote: o rei não seria preso sem luta (Jo 18, 10).

A prisão de Jesus significou um duro golpe nas convicções de Simão: como poderia o Messias ser derrotado e rejeitado pelo seu próprio povo? A sua tripla negação de Jesus deve ser entendida à luz dessa hesitação e de uma certa perplexidade. Segundo a narrativa evangélica, após negar conhecer o acusado, até com juramento, o galo cantou. Nesse momento, lembrou-se do que Jesus lhe havia dito e percebeu o seu olhar. Passou o resto da noite no choro amargo do seu fracasso e da destruição do formato de Messias que dava base à sua crença. É certo que, juntamente com os restantes apóstolos, ocultando-se na multidão, vira a derradeira cena na cruz. Todavia, a história de Pedro nos evangelhos não termina com esse tom sombrio, mas com a alegria da reconciliação com o Messias.

Segundo os autores bíblicos, após a ressurreição de Jesus, este encarrega o seu mais ousado discípulo novamente do apostolado. Há uma curiosa sequência de perguntas e respostas que possivelmente mostram algo que vai para lá da tradução para o português. Andando por uma praia, Jesus pergunta a Pedro: “Tu amas-me?” Ocorre que, na língua grega, nas duas primeiras vezes, Cristo utiliza o verbo “agapáo”, e na terceira, “filéo”. Pedro responde sempre com o “filéo”. Embora noutras partes João utilize os dois termos de forma intercambiável, aqui parece que qualquer aleatoriedade se torna difícil de ser explicada. Entendendo que agápe denote um amor superior e filéo o falível amor humano, esta passagem ligar-se-ia a duas outras. Primeiramente, já próximo da sua prisão, Jesus cita as Escrituras para afirmar que logo todos o abandonariam. Pedro afirma: “Ainda que todos se escandalizem, eu jamais” (Mc 14, 29). Com isso, em mais um dos seus repentes, Simão havia negado a profecia, o próprio Cristo que a afirmava, e colocava-se acima dos restantes apóstolos, pelo que Jesus imediatamente anuncia que Simão o negaria três vezes, antes do canto do galo. A passagem da sua negação é a segunda que se associa ao triplo questionamento que lhe fez o Mestre. Deste modo, entende-se que o sentido do diálogo de Jesus com Pedro, distinguindo o sentido dos dois verbos, seria: “Pedro, acreditas que tens um amor inquebrável por mim?” A resposta seria: “Senhor, tu conheces todas as coisas; sabes que te amo, mas não dessa forma”. A segunda pergunta e a sua resposta repetem o mesmo percurso. Na terceira, Jesus muda então o verbo: “Então, Pedro, amas-me com um amor falível e humano?” A resposta seria concordante: “Sim, amo-te dessa forma”.

O apóstolo Pedro é, dentre os apóstolos, possivelmente também o mais controverso, se considerarmos o cristianismo de forma lata e abrangente. Desde a Alta Idade-Média, Pedro foi entronizado na Igreja, reconhecido como o principal e líder dos apóstolos na Igreja primitiva. Esta visão sobre Simão foi essencial para a fundação do papado. O bispo de Roma, privilegiado pela grande expressão da cidade, passou a ser enfatizado entre os seus pares, até que, por fim, se lhe atribuiu exclusivamente a utilização do título “papa”, anteriormente usado por todos os bispos. A elevação do bispo de Roma ao papado não poderia ser uma mera decisão administrativa, precisando de estar baseada, de alguma forma, na revelação de Cristo. Já existia nas Escrituras cristãs um texto que especificava e distinguia o apóstolo Pedro. Trata-se do Evangelho de Mateus: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 16, 18).

Para combater a doutrina do papado, os reformadores passaram a reconhecer a “pedra” não como referência direta ao apóstolo Pedro, mas à sua declaração sobre Cristo, aquilo que acabara de fazer no verso 16: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Uma vez que Jesus Cristo é identificado pelo próprio Pedro como a “pedra angular” na sua Primeira Epístola (2, 7), os teólogos da Reforma rejeitaram completamente a ideia de ser Pedro aquele sobre o qual a Igreja seria estabelecida. Todavia, examinando a língua original do Novo Testamento, encontramos: “σὺ εἶ Πέτρος, καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν”. Nota-se com clareza o nome Pétros como explícita referência a pétra, que significa “pedra”. A exegese do texto sugere fortemente que a “pedra” é “Pedro”. Se considerarmos que Jesus fez tal afirmação em aramaico, então teria repetido exatamente o mesmo termo: Kéfas.

Todavia, isso não significa que o texto afirme o papado. O apóstolo Paulo, e.g., assevera, na sua Carta aos Efésios, “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2, 20). O apóstolo dos gentios não só coloca Pedro no fundamento da Igreja neotestamentária, mas ainda todos os apóstolos, bem como os profetas do Novo Testamento. Excetuando-se aquilo que a tradição da Igreja fez posteriormente, o que o texto de Mateus refere é o facto de que Pedro estaria em destaque no início da Igreja em Jerusalém, como comprovam os capítulos 1 a 12 dos Atos dos Apóstolos: Pedro é quem prega no Pentecoste, quem ressuscita o paralítico na Porta Formosa do Templo, junto com João, sendo também preso com esse apóstolo. Uma vez liberto, desce à Samaria para distribuir o Espírito. Pedro é quem ressuscita Dorcas e quem vai à casa de Cornélio, também para que o Espírito seja derramado sobre um gentio.

A evidência bíblica, na verdade, não sugere que Pedro tenha sido o primeiro “papa”, mostrando apenas que este apóstolo continuou em evidência, da mesma forma que quando ainda estava com Jesus. Era geralmente ele quem assumia a frente dos restantes para fazer ou dizer alguma coisa. Nada sugere que Pedro era um líder dos apóstolos, com maior autoridade. Na verdade, Tiago, o meio-irmão de Jesus, surge como verdadeiro líder da Igreja em Jerusalém, mesmo não estando entre os 12 originais. Ele lidera o Concílio de Jerusalém, e é o seu parecer que prevalece.

 

 

Bibliog.: BORING, Eugene M., Introdução ao Novo Testamento, vol. ii: Cartas Católicas, Sinóticos e Escritos Joaninos, Santo André/São Paulo, Academia Cristã/Paulus, 2015; BROWN, Raymond E., Introdução ao Novo Testamento, 2.ª ed, São Paulo, Paulinas, 2012; GUNDRY, Robert H., Panorana do Novo Testamento, 3.ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2008; HARRISON, Everett, Introducción al Nuevo Testamento, Grand Rapids, Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1987; JÚNIOR, Jair de Almeida, A Conquista do Mundo, São Paulo, Fonte Editorial: 2019; KÜMMEL, Werner Georg, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Edições Paulinas, 1982; STOTT, John, Homens com Uma Mensagem, Campinas, Editora Cristã Unida, 1996; TENNEY, Merrill C., O Novo Testamento: Sua Origem e Análise, 3.ª ed., São Paulo, Vida Nova, 1995.

 

Jair de Almeida Júnior

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