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Periferia

O conceito de periferia não é exclusivo da história e da geografia. Ciências como a etnologia, a sociologia, a economia, a ética, bem como a psicologia, também se referem a ela, se bem que o seu significado possa ser muito diferente entre as vá.

O termo “periferia” entende-se na relação com o termo “centro”. Não obstante a sua distinta significação, “centro” designa, principalmente, o ponto do compasso que traça o círculo e, por extensão, o centro do próprio círculo, enquanto “periferia” designa a circunferência, o perímetro, desse mesmo círculo. Em ambos os casos, tanto o centro como a periferia surgem como elementos constitutivos do mesmo objeto. Deve-se, portanto, ter em mente que a noção de periferia está necessariamente ligada a um objeto específico: se se mudar o objeto, não se pode tratar o centro e a periferia nos mesmos termos.

Pensar a questão do centro e da periferia é admitir, pelo menos implicitamente, uma certa relação entre os dois termos. Sem centro não há periferia, sem periferia não há centro. O centro materializa-se nem único ponto, enquanto a periferia é formada por um conjunto de pontos. A relação entre centro e periferia, portanto, relaciona-se com a relação entre unidade e diversidade. Empregar as noções de centro e periferia supõe, portanto, um objeto bem definido. No seu centro, encontram-se os elementos ou fenómenos que participam da unidade desse objeto, sejam esses elementos ou acontecimentos espaciais, sociais, temporais, espirituais. Inversamente, encontram-se na periferia do objeto os elementos que se relacionam com o centro, estando portanto ligados ao objeto, mas que se destacam dele pela sua diversidade e pelas suas diferenças.

No terreno eclesiológico, o Papa Francisco considera que o próprio da natureza da Igreja é estar “em saída” (FRANCISCO, 2013, 20). Esse é, aliás, o movimento da Revelação que passa por uma promessa: “Sai da tua terra” (Gn 12, 1-3). Ou o chamamento de Moisés: “Vai; Eu te envio” (Ex 3, 10). O termo é utilizado face ao conforto de uma vida sem riscos: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (FRANCISCO, 2013, 49). Isto significa que as “periferias” não se podem opor a um “centro” que seria um polo de impulsos e criatividade e o outro, da periferia, um espaço já conquistado pela morte. Na perspetiva do Papa Francisco, a periferia não é apenas a de um espaço, é também a realidade humana marcada pela miséria, pelo sofrimento, pelo pecado, talvez também pela ausência de Deus, quando a sociedade se organiza na recusa de qualquer referência a um outro lugar que não ela mesma. A “periferia” tem, portanto, uma dimensão espiritual, embora deva ser reconhecida como fruto dos nossos sistemas de trocas e de competição, que produzem “resíduos”, “sobras”.

Há uma “cultura do desperdício” (Ibid., 53), inscrito nas estruturas operacionais e de pensamento da humanidade (GRIEU, 2015). A pobreza e a miséria são os fenómenos claros da periferia. A ótica que subjaz ao recurso à noção de periferia não procura fazer dela um centro dinâmico e criativo que dominaria os espaços que estão sujeitos a ela. À periferia associa-se o abandono, a indiferença, por parte dos sistemas preocupados apenas com o seu próprio funcionamento. O centro é, portanto, marcado, antes de mais, pelo esquecimento que acompanha essa autorreferência. Neste sentido, pode-se dizer que tanto o centro quanto a periferia estão doentes, pois ignoram-se e protegem-se, sendo que a responsabilidade se situa do lado do centro, que não faz o esforço para se mover, mas aí está a sua razão de ser.

 

Bibliog.: impressa: GRIEU, É., “Évangéliser aux périphéries: oui, mais que veut dire ‘périphérie’?”, Lumen Vitae, n.º lxx, 2015, pp. 79-84; WOLF, E., Lire Ricœur depuis la Périphérie. Décolonisation, Modernité, Herméneutique, Bruxelles, Ed. Université de Bruxelles, 2021; digital: Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Santo Padre Francisco ao Episcopado, ao Clero às Pessoas Consagradas e aos Fiéis Leigos sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Actual, Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2013: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html (acedido a 31.12.2021).

 

Domingos Lourenço Vieira

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